Arrebatamento da Igreja existe mesmo ou é mais uma invenção Protestante?


RESPONDENDO DE PRONTO à pergunta título: tal e qual vem sendo pregado por algumas dentre as muitas "igrejas" ditas "evangélicas", não. O tão falado “arrebatamento” refere-se a uma passagem da primeira Carta aos Tessalonicenses, capítulo 4, que fala sobre cristãos sendo “raptados” e levados às nuvens para encontrarem o Senhor nos ares, além de algumas outras passagens bíblicas difusas e de difícil interpretação (são elas: Ap 3,10; Lc 17,34-35; Mt 24,40-41). [Clique aqui e aprenda a interpretar a Bíblia com a Igreja Católica].

RESPONDENDO DE PRONTO à pergunta título: tal e qual vem sendo pregado por algumas dentre as muitas "igrejas" ditas "evangélicas", não. O tão falado “arrebatamento” refere-se a uma passagem da primeira Carta aos Tessalonicenses, capítulo 4, que fala sobre cristãos sendo “raptados” e levados às nuvens para encontrarem o Senhor nos ares, além de algumas outras passagens bíblicas difusas e de difícil interpretação (são elas: Ap 3,10; Lc 17,34-35; Mt 24,40-41). [Clique aqui e aprenda a interpretar a Bíblia com a Igreja Católica].

Muitos protestantes têm interpretações equivocadas dessas passagens, tanto assim que, a esse respeito, umas congregações disputam com outras, e um livro publicado inicialmente no ano de 1995 nos EUA, intitulado “Left Behind” ("Deixados para Trás"), e que de lá para cá ganhou diversas novas edições, ajudou consideravelmente a popularizar essa ideia de que os fieis serão literalmente “raptados” deste mundo para encontrar o Senhor antes da grande tribulação que se aproxima. – Segundo essa teoria, os cristãos vão simplesmente "desaparecer" do convívio de todos, para encontrarem-se com Jesus nas nuvens e depois avançarem com Ele ao Céu para aguardar o fim dos tempos.

O livro “Left Behind” ganhou esse título a partir de uma passagem de Lc 17 e outra semelhante em Mt 24, que falam da vinda do Senhor como nos dias de Noé e nos dias de Lot. E Evangelho segundo S. Mateus (24) diz o seguinte:

Como foram os dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem … eles comiam, bebiam, casavam-se e eles não sabiam até que veio o dilúvio e os varreu a todos, assim será também a vinda do Filho do homem. Em seguida, dois homens estarão a trabalhar no campo, um será levado e o outro será deixado para trás. Duas mulheres estarão a moer no moinho, uma será levada a outra será deixada para trás.


“Veja”, argumentam os entusiastas da interpretação literal do arrebatamento, “um será levado, o outro deixado. É o arrebatamento! Jesus leva os cristãos e deixa os ímpios para trás!”...

Mas há problemas com essa interpretação. Note-se que a vinda de Jesus está sendo comparada aos que ocorreu nos dias de Noé e nos dias de Lot. Sendo assim, vejamos: depois do dilúvio, quem foi deixado? Noé e sua família, que eram exatamente os justos, enquanto os pecadores foram levados. Também nos tempos de Lot, depois que Sodoma e Gomorra tornaram-se cinzas, quem foi deixado? Lot e suas filhas, os justos, mas os pecadores foram levados.

Em segundo lugar, lembremo-nos do versículo 17 de 1Ts, que diz que aqueles que são “deixados” é que vão ao encontro de Jesus nos ares, não os que são levados. Ou seja, os justos são deixados para trás. – Em outras palavras, o cristão deveria desejar ser deixado para trás, para que possa ir ao encontro de Jesus, que irá acompanhá-lo de volta à Terra em sua segunda e definitiva vinda. – Portanto, não haverá arrebatamento tal e qual tratam publicações como "Left Behind".


Explicação de cada uma das teorias protestantes sobre o arrebatamento


Qual a sua versão do arrebatamento? – Você é "pré", "médio/meso" ou "pós? – Se você não sabe como responder a essa pergunta, você provavelmente é católico. A maioria dos fundamentalistas dentre os ditos "evangélicos" sabe que essas palavras são sinônimos de pré-tribulação, meso-tribulação e pós-tribulação. Os termos referem-se a quando o arrebatamento deve ocorrer. Este é um pondo.


O Milênio

Em Apocalipse 20,1-3; 7-8, lemos:

Vi, então, descer do céu um anjo que tinha na mão a chave do abismo e uma grande algema. Ele apanhou o Dragão, a primitiva Serpente, que é o Demônio e Satanás, e o acorrentou por mil anos. Atirou-o no abismo, que fechou e selou por cima, para que já não seduzisse as nações, até que se completassem mil anos. Depois disso, ele deve ser solto por um pouco de tempo. (...) Depois de se completarem mil anos, Satanás será solto da prisão. Sairá dela para seduzir as nações dos quatro cantos da Terra (Gog e Magog) e reuni-las para o combate. Serão numerosas como a areia do mar.


O período de mil anos, conforme nos diz o autor sagrado, é o Reinado de Cristo. Esse período é popularmente chamado de Milênio. O Milênio é o prenúncio do fim do mundo. O capítulo 20 do Apocalipse é interpretado de três maneiras por diferentes protestantes conservadores: as três escolas de pensamento são chamadas pós-milenismo, amilenismo e pré-milenismo. Vamos analisá-las brevemente.


Pós-Milenismo

Segundo Loraine Boettner, no seu livro "Millennium" (mesmo autor do caluniuoso do patético livro anticatólico "Catolicismo Romano"), pós-milenismo é “a visão de que as últimas coisas que sustentam o Reino de Deus estão sendo estendidas no mundo agora, através da pregação do Evangelho e da obra salvadora do Espírito Santo; que o mundo finalmente está para ser cristianizado, e que o retorno de Cristo ocorrerá no final de um longo período de justiça e paz, comumente chamado de Milênio".

Esta opinião foi popular entre os protestantes do século XIX, quando o progresso era esperado até mesmo na religião e antes dos horrores do século XX . Hoje, poucos a mantêm, exceto grupos como os reconstrucionistas cristãos, uma consequência do movimento conservador presbiteriano.

Comentaristas apontam que o pós-milenismo deve ser distinguido da visão de teólogos liberais e seculares que preveem melhoria social e até mesmo que o Reino de Deus venha puramente através de meios naturais, ao invés de sobrenaturais. Pos-milenialistas, no entanto, argumentam que o homem seja incapaz de construir um "paraíso terrestre" por si mesmo; o Paraíso só virá pela Graça de Deus.

Pos-milenialistas típicos também dizem que o milênio mencionado em Apocalipse 20 deve ser entendido em sentido figurado e que a expressão “mil anos” não se refere necessariamente a um período fixo de dez séculos, mas a um tempo indefinidamente longo. Por exemplo, o Salmo 50 (vs. 10) fala da Soberania de Deus sobre tudo o que existe e diz-nos que Deus é o Dono “do gado sobre milhares de montanhas”, o que não é para ser entendido literalmente. No final do milênio, aconteceria então a Segunda Vinda, a ressurreição geral dos mortos e o Juízo Final.

O problema com a ‘teoria’ do pós-milenismo é que a Bíblia não descreve que o mundo vivenciará um período de cristianização completa (ou relativamente completa) antes da Segunda Vinda. Existem inúmeras passagens que falam da era entre a primeira e a segunda vinda como um momento de grande tristeza e luta para os cristãos. Uma passagem reveladora é a parábola do trigo e do joio (Mt 13,24-30; 36-43). Nesta, o Cristo declara que os justos e os ímpios serão ambos plantados e crescerão lado a lado no campo de Deus ("o campo é o mundo", conf. Mt 13,38) até o fim do mundo, quando serão separados, julgados, e serão ou lançados no fogo do inferno ou herdarão o Reino de Deus (Mt 13,41-43).

Não há nenhuma evidência bíblica de que o mundo acabará por tornar-se totalmente (ou mesmo quase que totalmente) cristão, mas que sempre haverá um desenvolvimento paralelo dos justos e os ímpios até o Julgamento Final.


Amilenismo


A visão amilenista interpreta Apocalipse 20 simbolicamente, e não vê o Milênio como uma era de ouro terrestre em que o mundo será totalmente cristianizado, mas como o atual período de reinado de Cristo no Céu e na Terra, através da sua Igreja (que para os protestantes é apenas o conjunto dos que "aceitam a Jesus como Senhor e Salvador", espalhados no mundo). Esta foi a opinião dos chamados "reformadores" protestantes e ainda é a visão mais comum entre os protestantes tradicionais, embora não seja assim entre a maioria dos chamados "evangélicos" mais novos e as seitas fundamentalistas.

Amilenistas também acreditam na coexistência do bem e do mal na Terra até ao fim. Para estes, a tensão que existe na Terra entre os justos e os ímpios será resolvida apenas com a volta do Cristo no fim dos tempos. A idade de ouro do Milênio seria, ao invés, o Reinado celestial de Cristo com os santos, do qual a Igreja na Terra participa de alguma forma, embora não da forma gloriosa como será na Segunda Vinda.

Amilenistas salientam que os tronos dos santos que reinarão com Cristo durante o milênio parecem fixados no Céu (Ap 20,4) e que o texto nada diz sobre Cristo na Terra durante esse Reinado com os santos. "Explicam" eles que, embora o mundo nunca vá ser totalmente cristianizado até a Segunda Vinda, o Milênio não tem efeitos sobre a Terra a que Satanás está preso, de tal forma que ele não poderá enganar as nações no sentido de dificultar a pregação do Evangelho (Ap 20,3). Eles apontam que Jesus falou da necessidade de “amarrar o homem forte” (Satanás), a fim de saquear a sua casa, resgatando as pessoas de seu aperto (Mt 12,29).

Quando os discípulos voltaram de uma turnê de pregação do Evangelho, rejubilando-se com a forma como os demônios estavam sujeitos a eles, Jesus declarou: “Eu vi Satanás cair como um relâmpago” (Lc 10,18). Assim, para o evangelho avançar em todo o mundo, é necessário que Satanás seja atado em um sentido, mesmo que ele ainda possa estar ativo (1Pd 5,8).

O Milênio é uma época de ouro não quando comparado com as glórias do porvir, mas em comparação a todas as eras anteriores da história humana, nas quais o mundo fora engolido em trevas pagãs. Hoje, um terço da raça humana é cristã, e muitos mais ainda repudiam os ídolos pagãos e abraçam o culto ao Deus de Abraão, Isaac e Israel.


Pré-Milenismo

Em terceiro lugar na lista, há o pré-milenismo, atualmente o mais popular entre os fundamentalistas e ditos "evangélicos" (ainda que, há um século atrás, fosse o amilenismo). A maioria dos livros escritos sobre o fim dos tempos, como o de Hal Lindsey, "A Agonia do Grande Planeta Terra", são escritos sob uma perspectiva pré-milenista.

Como os pós-milenistas, os pré-milenistas acreditam que os mil anos sejam uma era de ouro na Terra, durante a qual o mundo será completamente cristianizado. Ao contrário dos pós-milenistas, acreditam que essa era irá ocorrer após a Segunda Vinda e não antes, para que Cristo reine fisicamente na Terra durante o Milênio. Eles acreditam que o Juízo Final só ocorrerá após o fim do Milênio, o que muitos interpretam como um período de exatamente mil anos.

Mas as Escrituras não apoiam a ideia de um período de mil anos entre a Segunda Vinda e o Juízo Final. Cristo declara: “Porque o Filho do Homem há de vir com os seus anjos na glória de seu Pai, e então retribuirá a cada homem pelo que ele tem feito” (Mt 16,27), e “Quando o Filho do Homem vier na sua Glória, e todos os anjos com Ele, então, se assentará em seu Trono glorioso. Diante dEle serão reunidas todas as nações, e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos …. E eles [os bodes] irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna" (Mt 25,31-32, 46).


Doutrina do  Arrebatamento

Os pré-milenistas muitas vezes dão muita atenção à doutrina do arrebatamento. De acordo com essa doutrina, quando Cristo voltar, todos os eleitos que morreram serão ressuscitados em seus corpos físicos e transformados a um estado de glória, junto com os eleitos viventes, e então serão arrebatados para estarem com Cristo. O texto-chave referente ao arrebatamento é 1Ts 4,16-17, que afirma: “Porque o mesmo Senhor descerá do Céu com um grito de comando, com o chamado do Arcanjo e com o som da Trombeta de Deus. E os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro, depois nós, os vivos, que ficam, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor ".

Os pré-milenistas acreditam, assim como praticamente todos os cristãos (exceto alguns pós-milenistas), que a segunda vinda será precedida por um momento de grande aflição e perseguição do povo de Deus (2Ts 2,1-4). Esse período é chamado frequentemente a tribulação. Até o século XIX, todos os cristãos concordavam que o arrebatamento, – embora não fosse chamado assim, – ocorreria imediatamente antes da Segunda Vinda, no final do período de perseguição. Esta posição hoje é chamada de “pós-tribulacional” porque afirma que o arrebatamento virá depois da tribulação.

John N. Darby

Mas em 1800, alguns começaram a clamar que o arrebatamento ocorrerá antes do período de perseguição. Esta posição, hoje conhecida como o ponto de vista ”pré-tribulacional”, também foi abraçada por John Nelson Darby, um dos primeiros líderes de um movimento fundamentalista que ficou conhecido como dispensacionalismo. A visão pré-tribulacional do arrebatamento de Darby foi então adotada por um homem chamado Cyrus Ingerson Scofield, que ensinou esta posição nas notas de rodapé de sua Bíblia de Referência Scofield, que foi amplamente distribuída na Inglaterra e nos Estados Unidos.

C. I. Scofield

Muitos protestantes que leram a chamada "Bíblia de Referência Scofield" aceitaram sem críticas esta sua interpretação particular, e adotaram a sua visão pré-tribulacional, apesar de que qualquer cristão jamais tivesse ouvido falar de algo assim nos 1800 anos anteriores de história da Igreja.

Eventualmente, uma terceira posição foi desenvolvida, ficando conhecida como a “meso-tribulacional” ponto de vista que afirma que o arrebatamento ocorrerá durante o meio da tribulação.

Finalmente, um quarto ponto de vista elaborou que não haverá um arrebatamento único no qual todos os crentes serão reunidos a Cristo, mas que haverá uma série de "mini-arrebatamentos" que ocorrerão em momentos diferentes com relação à tribulação. Nem seria preciso esclarecer que toda essa confusão fez com que o movimento se dividisse em campos mais ou menos radicalmente opostos.

O problema com todas essas posições (exceto o ponto de vista histórico, pós-tribulacional, o qual foi aceito por todos, inclusive os não pre-milenialistas) é que eles dividem a Segunda Vinda em eventos diferentes. No caso da visão pré-tribulacionista, acredita-se que Cristo teria três vindas: uma quando nasceu em Belém, uma quando retornará para o arrebatamento no início da tribulação e uma no final da tribulação, quando estabelece o Milênio. Esse ponto de vista, de três vindas, parece contrário às Sagradas Escrituras.

Dale Moody

Os problemas com a visão pré-tribulacional são evidenciados pelo teólogo (e pré-milenista) batista Dale Moody, que escreveu:… “A crença em um arrebatamento pré-tribulacional contradiz todos os três capítulos do Novo Testamento que mencionam a tribulação e o arrebatamento juntos (Mc 13,24-27; Mt 24,26-31; 2Ts 2,1-12). A teoria é tão falida biblicamente que a habitual defesa é feita através de três passagens que não chegam a mencionar uma tribulação (Jo 14,3; 1Ts 4,17; 1Cor 15,52)". Estas são passagens mais importantes, mas elas não dizem uma palavra sobre um arrebatamento pré-tribulacional. A pontuação é de três a zero, três passagens que ensinam um arrebatamento pós-tribulacional e três que não dizem nada sobre o assunto.


Afinal, qual é a posição católica?

Depois de nos dedicarmos à tarefa inglória de tentar esclarecer tamanha confusão, faz-se necessário dizer da postura da primeira Igreja quanto ao assunto. Vamos a ela.

Sobre o Milênio, nós, católicos, tendemos a concordar com Sto. Agostinho e com os amilenistas. Assim, a posição católica tem sido historicamente “amilenista”, embora não usemos esse termo, ao menos costumeiramente. A Igreja tem rejeitado a posição pré-milenista, às vezes chamada de “milenarismo” (cf. Catecismo da Igreja Católica, §676). Embora a Igreja não tenha dogmaticamente definido a questão, em 1940 o Santo Ofício considerou que o pré-milenismo “não pode ser ensinado com segurança”.

Com relação ao arrebatamento, os católicos certamente acreditam que o evento de nossa reunião com Cristo terá lugar, embora geralmente não usem comumente a palavra “arrebatamento” para se referir a esse momento. – Situação que traz em si certa ironia, uma vez que o termo “arrebatamento” é derivado dos textos da Vulgata Latina, a tradução oficial da Bíblia Católica, em 1Ts 4,17 – que significa "seremos raptados" (do latim rapiemur).

Nihil obstat:  
Cheguei à conclusão de que os materiais 
apresentados
neste trabalho estão livres de erros doutrinais ou morais.
Bernadeane Carr, STL, Censor Librorum, agosto 10, 2004

 

Imprimatur:  
De acordo com 1983 CIC 827 
Permissão
para publicar este trabalho é concedida.

 

† Robert H. Brom,
Bispo de San Diego, 10 de agosto de 2004



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Fonte: https://www.ofielcatolico.com.br/2005/06/a-igreja-e-o-arrebatamento.html