
Quando amar a si mesmo deixa de ser virtude e se transforma em idolatria
Vivemos numa época em que a expressão “amor próprio” se tornou quase um mandamento.
“Faça o que te faz feliz.”
“Coloque-se sempre em primeiro lugar.”
“Não aceite nada que contrarie a sua vontade.”
“Você não deve satisfação a ninguém.”
“Se algo incomoda você, simplesmente abandone.”
À primeira vista, tudo isso parece liberdade, autoestima e cuidado pessoal.
Mas existe uma pergunta que o cristão precisa fazer:
E se esse “amor próprio” estiver ensinando você a amar a si mesmo mais do que a Deus?
É justamente aqui que a tradição católica faz uma distinção profunda.
Existe um amor legítimo por si mesmo, querido por Deus. Mas existe também um amor próprio desordenado, que transforma o próprio ego em centro da existência.
E quando o “eu” passa a ocupar o lugar de Deus, aquilo que parecia autoestima pode se transformar em uma forma de idolatria.
São Paulo chega a utilizar uma expressão impressionante para descrever uma sociedade afastada de Deus:
“Os homens serão amantes de si mesmos, amantes do dinheiro, arrogantes, soberbos...”
2Timóteo 3,2
No grego, Paulo utiliza a palavra φίλαυτοι (philautoi), literalmente “amantes de si mesmos”.
O interessante é que Paulo não está simplesmente condenando o fato de uma pessoa reconhecer o próprio valor. O problema é colocar o próprio “eu” no centro da vida.
O homem começa amando a si mesmo de maneira desordenada, depois passa a amar o dinheiro, a própria imagem, o próprio prazer, a própria vontade e, finalmente, começa a considerar Deus como alguém que deve se adaptar aos seus desejos.
É aqui que começa o problema espiritual.
A Bíblia realmente manda negar a si mesmo
Talvez uma das frases mais desconfortáveis de Jesus para a mentalidade moderna seja esta:
“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”
Mateus 16,24
No grego:
ἀπαρνησάσθω ἑαυτόν (aparnésásthō heautón)
A expressão significa literalmente algo como “renuncie a si mesmo”, “negue a si mesmo”.
Jesus não está dizendo:
“Aprenda a odiar a si mesmo.”
Ele está dizendo:
“Não faça do seu próprio eu o seu deus.”
Essa diferença é fundamental.
O cristianismo não ensina autodesprezo. Ensina a colocar o “eu” no lugar correto.
O homem não foi criado para viver girando em torno de si mesmo.
Foi criado para Deus.
Santo Agostinho expressou isso de maneira extraordinária:
“Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”
Santo Agostinho, Confissões, I, 1,1.
O problema do coração humano não é simplesmente falta de autoestima.
É que frequentemente tentamos encontrar em nós mesmos aquilo que somente Deus pode oferecer.
O amor próprio pode ser bom?
Sim.
E isso precisa ser afirmado claramente.
A Igreja Católica não ensina que o cristão deve odiar a si mesmo.
O próprio Jesus disse:
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
Mateus 22,39
Perceba algo impressionante.
Jesus utiliza o amor que a pessoa naturalmente possui por si mesma como medida para o amor ao próximo.
São Tomás de Aquino explica que o homem pode e deve amar a si mesmo de maneira ordenada.
Na Suma Teológica, II-II, questão 25, artigo 4, Santo Tomás explica que o homem pode amar a si mesmo pela caridade, isto é, desejar para si o verdadeiro bem, principalmente Deus.
Portanto, existe uma diferença enorme entre:
“Eu tenho valor porque Deus me criou.”
e
“Eu sou o centro do universo porque tudo deve satisfazer minhas vontades.”
A primeira afirmação pode ser profundamente cristã.
A segunda é espiritualmente perigosa.
O problema não é amar a si mesmo, mas amar-se sem Deus
Aqui encontramos uma das chaves da espiritualidade católica.
Santo Agostinho escreveu em sua reflexão sobre as duas cidades:
“A vontade correta é o amor bem dirigido, e a vontade errada é o amor mal dirigido.”
Santo Agostinho, A Cidade de Deus, XIV, 7.
Essa frase é fundamental para compreender o problema.
O pecado não consiste simplesmente em amar.
O pecado pode consistir em amar uma coisa boa na ordem errada.
Eu posso amar minha vida.
Posso amar minha família.
Posso cuidar do meu corpo.
Posso desejar felicidade.
Posso buscar descanso.
Posso proteger minha dignidade.
Tudo isso pode ser legítimo.
Mas existe uma pergunta que precisa acompanhar tudo:
O que ocupa o primeiro lugar?
Porque o primeiro mandamento não diz:
“Amarás a ti mesmo acima de todas as coisas.”
Ele diz:
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito.”
Mateus 22,37
E Jesus acrescenta:
“Este é o maior e o primeiro mandamento.”
O Catecismo confirma essa ordem. O parágrafo 1822 ensina que a caridade é a virtude pela qual amamos “a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo, e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus”.
Portanto, a ordem cristã é:
Deus acima de tudo.
Depois, o próximo.
E o próprio eu também deve ser amado, mas em Deus e segundo Deus.
Quando o amor próprio se torna diabólico?
É importante usar essa expressão com precisão.
Não significa necessariamente que toda pessoa que fala em “amor próprio” esteja conscientemente servindo ao demônio.
A questão é espiritual.
O amor próprio pode se tornar diabólico em sua estrutura quando reproduz a lógica da soberba: “eu sou a medida de todas as coisas”.
O diabo, na tradição cristã, está associado precisamente à soberba e à revolta contra Deus.
O pecado original apresenta essa mesma tentação.
A serpente diz:
“Sereis como deuses.”
Gênesis 3,5
A tentação não era simplesmente desejar alguma coisa.
Era desejar a condição divina independentemente de Deus.
É a criatura dizendo:
“Eu quero determinar por mim mesmo o que é bem e o que é mal.”
E essa lógica continua extremamente atual.
“Minha vontade determina o certo.”
“Meu desejo determina a verdade.”
“Minha felicidade determina o que devo fazer.”
“Se Deus me pede algo que não quero, então Deus está errado.”
Aqui o amor próprio deixa de ser amor e começa a se transformar em autoadoração.
A soberba transforma o “eu” em um pequeno deus
É por isso que a tradição católica sempre tratou a soberba com enorme seriedade.
O Catecismo ensina, no contexto dos pecados contra o amor de Deus, que o ódio a Deus nasce do orgulho e se opõe ao amor de Deus. CIC 2094.
Existe uma dinâmica muito interessante.
Primeiro a pessoa diz:
“Eu quero.”
Depois:
“Eu mereço.”
Depois:
“Ninguém pode me dizer não.”
Depois:
“Nem Deus pode interferir na minha vida.”
E finalmente:
“Eu decido o que é certo e errado.”
Perceba a transformação.
Começou como amor próprio.
Terminou como autonomia absoluta diante de Deus.
São Paulo apresenta dois tipos de amor
São Paulo utiliza novamente uma linguagem muito interessante:
“Os homens serão amantes de si mesmos...”
2Timóteo 3,2
O termo grego philautoi vem de phílos, “amigo/amante”, e autós, “si mesmo”.
Ou seja, literalmente:
“aqueles que amam a si mesmos.”
Mas Paulo coloca esse amor ao lado de outras atitudes:
“amantes do dinheiro”
“presunçosos”
“soberbos”
“blasfemadores”
“desobedientes aos pais”
“egoístas”
O contexto mostra que Paulo está descrevendo um amor próprio deformado pela soberba.
Não é o amor pelo próprio bem verdadeiro.
É o indivíduo fechado em si mesmo.
Santo Agostinho comenta esse mesmo texto e identifica o problema nos “amantes de si mesmos” como aqueles que se agradam de si próprios e presumem excessivamente de si mesmos. Comentário ao Salmo 106/107, 9.
A diferença entre autoestima cristã e narcisismo espiritual
A autoestima cristã diz:
“Eu tenho dignidade porque fui criado por Deus.”
O narcisismo espiritual diz:
“Eu tenho valor porque sou superior aos outros.”
A autoestima cristã diz:
“Meu corpo é um dom de Deus e devo cuidar dele.”
O egoísmo diz:
“Meu corpo existe para satisfazer todos os meus desejos.”
A autoestima cristã diz:
“Eu preciso descansar.”
O egoísmo diz:
“Ninguém tem o direito de exigir nada de mim.”
A autoestima cristã diz:
“Eu preciso estabelecer limites diante do mal.”
O egoísmo diz:
“Não aceito nenhuma correção.”
A autoestima cristã diz:
“Eu reconheço minhas feridas e procuro cura.”
A soberba diz:
“Todos precisam mudar, menos eu.”
Percebe a diferença?
O cristianismo não destrói a pessoa.
Ele destrói o falso deus que a pessoa construiu dentro de si.
Jesus não ensinou: “faça tudo o que você sente”
Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre o Evangelho e determinadas versões modernas de amor próprio.
Jesus nunca ensinou:
“Obedeça todos os seus desejos.”
Pelo contrário.
Ele ensinou:
“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”
Mateus 16,24
E São Paulo escreve:
“Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.”
Gálatas 2,20
Isso não significa que Paulo perdeu sua personalidade.
Significa que o “eu” deixou de ser o senhor absoluto da própria existência.
Cristo passou a ocupar o centro.
E essa é a verdadeira liberdade cristã.
O verdadeiro amor próprio deseja a salvação
Existe uma diferença enorme entre perguntar:
“O que eu quero?”
e perguntar:
“O que realmente é bom para mim?”
Uma criança pode querer comer apenas doces.
Mas um pai responsável não oferece aquilo que destrói a criança simplesmente porque ela deseja.
Da mesma maneira, o homem pode desejar coisas que prejudicam sua alma.
Por isso a pergunta cristã não pode ser simplesmente:
“Isso me faz feliz?”
A pergunta precisa ser:
“Isso me aproxima de Deus?”
Porque nem tudo aquilo que produz prazer produz felicidade.
Nem tudo aquilo que satisfaz produz santidade.
Nem tudo aquilo que parece liberdade conduz à verdadeira liberdade.
São Tomás de Aquino e o amor ordenado
São Tomás de Aquino apresenta uma contribuição extraordinária para essa questão.
Na Suma Teológica, II-II, q. 25, a. 4, ele explica que o homem pode amar a si mesmo com caridade.
Mas isso significa desejar para si o verdadeiro bem.
E qual é o verdadeiro bem último?
Deus.
Na mesma obra, ao explicar o mandamento de amar o próximo como a si mesmo, Santo Tomás mostra que devemos desejar para o próximo o verdadeiro bem, assim como desejamos para nós mesmos.
Isso destrói uma ideia moderna muito comum.
Amar a si mesmo não significa:
“dar ao meu eu tudo aquilo que ele deseja.”
Significa:
“querer para mim aquilo que realmente me conduz ao meu verdadeiro bem.”
E, para o cristão, o verdadeiro bem último é Deus.
Santo Agostinho e a luta entre dois amores
Uma das grandes contribuições de Santo Agostinho para a espiritualidade cristã está justamente na compreensão do amor.
Em A Cidade de Deus, ele apresenta a existência de duas orientações fundamentais do coração humano.
O amor de Deus conduz à humildade.
O amor desordenado de si mesmo conduz à exaltação do próprio eu.
Essa estrutura aparece na famosa distinção agostiniana entre a cidade de Deus e a cidade terrena.
Não significa que exista uma cidade onde todas as pessoas sejam boas e outra onde todas sejam más.
A questão é muito mais profunda.
É uma questão de qual amor governa o coração.
Quando Deus é o centro, o homem encontra seu verdadeiro lugar.
Quando o próprio ego é o centro, tudo passa a ser organizado em torno do “eu”.
Santo Agostinho resume o princípio de maneira extraordinária:
“A virtude é a ordem do amor.”
A ideia aparece na tradição agostiniana e é retomada por São Tomás de Aquino ao explicar a moral cristã.
A Igreja não manda odiar a si mesmo
Aqui precisamos evitar outro erro.
Algumas pessoas, ao ouvirem “renuncie a si mesmo”, concluem:
“Então preciso me odiar.”
Não.
O cristianismo não ensina que você deve desprezar a própria existência.
O próprio Catecismo afirma algo impressionante:
“O amor para consigo mesmo permanece um princípio fundamental de moralidade.”
Isso está no Catecismo da Igreja Católica, 2264.
O Catecismo chega a utilizar esse princípio para explicar a legitimidade da defesa da própria vida.
Portanto, cuidar de si não é pecado.
Proteger a própria vida não é pecado.
Buscar ajuda não é pecado.
Descansar não é pecado.
Cuidar da saúde não é pecado.
Estabelecer limites diante de uma situação injusta não é pecado.
O problema aparece quando o amor por si mesmo deixa de estar subordinado ao amor de Deus.
O verdadeiro problema é colocar o “eu” acima da cruz
Cristo não disse:
“Quem quiser me seguir faça sempre aquilo que lhe dá prazer.”
Ele disse:
“Tome a sua cruz e siga-me.”
A cruz representa justamente o contrário da religião do ego.
Na cruz, Cristo não pergunta:
“Como posso preservar meus privilégios?”
Ele se entrega.
São Paulo explica:
“Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus.”
Filipenses 2,5
E imediatamente apresenta Cristo como aquele que:
“humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz.”
Filipenses 2,8
Aqui encontramos o verdadeiro antídoto para o amor próprio desordenado:
a humildade.
Não o ódio de si.
Não a baixa autoestima.
Não a destruição da personalidade.
Mas a humildade.
A humildade não diz “eu não valho nada”
A humildade cristã não significa:
“Eu sou inútil.”
Ela significa:
“Tudo aquilo que sou recebi de Deus.”
São Paulo pergunta:
“Que é que possuis que não tenhas recebido?”
1Coríntios 4,7
E Santo Agostinho retoma exatamente essa ideia ao ensinar que até a capacidade de conhecer e amar a Deus é recebida d"Ele. A Cidade de Deus, XVII, 4.
Essa é a diferença entre humildade e desprezo de si.
A pessoa humilde reconhece:
“Tenho valor.”
Mas acrescenta:
“Meu valor é um dom.”
“Tenho talentos.”
“Mas recebi esses talentos.”
“Tenho inteligência.”
“Mas minha inteligência é dom.”
“Tenho beleza.”
“Mas minha beleza é passageira e recebida.”
“Tenho conquistas.”
“Mas não sou Deus.”
É exatamente aí que o coração encontra liberdade.
O amor próprio desordenado pode destruir relacionamentos
Quando o “eu” se torna absoluto, todas as relações começam a girar em torno da satisfação pessoal.
No casamento:
“Meu sentimento é mais importante que minha promessa.”
Na família:
“Só participo quando tenho vontade.”
Na amizade:
“Se você não concordar comigo, acabou.”
Na Igreja:
“Só aceito aquilo que combina com minhas opiniões.”
Na vida espiritual:
“Só acredito em um Deus que nunca me contrarie.”
Mas o Evangelho apresenta outra lógica:
“Ninguém procure o seu próprio interesse, mas o dos outros.”
1Coríntios 10,24
E ainda:
“Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um considere os outros superiores a si mesmo.”
Filipenses 2,3
Isso não significa considerar-se lixo.
Significa deixar de acreditar que o próprio ego precisa ser sempre o vencedor.
O amor cristão é sacrificial
Jesus disse:
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos.”
João 15,13
O amor cristão possui uma característica que a cultura do ego frequentemente rejeita:
ele sabe se sacrificar.
Amar é, muitas vezes, abrir mão.
Perdoar é abrir mão da vingança.
Servir é abrir mão da comodidade.
Ser fiel é abrir mão de determinadas possibilidades.
Ser pai e mãe é abrir mão de inúmeras vontades.
Ser esposo ou esposa é aprender a colocar o bem do outro dentro das próprias decisões.
Ser discípulo de Cristo é aprender a dizer:
“Não seja feita a minha vontade, mas a tua.”
Essa foi a oração de Jesus no Getsêmani:
“Não se faça, contudo, a minha vontade, mas a tua.”
Lucas 22,42
Se o próprio Cristo nos ensina a submeter sua vontade humana ao Pai, como podemos transformar nossa própria vontade em autoridade absoluta?
A tradição patrística já enxergava esse perigo
Os Padres da Igreja compreenderam profundamente que o problema humano não é simplesmente possuir amor por si mesmo.
É possuir um amor que perdeu sua ordem.
Santo Agostinho mostra que o amor pode ser dirigido corretamente ou incorretamente. Em A Cidade de Deus, XIV, 7, ele explica que a questão está na direção do amor e utiliza inclusive 2Timóteo 3,2 para falar daqueles que são “amantes de si mesmos”.
São Clemente de Alexandria também relaciona a expressão de 2Timóteo 3,2 aos homens que buscam a própria glória e se tornam “amantes de si mesmos”. Stromata, I.18, em sua exposição sobre a verdadeira sabedoria.
Portanto, essa preocupação não nasceu na espiritualidade moderna.
Ela acompanha a reflexão cristã desde os primeiros séculos.
O Catecismo apresenta a ordem correta do amor
O Catecismo é muito claro.
O CIC 1822 define a caridade como o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.
O CIC 2093 ensina que o primeiro mandamento nos obriga a amar Deus acima de tudo e todas as criaturas por Ele e por causa d"Ele.
O CIC 2094 recorda inclusive que existem formas de pecado contra o amor de Deus, entre elas a indiferença, a ingratidão, a tibieza e a acédia.
E o CIC 2264 afirma explicitamente que o amor para consigo mesmo permanece um princípio fundamental da moralidade.
Portanto, a doutrina católica não diz:
“Não ame a si mesmo.”
Ela diz:
“Ame a si mesmo corretamente.”
Então, quando o amor próprio se torna pecado?
Quando o “eu” passa a ocupar o lugar de Deus.
Quando minha vontade se torna mais importante que a vontade divina.
Quando minha felicidade passa a justificar qualquer pecado.
Quando meus desejos passam a determinar o que é moralmente correto.
Quando não aceito nenhuma correção.
Quando não consigo pedir perdão.
Quando considero qualquer renúncia uma violência contra minha liberdade.
Quando abandono minha vocação porque ela exige sacrifício.
Quando transformo meus sentimentos em autoridade absoluta.
Quando digo:
“Deus precisa aceitar quem eu decidi ser.”
em vez de perguntar:
“Senhor, quem Tu queres que eu seja?”
É aqui que o amor próprio pode se tornar espiritualmente diabólico.
O verdadeiro amor próprio quer levar você para o Céu
Existe uma ironia profunda.
A cultura pode dizer:
“Você precisa se amar.”
O Evangelho responde:
“Sim. Mas ame-se o suficiente para desejar sua própria salvação.”
Se eu realmente amo a mim mesmo, não quero apenas sentir-me bem.
Quero tornar-me santo.
Não quero apenas ter prazer.
Quero possuir Deus.
Não quero apenas evitar sofrimento.
Quero ser fiel.
Não quero apenas preservar minha vontade.
Quero descobrir a vontade de Deus.
Não quero apenas proteger meu ego.
Quero permitir que Cristo transforme meu coração.
Santo Agostinho compreendeu isso de maneira extraordinária:
“Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”
Confissões, I, 1,1.
O homem que tenta encontrar seu centro em si mesmo continuará inquieto.
Porque fomos feitos para um centro maior do que nós.
O verdadeiro amor próprio termina em Deus
No final das contas, existe uma pergunta que revela se o nosso amor próprio é saudável ou desordenado:
“Aquilo que eu quero para mim me aproxima ou me afasta de Deus?”
Se me aproxima de Deus, posso recebê-lo com gratidão.
Se me afasta de Deus, preciso ter coragem de renunciar.
É por isso que Jesus não manda destruir o “eu”.
Ele manda renunciar ao eu que quer ocupar o trono de Deus.
Existe um “eu” que precisa ser amado.
Mas existe também um “eu” que precisa morrer.
O primeiro é a pessoa criada por Deus.
O segundo é o ego soberbo que deseja ser deus.
E talvez seja exatamente por isso que Jesus tenha dito:
“Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la.”
Mateus 16,25
O paradoxo do Evangelho é esse:
quando o homem deixa de fazer de si mesmo o seu deus, finalmente descobre quem ele realmente é.
Porque o homem não encontra sua verdadeira identidade olhando apenas para dentro de si.
Ele a encontra olhando para Cristo.
E talvez a pergunta mais importante não seja:
“Eu estou me amando?”
Mas:
“O amor que tenho por mim está me levando para Deus ou está colocando o meu próprio ego no lugar de Deus?”
Essa é a diferença entre autoestima e idolatria.
Entre dignidade e soberba.
Entre liberdade e escravidão.
Entre amor verdadeiro e amor próprio desordenado.
E entre seguir a voz do próprio ego e seguir Jesus Cristo.
Porque o problema nunca foi amar a si mesmo.
O problema começa quando você ama a si mesmo mais do que ama a Deus.





