Você sabia que a grandeza de São Miguel está profundamente ligada à sua humildade e obediência?


Se a verdadeira força não está no poder, mas na obediência, o que isso nos ensina sobre a vida cristã? Por que Deus escolheu justamente um anjo considerado “inferior” para se tornar o maior defensor da fé? Será que a grandeza espiritual só pode ser alcançada através da humildade? O que a obediência de São Miguel revela sobre a luta contra o orgulho e a rebeldia? Em um mundo que valoriza status e poder, como podemos aprender com São Miguel a vencer pela submissão à vontade divina? Se até os anjos são exaltados pela humildade, o que isso significa para nós, que tantas vezes buscamos reconhecimento humano?

São Miguel, a humildade que vence o orgulho e a grandeza que nasce da obediência

Você sabia que a grandeza de São Miguel está profundamente ligada à sua humildade e obediência?

Existe uma afirmação muito difundida na internet e em alguns ambientes de espiritualidade católica segundo a qual São Miguel teria pertencido originalmente a uma classe de anjos muito inferior e, por causa de sua humildade e obediência, teria sido elevado até se tornar o maior dos anjos.

A ideia contém uma bela lição espiritual, mas precisa ser tratada com cuidado.

A Igreja Católica não ensina como dogma que São Miguel tenha começado em um coro inferior e posteriormente sido promovido a um coro superior. A Sagrada Escritura também não apresenta essa narrativa.

Na realidade, quando examinamos atentamente a Bíblia, os Padres da Igreja, os Doutores da Igreja e o Catecismo, encontramos algo muito mais sólido.

São Miguel já aparece nas Escrituras como um dos grandes príncipes celestes. No Novo Testamento, ele é chamado explicitamente de "arcanjo". E, sobretudo, sua grandeza não aparece como uma espécie de autonomia ou exaltação pessoal, mas como serviço, combate espiritual, proteção do povo de Deus e submissão à autoridade divina.

É precisamente aí que encontramos a verdadeira mensagem de São Miguel.

Sua grandeza não está em querer ser Deus.

Sua grandeza está em permanecer radicalmente do lado de Deus.

O próprio nome Miguel já contém uma profissão de humildade

O nome Miguel vem do hebraico מִיכָאֵל, Mikha"el, normalmente entendido como uma pergunta: "Quem é como Deus?"

Isso é muito mais profundo do que simplesmente um nome próprio.

"Quem é como Deus?" é praticamente uma resposta ao pecado do orgulho.

O orgulho quer dizer: "Eu serei como Deus."

A humildade responde: "Quem é como Deus?"

A tradição cristã sempre percebeu uma oposição espiritual entre a soberba dos anjos rebeldes e a fidelidade dos anjos que permaneceram com Deus.

São Agostinho, ao tratar da queda dos anjos, escreve que os anjos rebeldes foram derrubados por sua soberba, enquanto os demais permaneceram na piedade e na obediência ao Senhor.

Santo Agostinho, Enchiridion, capítulo 28, apresenta justamente esse contraste entre a soberba dos anjos caídos e a firmeza daqueles que permaneceram fiéis a Deus.

Por isso, o próprio nome Miguel pode ser contemplado como uma espécie de grito espiritual contra a soberba:

"Quem é como Deus?"

Não "quem é como eu?"

Não "quem é maior do que eu?"

Não "quem ocupará o meu lugar?"

Mas:

"Quem é como Deus?"

A Bíblia não apresenta Miguel como um anjo insignificante

É justamente aqui que precisamos corrigir a afirmação de que São Miguel teria pertencido a uma classe muito inferior.

No livro de Daniel, Miguel é apresentado de maneira extraordinariamente elevada.

Daniel 10,13 diz:

"Mas eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio em meu auxílio."

No hebraico encontramos:

מִיכָאֵל אַחַד הַשָּׂרִים הָרִאשֹׁנִים

Mîkhā"ēl "aḥad haśśārîm hārišōnîm.

A expressão הַשָּׂרִים הָרִאשֹׁנִים indica os "primeiros", "principais" ou "chefes" entre os príncipes.

Ou seja, o texto não apresenta Miguel como um anjo obscuro que posteriormente conquistou uma posição elevada. Pelo contrário, ele aparece entre os grandes príncipes celestes.

Daniel 10,21 acrescenta:

"Não há quem me apoie contra eles, senão Miguel, vosso príncipe."

E Daniel 12,1 apresenta uma imagem ainda mais impressionante:

"Naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, que se conserva junto dos filhos do teu povo."

A Escritura, portanto, associa Miguel à ideia de príncipe, defensor e protetor do povo de Deus.

São Miguel é chamado de Arcanjo

Quando chegamos ao Novo Testamento, encontramos uma afirmação ainda mais direta.

A Carta de São Judas diz:

"Ora, quando o arcanjo Miguel, contendendo com o diabo, disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar contra ele juízo de maldição, mas disse: "O Senhor te repreenda!""

Judas 9.

No grego:

ὁ δὲ Μιχαὴλ ὁ ἀρχάγγελος

"Mas Miguel, o arcanjo..."

A palavra utilizada é ἀρχάγγελος, archángelos.

Ela é formada por archē, princípio, autoridade ou posição de destaque, e angelos, mensageiro.

O próprio texto bíblico, portanto, não chama Miguel simplesmente de "um anjo qualquer".

Ele o chama de "o arcanjo".

A palavra grega é importante porque mostra que a própria Escritura apresenta Miguel como uma figura de elevada dignidade dentro da realidade angélica.

 

 

E aqui aparece uma das maiores lições de humildade de São Miguel

Talvez o detalhe mais extraordinário de Judas 9 não seja simplesmente o fato de Miguel enfrentar o demônio.

É a maneira como ele enfrenta.

São Judas afirma que Miguel, disputando com o diabo, "não ousou pronunciar contra ele juízo de maldição".

E então diz:

"ἐπιτιμήσαι σοι Κύριος"

"Que o Senhor te repreenda."

Perceba a diferença.

Miguel possui autoridade.

Miguel combate o demônio.

Miguel é chamado de arcanjo.

Miguel é apresentado como príncipe.

Mas Miguel não age como se a autoridade fosse dele independentemente de Deus.

Ele não diz:

"Eu te condeno."

Ele diz:

"Que o Senhor te repreenda."

Isso é uma imagem extraordinária da humildade angélica.

A verdadeira autoridade não significa independência de Deus.

A verdadeira autoridade significa participar da autoridade de Deus sem usurpá-la.

São Miguel não precisa ocupar o lugar de Deus

Existe uma profunda diferença entre autoridade e soberba.

A autoridade cristã é recebida.

A soberba pretende possuir aquilo que pertence a Deus.

Miguel combate precisamente essa lógica.

Seu próprio nome pergunta:

"Quem é como Deus?"

E quando enfrenta Satanás, sua resposta é coerente com o próprio nome:

"Que o Senhor te repreenda."

O demônio quer agir independentemente de Deus.

Miguel vence permanecendo dependente de Deus.

É aqui que podemos compreender uma das grandes mensagens espirituais da devoção a São Miguel.

São Miguel não é grande porque substitui Deus.

Ele é grande porque serve a Deus.

A grande batalha do Apocalipse

O livro do Apocalipse apresenta outra passagem fundamental.

Apocalipse 12,7 afirma:

"Então houve uma batalha no céu: Miguel e seus anjos combateram contra o Dragão."

O grego diz:

Καὶ ἐγένετο πόλεμος ἐν τῷ οὐρανῷ, ὁ Μιχαὴλ καὶ οἱ ἄγγελοι αὐτοῦ...

"E houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos..."

A expressão "seus anjos" demonstra a posição de liderança exercida por Miguel no combate celeste.

Mas observe novamente o sentido espiritual.

Miguel não combate para construir um reino próprio.

Ele combate contra aquele que pretende se opor a Deus.

A batalha de Miguel é, portanto, uma batalha pela soberania de Deus.

O nome "Quem é como Deus?" encontra aqui sua expressão perfeita.

O grande contraste: orgulho contra obediência

A tradição cristã frequentemente interpreta a queda dos anjos maus à luz do orgulho.

São Agostinho escreve que aqueles que caíram foram elevados pela soberba e, justamente por essa exaltação, foram derrubados. Os outros permaneceram "na piedade e obediência" ao Senhor.

Santo Agostinho, Enchiridion, capítulo 28.

Em outra obra, De Trinitate, Santo Agostinho estabelece uma comparação belíssima entre o caminho da soberba e o caminho da humildade.

Ele escreve que o demônio conduziu o homem à morte através do orgulho, enquanto Cristo conduziu o homem à vida através da humildade e da obediência.

Santo Agostinho, De Trinitate, livro IV, capítulo 10.

Aqui está uma chave importantíssima para compreender São Miguel.

A tradição cristã não coloca Miguel no centro porque ele seria um "super-herói celestial".

Miguel é grande porque sua missão está orientada para Deus.

A verdadeira hierarquia dos anjos

Mas afinal, o que a Igreja ensina sobre as classes ou coros dos anjos?

A Bíblia apresenta diversos nomes para os seres celestes.

Encontramos querubins em Gênesis 3,24 e em outras passagens do Antigo Testamento.

Encontramos serafins em Isaías 6,2.

Encontramos anjos e arcanjos.

São Paulo menciona "tronos, dominações, principados e potestades" em Colossenses 1,16.

Em Efésios 1,21 aparecem principado, potestade, poder e dominação.

A tradição teológica cristã posteriormente organizou essas referências em uma classificação de nove coros.

A classificação tradicional é:

Serafins, Querubins e Tronos.

Dominações, Virtudes e Potestades.

Principados, Arcanjos e Anjos.

Essa organização foi especialmente desenvolvida por Pseudo-Dionísio Areopagita em sua obra A Hierarquia Celeste e posteriormente recebida, desenvolvida e explicada por grandes teólogos, especialmente São Gregório Magno e São Tomás de Aquino.

É importante, porém, fazer uma distinção.

A existência dos anjos é doutrina de fé.

A classificação tradicional em nove coros é uma construção teológica muito antiga e venerável, mas a Igreja não definiu como dogma que todos os anjos estejam necessariamente distribuídos exatamente dessa maneira.

A Catholic Encyclopedia observa precisamente isso ao explicar a tradição dos nove coros: a doutrina das hierarquias angélicas foi amplamente recebida, mas nenhuma proposição específica sobre essas hierarquias constitui, por si mesma, artigo obrigatório de fé.

As três hierarquias segundo Pseudo-Dionísio

Pseudo-Dionísio organizou os nove coros em três hierarquias.

A primeira reúne Serafins, Querubins e Tronos.

A segunda reúne Dominações, Virtudes e Potestades.

A terceira reúne Principados, Arcanjos e Anjos.

São Tomás de Aquino estudou profundamente essa classificação na Suma Teológica, I, questão 108, "Dos graus angélicos das hierarquias e ordens".

São Tomás explica que a diferença entre as ordens não deve ser entendida simplesmente como uma espécie de "ranking de poder", como se Deus tivesse criado nove categorias destinadas a uma competição celestial.

A hierarquia está relacionada aos diferentes modos de participação no governo divino, na iluminação e no serviço.

São Tomás afirma que uma hierarquia é um "principado sagrado" e explica que as diferentes ordens correspondem a diferentes atos e funções dentro da ordem divina.

Isso é fundamental.

A palavra "hierarquia" no pensamento cristão não significa simplesmente "quem é mais poderoso".

Significa também ordem, missão e participação no governo de Deus.

São Miguel pertence ao coro dos Arcanjos?

Aqui precisamos novamente ser cuidadosos.

A Escritura chama Miguel de "arcanjo".

Portanto, a tradição cristã naturalmente o associa ao coro dos Arcanjos.

São Tomás de Aquino também trata os Arcanjos dentro da ordem tradicional dos nove coros e associa Miguel a essa realidade.

Entretanto, não devemos transformar uma classificação teológica posterior em uma espécie de mapa absolutamente detalhado do céu que a Bíblia nunca apresentou.

A própria Sagrada Escritura é muito mais interessada na missão dos anjos do que em satisfazer nossa curiosidade sobre sua organização interna.

São Miguel é apresentado como arcanjo, príncipe e defensor.

Isso já é extraordinariamente suficiente.

Então São Miguel era de uma classe inferior?

Não podemos afirmar isso como ensinamento católico.

Se tomarmos a classificação tradicional dos nove coros, os Arcanjos aparecem na terceira hierarquia, juntamente com Principados e Anjos.

Nesse sentido, pode-se dizer que os Arcanjos pertencem à hierarquia inferior em comparação com Serafins, Querubins e Tronos.

Mas isso é muito diferente de dizer que São Miguel começou como um anjo comum e depois foi promovido aos mais altos níveis por sua humildade.

A Bíblia não conta essa história.

Pelo contrário, quando Miguel aparece diretamente nas Escrituras, ele já é apresentado como "um dos primeiros príncipes" em Daniel 10,13, como "vosso príncipe" em Daniel 10,21, como "o grande príncipe" em Daniel 12,1 e como "o arcanjo Miguel" em Judas 9.

Portanto, seria mais correto dizer:

São Miguel não é apresentado pela Revelação como alguém que conquistou sua grandeza mediante uma promoção de categoria, mas como um príncipe celestial cuja grandeza se manifesta precisamente em sua fidelidade, serviço e submissão a Deus.

Essa afirmação possui fundamento bíblico muito mais sólido.

O Catecismo confirma que os anjos são servidores de Deus

O Catecismo da Igreja Católica é bastante claro.

O parágrafo 328 ensina que a existência dos seres espirituais não corporais, chamados anjos pela Sagrada Escritura, é uma verdade de fé. O Catecismo acrescenta que esse testemunho está presente tanto na Escritura quanto na Tradição.

O parágrafo 329 cita Santo Agostinho:

"Anjo é nome de ofício, não de natureza."

Em latim:

"Angelus officii nomen est, non naturae."

Santo Agostinho explica que, quanto à natureza, o anjo é espírito; quanto ao ofício, é mensageiro.

O Catecismo prossegue dizendo que os anjos são servidores e mensageiros de Deus e que são "poderosos executores das suas ordens, atentos à sua palavra", citando o Salmo 103,20.

Isso é extremamente importante para nosso tema.

O anjo não encontra sua dignidade afastando-se de Deus.

O anjo encontra sua dignidade justamente no serviço a Deus.

O Catecismo coloca Cristo no centro, não os anjos

Há ainda algo que precisa ser lembrado sempre que falamos de São Miguel.

O centro da angelologia católica não é Miguel.

É Cristo.

O Catecismo afirma no parágrafo 331:

"Cristo é o centro do mundo dos anjos."

E explica que os anjos pertencem a Cristo porque foram criados por Ele e para Ele.

O Catecismo cita Colossenses 1,16:

"Em vista dele é que foram criados todos os seres, que há nos céus e na terra, os seres visíveis e invisíveis, os anjos que são os tronos, senhorias, principados e dominações."

O mesmo parágrafo cita Hebreus 1,14 para explicar que os anjos são espíritos servidores enviados para auxiliar aqueles que hão de herdar a salvação.

Essa é uma correção fundamental para qualquer espiritualidade sobre São Miguel.

São Miguel aponta para Deus.

São Miguel aponta para Cristo.

São Miguel não compete com Cristo.

A humildade de Miguel aparece justamente quando ele poderia agir por conta própria

Voltemos a Judas 9.

É talvez uma das passagens mais interessantes para nosso tema.

Miguel está diante do próprio demônio.

Ele está em conflito com Satanás.

Ele possui autoridade celestial.

Entretanto, ele não profere uma sentença de maneira independente.

Ele diz:

"Que o Senhor te repreenda."

O verbo grego utilizado em "não ousou pronunciar" é ἐτόλμησεν, etólmēsen, relacionado à ideia de ousar, atrever-se ou tomar a liberdade de fazer algo.

O texto mostra uma contenção deliberada.

Miguel não ultrapassa sua condição de criatura.

Ele permanece criatura.

Ele permanece servo.

Ele permanece subordinado ao Senhor.

Essa é uma das mais belas imagens bíblicas da humildade.

A humildade não é pensar que somos inúteis

São Tomás de Aquino ajuda a esclarecer o verdadeiro sentido da humildade.

Na Suma Teológica, II-II, questão 161, São Tomás explica que a humildade consiste principalmente na sujeição do homem a Deus.

Ele também recorda uma expressão atribuída a Santo Agostinho:

"Humildade deve tomar o partido da verdade, não da falsidade."

A humildade não consiste em negar os dons que Deus concedeu.

Não consiste em fingir que não temos valor.

Não consiste em negar nossa missão.

Humildade é reconhecer a verdade sobre nós mesmos diante de Deus.

São Tomás, Suma Teológica, II-II, q. 161.

Isso também ajuda a compreender Miguel.

Miguel não diz:

"Eu não sou nada."

Ele assume sua missão.

Ele combate.

Ele protege.

Ele lidera.

Mas faz tudo isso debaixo da autoridade de Deus.

Isso é humildade verdadeira.

Obediência não é fraqueza

Outro erro frequente em nossa época é imaginar que obedecer significa ser fraco.

Na tradição católica, é justamente o contrário.

São Tomás dedica uma questão inteira da Suma Teológica à virtude da obediência.

Na Suma Teológica, II-II, questão 104, ele explica que o homem está sujeito a Deus de maneira plena e que a obediência deve ser compreendida dentro da ordem legítima estabelecida por Deus.

A obediência cristã não significa obedecer ao pecado.

Significa ordenar a vontade segundo o bem e segundo a vontade de Deus.

É por isso que a obediência de Cristo ocupa um lugar tão central na teologia católica.

São Paulo escreve:

"Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz."

Filipenses 2,8.

São João Crisóstomo, comentando Filipenses 2,5-8, observa que Cristo oferece justamente o modelo perfeito de humildade: aquele que possui grandeza verdadeira é capaz de humilhar-se voluntariamente.

São João Crisóstomo, Homilia 6 sobre Filipenses.

O contraste entre Cristo, Miguel e Satanás

Aqui chegamos ao coração espiritual da questão.

Satanás é apresentado pela tradição cristã como aquele que cai pela soberba.

Miguel, ao contrário, aparece como aquele que proclama, pelo próprio nome e pela própria missão:

"Quem é como Deus?"

Cristo, por sua vez, manifesta a humildade perfeita.

São Paulo resume isso em Filipenses 2,5-11.

Cristo se humilha.

Cristo obedece.

Cristo é exaltado pelo Pai.

A lógica cristã é extraordinária:

A verdadeira grandeza não nasce da tentativa de subir contra Deus.

A verdadeira grandeza nasce da união com Deus.

É por isso que Jesus diz:

"Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado."

Mateus 23,12.

E São Pedro escreve:

"Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte no tempo oportuno."

1 Pedro 5,6.

São Gregório Magno e os nove coros

São Gregório Magno, Papa e Doutor da Igreja, é uma das grandes autoridades da tradição ocidental sobre os coros angélicos.

Em sua Homilia 34 sobre os Evangelhos, ele enumera os nove coros: Anjos, Arcanjos, Virtudes, Potestades, Principados, Dominações, Tronos, Querubins e Serafins.

Ele relaciona essa classificação às diversas passagens da Escritura.

São Gregório parte especialmente de textos como Isaías 6, Colossenses 1,16 e Efésios 1,21.

Isso mostra que a tradição dos nove coros não surgiu simplesmente da imaginação medieval.

Ela nasceu de uma tentativa dos Padres e teólogos de organizar sistematicamente os diversos nomes e funções angélicas presentes na própria Bíblia.

São Tomás e a ordem dos anjos

São Tomás de Aquino dedica toda a questão 108 da Primeira Parte da Suma Teológica à organização das hierarquias e ordens angélicas.

Ele explica que uma hierarquia envolve uma multidão ordenada sob um princípio e que as diferentes ordens estão relacionadas aos diferentes modos de agir e receber a iluminação divina.

São Tomás também explica os nomes tradicionais das ordens.

As Dominações estão relacionadas ao governo.

As Virtudes estão relacionadas à força para realizar aquilo que é determinado.

As Potestades estão relacionadas à ordenação.

Os Principados estão relacionados à condução.

Os Arcanjos e Anjos possuem missões próprias na comunicação das realidades divinas.

Suma Teológica, I, q. 108, especialmente os artigos 1, 5 e 6.

Perceba como a visão de São Tomás é muito mais rica do que uma simples tabela de "anjos mais fortes" e "anjos mais fracos".

A questão principal é a participação no governo e na comunicação da ordem divina.

São Miguel e a liderança que serve

Daniel apresenta Miguel como príncipe.

Apocalipse mostra Miguel liderando os anjos no combate contra o Dragão.

Judas o chama de arcanjo.

Tudo isso revela liderança.

Mas a liderança de Miguel não é tirânica.

Não é uma liderança centrada no próprio ego.

É uma liderança subordinada a Deus.

Esse é um princípio profundamente católico.

A autoridade cristã é verdadeira quando está a serviço da verdade.

A grandeza cristã é verdadeira quando está a serviço de Deus.

A liderança cristã é verdadeira quando conduz para Deus.

Por isso, Miguel é uma figura tão poderosa para a espiritualidade cristã.

Ele lidera sem usurpar.

Combate sem blasfemar.

Age sem colocar-se no lugar de Deus.

São João Crisóstomo: a humildade precisa ser verdadeira

São João Crisóstomo faz uma observação particularmente interessante.

Ele adverte que até a própria humildade pode se transformar em motivo de orgulho.

Em uma de suas homilias, ele observa que alguém pode chegar a se orgulhar justamente porque acredita ser mais humilde do que os outros.

São João Crisóstomo, Homilia 2 sobre Filemon.

Isso é extremamente atual.

Existe uma falsa humildade que diz:

"Olhem como sou humilde."

A verdadeira humildade não precisa anunciar a própria humildade.

Miguel não aparece dizendo:

"Observem como sou humilde."

Ele simplesmente cumpre sua missão.

Quando enfrenta Satanás, sua frase é:

"Que o Senhor te repreenda."

É a missão antes do ego.

É Deus antes de Miguel.

Santo Agostinho e o perigo da soberba

Santo Agostinho foi ainda mais incisivo ao falar sobre o orgulho.

Em seus escritos, ele relaciona a soberba do demônio à queda e mostra como a humildade é o caminho oposto.

Em De Trinitate, ele escreve que o demônio conduziu o homem à morte por meio do orgulho, enquanto Cristo, pela humildade, conduziu o homem novamente à vida.

Essa é uma chave para interpretar toda a espiritualidade de São Miguel.

Miguel representa a criatura que permanece criatura.

Satanás representa a criatura que deseja ultrapassar os limites da criatura.

Cristo é o próprio Senhor que, assumindo nossa humanidade, humilha-se e obedece até a cruz.

São Jerônimo e uma antiga tradição sobre a queda

São Jerônimo também relaciona a perda da dignidade angélica de Satanás ao orgulho.

Em sua Carta 12, ele escreve que o orgulho é contrário à humildade e associa a Satanás a perda de sua posição angélica.

Isso é interessante porque ajuda a entender de onde pode ter surgido a tradição espiritual que contrapõe Miguel e Satanás.

Mas é preciso fazer uma distinção importante.

A tradição cristã fala da queda dos anjos rebeldes.

Ela fala da perseverança dos anjos fiéis.

Ela fala da vitória de Deus.

Ela não ensina que Miguel tenha necessariamente começado em uma categoria inferior e depois tenha sido promovido por mérito pessoal.

Essa última formulação ultrapassa aquilo que a Revelação nos permite afirmar com segurança.

O que podemos afirmar com segurança sobre São Miguel

Podemos afirmar biblicamente que Miguel é chamado de "um dos primeiros príncipes" em Daniel 10,13.

Podemos afirmar que ele é chamado de "vosso príncipe" em Daniel 10,21.

Podemos afirmar que ele é chamado de "o grande príncipe" em Daniel 12,1.

Podemos afirmar que Judas 9 o chama de "o arcanjo Miguel".

Podemos afirmar que Apocalipse 12,7 o apresenta combatendo o Dragão juntamente com seus anjos.

Podemos afirmar que sua atitude em Judas 9 manifesta profunda submissão à autoridade de Deus.

Podemos afirmar que a tradição católica o venera como um grande defensor do povo de Deus.

E podemos afirmar que a Igreja ensina que os anjos são servidores e mensageiros de Deus, criaturas espirituais dotadas de inteligência e vontade.

O Catecismo da Igreja Católica trata desses temas especialmente nos parágrafos 328 a 336.

Mas podemos dizer que Miguel se tornou o maior de todos?

Aqui é preciso cautela.

Não encontramos na Bíblia uma afirmação de que Miguel seja "o maior de todos os anjos".

Também não encontramos no Catecismo uma definição segundo a qual Miguel tenha sido originalmente um anjo de categoria inferior e depois tenha subido até o topo por causa de sua humildade.

Na tradição dos nove coros, Serafins aparecem na primeira hierarquia, enquanto Arcanjos pertencem à terceira.

Além disso, não existe uma definição dogmática da Igreja dizendo que Miguel ocupa o primeiro lugar absoluto entre todos os seres angélicos.

Por isso, seria melhor evitar essa afirmação como se fosse doutrina oficial.

Há uma maneira muito mais forte de apresentar a mesma mensagem sem ultrapassar a Escritura.

Podemos dizer que Miguel se torna um modelo de grandeza porque sua grandeza está inseparavelmente ligada à obediência.

Ele não tenta ser Deus.

Ele não age independentemente de Deus.

Ele não atribui a si aquilo que pertence ao Senhor.

Seu próprio nome proclama:

"Quem é como Deus?"

A grandeza de São Miguel está em servir

Essa talvez seja a maior lição de todas.

O mundo costuma ensinar:

"Seja grande para ser servido."

O Evangelho ensina:

"Quem quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que vos serve."

Mateus 20,26.

A grandeza cristã não é medida simplesmente pela posição.

É medida pela fidelidade.

Um anjo não é grande porque possui um título impressionante.

Ele é grande porque cumpre perfeitamente a vontade de Deus.

O Catecismo afirma que os anjos contemplam continuamente o rosto do Pai e são poderosos executores de suas ordens, atentos à voz de sua palavra, citando Mateus 18,10 e Salmo 103,20.

Essa é uma definição maravilhosa da vida angélica.

Ver Deus.

Amar Deus.

Obedecer a Deus.

Servir a Deus.

E São Miguel é uma das figuras bíblicas que melhor encarna essa realidade.

São Miguel contra a cultura do orgulho

Vivemos em uma época em que muitas pessoas são ensinadas a perguntar:

"Como posso me tornar maior?"

São Miguel nos ensina a fazer uma pergunta diferente:

"Quem é como Deus?"

Essa mudança de pergunta transforma tudo.

O orgulhoso pergunta:

"Como posso subir?"

O humilde pergunta:

"Como posso servir?"

O orgulhoso pergunta:

"Como posso ser reconhecido?"

O humilde pergunta:

"Como posso permanecer fiel?"

O orgulhoso quer que seu próprio nome seja proclamado.

Miguel proclama o nome de Deus.

"Quem é como Deus?"

A batalha de Miguel também é uma batalha espiritual dentro de nós

São Paulo escreve:

"Nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos do mal espalhados nos ares."

Efésios 6,12.

O cristão não deve interpretar isso de maneira supersticiosa.

A batalha espiritual começa dentro do coração.

É a batalha contra a soberba.

Contra a vaidade.

Contra a tentação de colocar a própria vontade acima da vontade de Deus.

Contra a ilusão de que podemos viver como se Deus não existisse.

Por isso São Miguel é tão significativo.

Ele nos recorda que toda criatura deve permanecer voltada para o Criador.

"Quem é como Deus?" é a resposta cristã à soberba

Talvez a melhor maneira de compreender São Miguel seja justamente pelo seu nome.

"Quem é como Deus?"

Quando somos tentados pela soberba:

"Quem é como Deus?"

Quando queremos controlar tudo:

"Quem é como Deus?"

Quando pensamos que nossa inteligência é suficiente:

"Quem é como Deus?"

Quando queremos colocar nossa vontade acima da verdade:

"Quem é como Deus?"

Quando a criatura começa a querer ocupar o lugar do Criador:

"Quem é como Deus?"

É uma pergunta que destrói a soberba pela raiz.

A verdadeira grandeza não está em subir acima dos outros

São Miguel nos mostra que a verdadeira grandeza não consiste em colocar-se acima dos outros.

Consiste em colocar-se abaixo de Deus.

É exatamente o princípio que aparece em Cristo.

São João Crisóstomo, comentando Filipenses 2, observa que a verdadeira humildade não consiste simplesmente em alguém ocupar uma posição baixa porque não possui outra opção.

Humildade verdadeira consiste em alguém que poderia procurar sua própria exaltação escolher voluntariamente o caminho da submissão e do serviço.

São João Crisóstomo, Homilia 6 sobre Filipenses.

E aqui está uma chave extraordinária para compreender o espírito de São Miguel.

Sua força não elimina sua humildade.

Sua autoridade não elimina sua obediência.

Sua liderança não elimina sua dependência de Deus.

Pelo contrário.

Sua força é colocada a serviço de Deus.

Sua autoridade é colocada a serviço de Deus.

Sua liderança é colocada a serviço de Deus.

São Miguel não aponta para si mesmo, mas para Deus

Essa é talvez a conclusão mais importante.

Uma verdadeira devoção a São Miguel nunca deveria terminar em São Miguel.

Ela deve conduzir a Deus.

São Miguel aponta para Cristo.

Os anjos apontam para Cristo.

A Igreja aponta para Cristo.

A própria criação aponta para Cristo.

O Catecismo afirma categoricamente:

"Cristo é o centro do mundo dos anjos."

Catecismo da Igreja Católica, §331.

Portanto, quando contemplamos São Miguel, não estamos diante de um rival de Cristo.

Estamos diante de um servo de Cristo.

Não estamos diante de uma divindade.

Estamos diante de uma criatura.

Não estamos diante de alguém que tomou o lugar de Deus.

Estamos diante daquele cujo próprio nome proclama:

"Quem é como Deus?"

Se a verdadeira força não está no poder, mas na obediência, o que isso nos ensina sobre a vida cristã?

Ensina-nos que a verdadeira força cristã não consiste em fazer a própria vontade, mas em conformá-la à vontade de Deus. São Miguel demonstra que autoridade e poder só encontram seu verdadeiro sentido quando colocados a serviço do Senhor.

Por que Deus escolheu justamente um anjo considerado “inferior” para se tornar o maior defensor da fé?

É importante corrigir a premissa: a Bíblia não diz que São Miguel era um anjo de categoria inferior que depois se tornou o maior. Ela o apresenta como "um dos primeiros príncipes" (Dn 10,13), "o grande príncipe" (Dn 12,1) e "o arcanjo Miguel" (Jd 9). A grande lição não está em uma suposta promoção de Miguel, mas no fato de que sua grandeza está inseparavelmente ligada ao serviço e à fidelidade a Deus.

Será que a grandeza espiritual só pode ser alcançada através da humildade?

A perspectiva cristã é que não existe verdadeira grandeza espiritual sem humildade. Jesus ensinou: "Quem se humilhar será exaltado" (Mt 23,12). A humildade não significa negar os dons recebidos, mas reconhecer que todo dom vem de Deus e deve ser colocado a serviço dele.

O que a obediência de São Miguel revela sobre a luta contra o orgulho e a rebeldia?

Revela que a criatura encontra sua verdadeira grandeza quando permanece em seu devido lugar diante do Criador. Em Judas 9, mesmo enfrentando Satanás, Miguel não age de maneira independente, mas diz: "O Senhor te repreenda!" Sua atitude contrasta com a lógica da rebeldia: ele possui autoridade, mas não usurpa a autoridade de Deus.

Em um mundo que valoriza status e poder, como podemos aprender com São Miguel a vencer pela submissão à vontade divina?

Aprendemos que vencer nem sempre significa dominar os outros. Muitas vezes, a maior vitória é dominar o próprio orgulho, renunciar à própria vontade quando ela se opõe à vontade de Deus e permanecer fiel mesmo quando ninguém reconhece nossos esforços. São Miguel nos ensina a trocar a pergunta "Como posso ser maior?" por "Como posso ser mais fiel a Deus?"

Se até os anjos são exaltados pela humildade, o que isso significa para nós, que tantas vezes buscamos reconhecimento humano?

Significa que o reconhecimento dos homens não é a medida da verdadeira grandeza. Deus olha para a fidelidade do coração. São Miguel nos recorda que nossa missão não é fazer com que o nosso nome seja exaltado, mas viver de tal maneira que, através de nossa vida, o nome de Deus seja glorificado. Afinal, seu próprio nome proclama a pergunta fundamental: "Quem é como Deus?"

 

Conclusão: a maior vitória é permanecer fiel

Talvez seja necessário reformular aquela frase que ouvimos tantas vezes.

Não é correto afirmar, como se fosse ensinamento definido da Igreja, que São Miguel começou como um anjo de classe inferior e depois se tornou o maior de todos graças à sua humildade.

A Escritura não diz isso.

A Tradição Católica não definiu isso.

Mas existe uma verdade muito mais bela por trás dessa ideia.

São Miguel é apresentado pela Escritura como um grande príncipe, como arcanjo e como defensor do povo de Deus. Sua grandeza, porém, nunca aparece separada da obediência.

Quando enfrenta Satanás, não toma para si uma autoridade que pertence ao Senhor.

Ele diz:

"Que o Senhor te repreenda."

Quando aparece no Apocalipse, combate o Dragão.

Quando aparece em Daniel, é apresentado como príncipe e defensor.

Quando seu nome é pronunciado, ouvimos uma pergunta que é também uma profissão de fé:

"Quem é como Deus?"

São Miguel nos ensina que não existe verdadeira grandeza sem humildade.

Não existe verdadeira autoridade sem serviço.

Não existe verdadeira força sem obediência à verdade.

E não existe vitória espiritual mais profunda do que permanecer fiel a Deus.

A grandeza de Miguel não consiste em tornar-se Deus.

Consiste em nunca querer ocupar o lugar de Deus.

É justamente por isso que seu nome continua sendo uma das mais poderosas respostas cristãs contra a soberba:

"Quem é como Deus?"

Fontes para aprofundamento

Sagrada Escritura: Daniel 10,13; Daniel 10,21; Daniel 12,1; Judas 9; Apocalipse 12,7-9; Efésios 6,10-18; Colossenses 1,16; Hebreus 1,14; Mateus 18,10; Mateus 20,26-28; Filipenses 2,5-11; 1 Pedro 5,5-6.

Catecismo da Igreja Católica, §§328-336, especialmente os §§329-333, sobre a natureza, missão e serviço dos anjos.

Santo Agostinho, Enchiridion, capítulo 28, sobre a queda dos anjos rebeldes e a perseverança dos anjos fiéis.

Santo Agostinho, De Trinitate, livro IV, capítulo 10, sobre o contraste entre orgulho e humildade, e entre a desobediência do demônio e a obediência de Cristo.

São Gregório Magno, Homilia 34 sobre os Evangelhos, sobre os nove coros angélicos.

São João Crisóstomo, Homilia 6 sobre Filipenses, sobre humildade e obediência a partir de Filipenses 2,5-8.

São João Crisóstomo, Homilia 2 sobre Filemon, sobre a verdadeira humildade e o perigo de orgulhar-se da própria humildade.

São Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, questão 108, "Dos graus angélicos das hierarquias e ordens".

São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, questão 161, "Da humildade".

São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, questão 104, "Da obediência".

Pseudo-Dionísio Areopagita, A Hierarquia Celeste, especialmente os capítulos sobre as três hierarquias e os nove coros angélicos. A obra exerceu enorme influência sobre a angelologia cristã, embora sua autoria antiga tenha sido posteriormente distinguida da figura de Dionísio convertido por São Paulo.

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