
Por que os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz?
Uma das parábolas mais difíceis do Evangelho
Poucas parábolas de Jesus causam tanta estranheza quanto a do administrador infiel.
São Lucas apresenta um homem rico que possuía um administrador. Esse administrador é acusado de desperdiçar os bens do patrão:
“Havia um homem rico que tinha um administrador, e este foi acusado de dissipar os seus bens.”
Lucas 16,1
O patrão então exige uma prestação de contas:
“Presta contas da tua administração, pois já não podes mais administrar.”
Lucas 16,2
O administrador percebe que seu futuro está ameaçado. Não consegue trabalhar com as próprias mãos e tem vergonha de pedir esmolas. Então pensa rapidamente em uma solução.
Ele chama os devedores do seu senhor e reduz suas dívidas. Um que devia cem medidas de azeite passa a dever cinquenta. Outro que devia cem medidas de trigo passa a dever oitenta.
E então acontece o que parece ser um escândalo:
“E o senhor louvou o administrador desonesto, porque agira com prudência.”
Lucas 16,8
Como pode um homem desonesto ser elogiado por Jesus?
A resposta está justamente naquilo que Jesus pretende destacar.
Jesus não elogia a desonestidade
É fundamental começar por aquilo que Cristo não está dizendo.
Jesus não está afirmando que roubar é bom.
Não está ensinando que devemos fraudar nossos negócios.
Não está dizendo que a corrupção pode ser utilizada como método de evangelização.
Não está ensinando que os fins justificam os meios.
A própria sequência do Evangelho impede essa interpretação.
Poucos versículos depois, Cristo declara:
“Quem é fiel nas coisas mínimas é fiel também nas grandes; quem é injusto nas coisas mínimas é injusto também nas grandes.”
Lucas 16,10
E conclui:
“Nenhum servo pode servir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.”
Lucas 16,13
Portanto, a desonestidade do administrador não é o objeto do elogio.
Jesus chama atenção para outra coisa: a sua capacidade de perceber a situação, tomar uma decisão e agir rapidamente tendo em vista o futuro.
É precisamente aí que está a provocação de Cristo.
O detalhe importantíssimo do grego
O texto grego de Lucas 16,8 é extremamente interessante.
São Lucas utiliza a expressão:
ὅτι φρονίμως ἐποίησεν
A palavra φρονίμως vem de phronimōs, relacionada à ideia de agir com prudência, inteligência prática, sagacidade ou discernimento.
O administrador não foi elogiado porque era moralmente correto.
Ele foi elogiado porque, dentro da lógica da parábola, soube agir com inteligência diante de uma situação urgente.
Logo depois Jesus explica:
οἱ υἱοὶ τοῦ αἰῶνος τούτου φρονιμώτεροι ὑπὲρ τοὺς υἱοὺς τοῦ φωτὸς
Literalmente, temos algo próximo de:
“Os filhos deste século são mais prudentes do que os filhos da luz.”
Lucas 16,8
A comparação é impressionante.
Os “filhos deste mundo” sabem trabalhar para aquilo que consideram importante.
Os “filhos da luz” receberam uma riqueza infinitamente maior: a verdade, a graça, a promessa da vida eterna e o conhecimento de Deus.
Mas muitas vezes não demonstram a mesma determinação para buscar aquilo que professam acreditar.
A grande pergunta de Jesus
Imagine alguém que acredita que poderá receber um milhão de reais daqui a vinte anos.
Se essa pessoa realmente acreditasse nisso, provavelmente começaria imediatamente a fazer planos.
Estudaria.
Economizaria.
Investiria.
Faria sacrifícios.
Organizaria sua vida em função dessa expectativa.
Agora imagine que alguém diga acreditar na vida eterna, no juízo, no céu, na possibilidade real da condenação e na necessidade da conversão.
Mas não reza.
Não estuda a fé.
Não luta contra seus pecados.
Não busca os sacramentos.
Não pratica a caridade.
Não se preocupa com a salvação.
É exatamente aqui que a parábola se torna desconfortável.
Jesus parece perguntar:
Se os homens conseguem dedicar tanta inteligência, esforço e sacrifício às coisas passageiras, por que os filhos da luz não demonstram ainda mais inteligência, esforço e perseverança pelas coisas eternas?
O administrador entendeu que o tempo era curto
Existe outro detalhe decisivo.
O administrador percebe que sua situação é temporária.
Ele sabe que haverá uma prestação de contas.
E isso nos conduz diretamente ao sentido espiritual da parábola.
O homem cristão também está administrando algo que não lhe pertence definitivamente.
A vida é uma administração.
O dinheiro é uma administração.
Os talentos são uma administração.
O tempo é uma administração.
A inteligência é uma administração.
A família é uma administração.
As oportunidades são uma administração.
E um dia também ouviremos:
“Presta contas da tua administração.”
Essa ideia aparece repetidamente na Escritura.
São Paulo pergunta:
“Que tens que não tenhas recebido?”
1 Coríntios 4,7
E São Pedro recorda:
“Cada um exerça o dom que recebeu, como bons administradores da multiforme graça de Deus.”
1 Pedro 4,10
A palavra utilizada por São Pedro está ligada justamente à ideia de administração ou mordomia.
O cristão não é proprietário absoluto daquilo que possui.
É administrador diante de Deus.
O homem não é dono absoluto dos bens
Essa verdade está profundamente presente na doutrina católica.
O Catecismo ensina:
“Quem usa desses bens, não deve considerar as coisas exteriores, que legitimamente possui, só como próprias, mas também como comuns.”
Catecismo da Igreja Católica, 2404
E acrescenta que aquele que possui bens torna-se, de certo modo, administrador da providência de Deus, devendo fazer com que esses bens produzam frutos e beneficiem também outras pessoas.
Catecismo da Igreja Católica, 2404
Isso muda completamente a maneira de enxergar dinheiro, propriedades, profissão e capacidade intelectual.
A pergunta cristã não é simplesmente:
“Quanto eu tenho?”
A pergunta deveria ser:
“O que Deus espera que eu faça com aquilo que Ele colocou em minhas mãos?”
O administrador sabia que haveria uma prestação de contas
A palavra grega utilizada em Lucas 16,2 é particularmente interessante:
ἀπόδος τὸν λόγον τῆς οἰκονομίας σου
A ideia é:
“Presta contas da tua administração.”
A palavra oikonomia está relacionada à administração de uma casa, de um patrimônio ou de uma responsabilidade confiada.
O administrador sabia que teria de explicar como havia utilizado os bens que recebera.
O Evangelho apresenta uma verdade muito maior para nós.
Também haverá uma prestação de contas.
Jesus diz:
“De toda palavra inútil que os homens disserem, darão conta no dia do juízo.”
Mateus 12,36
São Paulo escreve:
“Todos nós compareceremos diante do tribunal de Deus.”
Romanos 14,10
E ainda:
“Cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus.”
Romanos 14,12
A vida cristã, portanto, não pode ser vivida como se nunca houvesse uma prestação de contas.
Os filhos do mundo trabalham com uma urgência que muitas vezes falta aos cristãos
É aqui que a frase de Jesus atinge diretamente a nossa vida.
Observe a dedicação de alguém que deseja enriquecer.
Ele pode acordar cedo.
Trabalhar durante muitas horas.
Estudar durante anos.
Fazer cursos.
Aprender novas habilidades.
Economizar.
Assumir riscos.
Persistir depois de fracassos.
Planejar durante décadas.
Tudo isso por uma realidade temporal.
Enquanto isso, alguém pode dizer:
“Eu acredito que existe uma vida eterna.”
Mas passa anos sem dedicar sequer alguns minutos por dia à oração.
É precisamente essa contradição que Jesus quer expor.
O problema não é o cristão trabalhar muito.
O problema é trabalhar muito pelas coisas temporais e quase nada pelas coisas eternas.
A prudência cristã não é esperteza mundana
Existe uma distinção essencial.
A Igreja não ensina que prudência significa manipulação.
O Catecismo explica que a prudência é:
“a virtude que dispõe a razão prática para discernir, em qualquer circunstância, o nosso verdadeiro bem e para escolher os justos meios de o atingir.”
Catecismo da Igreja Católica, 1806
Portanto, a prudência cristã não significa simplesmente saber conseguir aquilo que queremos.
Significa saber escolher os meios corretos para alcançar o verdadeiro bem.
Essa distinção é fundamental.
Um homem pode ser extremamente esperto para ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, ser profundamente imprudente diante de Deus.
Pode saber multiplicar patrimônio e destruir a própria alma.
Pode construir uma empresa e destruir a própria família.
Pode ganhar uma fortuna e perder a eternidade.
É por isso que Jesus pergunta:
“Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?”
Mateus 16,26
São Paulo apresenta o mesmo princípio
São Paulo escreve aos coríntios:
“Os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem plenamente. Pois passa a figura deste mundo.”
1 Coríntios 7,30-31
Observe a expressão:
“Passa a figura deste mundo.”
O cristão pode possuir bens.
Pode trabalhar.
Pode empreender.
Pode estudar.
Pode investir.
Pode construir.
Pode prosperar honestamente.
Mas não pode transformar essas coisas em seu fim último.
Tudo isso é passageiro.
O dinheiro passa.
A profissão passa.
A beleza passa.
A juventude passa.
As propriedades passam.
A própria vida terrena passa.
Mas a alma foi criada para Deus.
“Fazei amigos com o dinheiro da iniquidade”
A frase seguinte de Jesus parece ainda mais estranha:
“Eu vos digo: fazei amigos com o dinheiro da iniquidade, para que, quando este faltar, vos recebam nas moradas eternas.”
Lucas 16,9
O que significa “dinheiro da iniquidade”?
A expressão grega é:
μαμωνᾶς τῆς ἀδικίας
mamōnas tēs adikias
“Mamom da injustiça” ou “riqueza da iniquidade”.
Jesus não está dizendo que o dinheiro, enquanto tal, seja necessariamente mau.
A questão está no modo como o dinheiro pode ser utilizado dentro de um mundo marcado pelo pecado e pela injustiça.
O dinheiro pode ser instrumento de egoísmo.
Mas também pode ser instrumento de caridade.
Pode alimentar uma família.
Pode ajudar um pobre.
Pode financiar uma obra de misericórdia.
Pode sustentar uma missão evangelizadora.
Pode ajudar alguém a estudar.
Pode socorrer um doente.
Pode sustentar a Igreja.
Pode ser transformado em obras de amor.
É justamente por isso que Jesus manda utilizar os bens temporais tendo em vista uma realidade eterna.
O dinheiro pode se transformar em caridade
A tradição católica sempre compreendeu essa passagem à luz da esmola e da caridade.
O texto de Lucas apresenta o administrador utilizando aquilo que estava temporariamente em suas mãos para preparar seu futuro.
Jesus utiliza essa lógica para ensinar seus discípulos a utilizar corretamente os bens terrenos enquanto ainda têm tempo.
São João Crisóstomo insistia que a riqueza deveria ser utilizada para o bem e não transformada em objeto de escravidão.
Em sua reflexão sobre a riqueza e a passagem de Lucas, Crisóstomo chama atenção para a diferença entre possuir riquezas e ser possuído por elas.
São João Crisóstomo, Homilias sobre a Primeira Epístola a Timóteo, Homilia XII, especialmente sua discussão sobre riqueza e injustiça.
A questão não é simplesmente:
“Tenho dinheiro?”
Mas:
“Quem é o senhor do meu dinheiro?”
São Basílio e a propriedade que não socorre o necessitado
A tradição patrística é particularmente forte nesse ponto.
São Basílio Magno ensinava que os bens que temos não devem ser considerados simplesmente como instrumentos de satisfação egoísta.
Em sua homilia “Aos ricos”, Basílio questiona a lógica daquele que acumula mais do que necessita enquanto outros padecem necessidade.
Sua crítica não é uma condenação automática da propriedade privada, mas uma denúncia da acumulação egoísta e da incapacidade de reconhecer que os bens possuem uma dimensão social e moral.
Essa perspectiva está em profunda harmonia com o ensinamento posterior do Catecismo sobre o destino universal dos bens.
Santo Agostinho e a lógica da eternidade
Santo Agostinho percebeu repetidamente a inversão de prioridades que acontece quando o homem ama excessivamente as coisas temporais.
Em seus escritos sobre a vida cristã, Agostinho insiste que as realidades temporais devem ser utilizadas de maneira ordenada, enquanto Deus deve ser amado como o fim último.
Essa distinção entre usar as coisas temporais e amar desordenadamente aquilo que é temporal aparece de modo especialmente importante na espiritualidade agostiniana.
O cristão não precisa abandonar todas as coisas materiais.
Precisa colocá-las no lugar correto.
A criação deve servir ao Criador.
Os bens devem servir à caridade.
O tempo deve servir à santificação.
A inteligência deve servir à verdade.
O dinheiro deve servir ao bem.
A profissão deve servir à vocação.
A vida inteira deve servir a Deus.
São Tomás de Aquino e a verdadeira prudência
São Tomás de Aquino explica que a prudência não consiste simplesmente em ser esperto.
Para ele, prudência é a razão correta aplicada à ação.
Essa definição foi incorporada pelo próprio Catecismo:
“A prudência é a ‘recta norma da ação’.”
Catecismo da Igreja Católica, 1806; cf. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 47, a. 2.
Isso esclarece profundamente Lucas 16.
O administrador possuía certa capacidade de perceber a realidade e escolher meios para alcançar um objetivo.
O cristão deve possuir essa mesma capacidade, mas orientada para um objetivo infinitamente superior.
O homem mundano pergunta:
“Como posso garantir meu futuro nesta vida?”
O cristão deveria perguntar:
“Como posso viver esta vida de modo que ela me conduza à vida eterna?”
São Paulo: correr como quem quer ganhar
São Paulo utiliza outra imagem extremamente forte:
“Não sabeis que os que correm no estádio, todos correm, mas um só recebe o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis.”
1 Coríntios 9,24
Veja a linguagem do Apóstolo.
Correi.
Não caminhemos espiritualmente com indiferença.
Não tratemos a salvação como uma atividade secundária.
São Paulo continua:
“Todo atleta se impõe todo tipo de disciplina.”
1 Coríntios 9,25
Se um atleta aceita disciplina durante anos por causa de uma coroa que perece, quanto mais o cristão deveria aceitar disciplina por causa de uma coroa que não perece.
E aqui encontramos novamente a mesma lógica de Lucas 16.
Os filhos deste mundo sabem sacrificar o presente por um futuro temporal.
Os filhos da luz precisam aprender a sacrificar corretamente algumas coisas temporais por causa de um futuro eterno.
O cristão precisa recuperar a capacidade de planejar para a eternidade
Existe uma espécie de contradição na vida espiritual moderna.
Muitos cristãos fazem planejamento financeiro.
Planejam aposentadoria.
Planejam férias.
Planejam a educação dos filhos.
Planejam a compra de uma casa.
Planejam uma carreira.
Planejam investimentos.
Mas quantos planejam seriamente a própria vida espiritual?
Quantos possuem uma regra de oração?
Quantos reservam diariamente tempo para a Palavra de Deus?
Quantos se preocupam em conhecer a doutrina católica?
Quantos fazem exame de consciência?
Quantos se confessam com verdadeira disposição de conversão?
Quantos pensam seriamente na morte?
Quantos organizam sua vida para que Deus seja realmente o centro?
A parábola do administrador infiel nos obriga a olhar para essa contradição.
“Os filhos da luz”
Jesus chama seus discípulos de “filhos da luz”.
Essa expressão aparece em outros lugares do Novo Testamento.
São Paulo escreve:
“Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Procedei como filhos da luz.”
Efésios 5,8
E ainda:
“Vós todos sois filhos da luz e filhos do dia.”
1 Tessalonicenses 5,5
Ser “filho da luz” significa ter recebido a revelação de Deus e viver de acordo com ela.
Portanto, existe uma responsabilidade maior.
Quem conhece a verdade deve viver segundo a verdade.
Quem recebeu mais luz precisa responder com maior fidelidade.
A parábola também é um chamado à ação
Existe uma tentação muito comum entre cristãos: confundir conhecimento com conversão.
Podemos conhecer muitas passagens bíblicas.
Podemos conhecer o Catecismo.
Podemos conhecer os escritos dos santos.
Podemos discutir teologia.
Podemos saber explicar doutrinas.
E ainda assim permanecer espiritualmente inertes.
O administrador não ficou simplesmente pensando.
Ele percebeu a situação e tomou uma decisão.
Jesus quer que a inteligência do discípulo seja colocada em movimento.
Não basta saber que a vida é breve.
É necessário viver de acordo com essa verdade.
Não basta saber que existe eternidade.
É necessário organizar a vida em função dela.
Não basta saber que Deus existe.
É necessário servi-Lo.
A morte transforma a perspectiva da parábola
O administrador sabia que sua situação estava chegando ao fim.
Também nós temos uma data que desconhecemos.
A Carta aos Hebreus afirma:
“Está determinado que os homens morram uma só vez e depois vem o julgamento.”
Hebreus 9,27
Essa realidade não deveria produzir desespero no cristão.
Deveria produzir sabedoria.
O Salmo pede:
“Ensinai-nos a contar nossos dias para chegarmos à sabedoria do coração.”
Salmo 90,12
Essa talvez seja uma das melhores chaves para compreender Lucas 16.
Contar os dias.
Perceber que o tempo é limitado.
Perceber que as oportunidades passam.
Perceber que a conversão não deve ser indefinidamente adiada.
Perceber que os bens materiais são temporários.
Perceber que a eternidade é definitiva.
O verdadeiro problema não é falta de inteligência
Talvez esse seja o aspecto mais provocador da parábola.
Jesus não está dizendo que os cristãos sejam necessariamente menos inteligentes que os não cristãos.
Ele está denunciando outra coisa.
Muitas vezes somos menos determinados.
Somos menos atentos.
Somos menos diligentes.
Somos menos perseverantes.
Somos menos estratégicos quando o assunto é a nossa própria salvação.
Um empresário pode estudar durante dez anos para dominar seu mercado.
Um estudante pode passar noites estudando para uma prova.
Um atleta pode passar anos treinando para alguns minutos de competição.
Mas o cristão pode querer alcançar a vida eterna sem disciplina espiritual.
É isso que Jesus coloca diante de nós.
A verdadeira esperteza é saber para onde estamos indo
A palavra “esperteza” pode ser perigosa quando entendida como malícia.
A esperteza cristã não é enganar.
É discernir.
Não é manipular.
É agir com prudência.
Não é passar os outros para trás.
É saber aproveitar corretamente o tempo.
Não é transformar o próximo em instrumento.
É transformar os bens recebidos em instrumentos de caridade.
Não é buscar vantagem injusta.
É buscar o verdadeiro bem.
Por isso Cristo diz:
“Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas.”
Mateus 10,16
A prudência cristã precisa caminhar junto com a simplicidade.
O administrador nos ensina uma coisa que não devemos copiar e outra que devemos copiar
Não devemos copiar sua desonestidade.
Devemos aprender com sua consciência de que o tempo estava acabando.
Não devemos copiar sua injustiça.
Devemos aprender sua capacidade de agir diante da urgência.
Não devemos copiar sua preocupação egoísta.
Devemos aprender sua capacidade de planejar o futuro.
Não devemos utilizar os outros para benefício próprio.
Devemos utilizar legitimamente os bens que Deus nos concedeu para produzir frutos de caridade.
Essa é a inversão cristã da parábola.
A riqueza pode se tornar instrumento de salvação
Jesus não diz simplesmente:
“Joguem fora o dinheiro.”
Ele diz:
“Fazei amigos com o dinheiro da iniquidade.”
Ou seja, utilizem os bens temporais de maneira que produzam frutos eternos.
O dinheiro pode comprar comida para quem tem fome.
Pode financiar uma obra de misericórdia.
Pode ajudar uma família necessitada.
Pode sustentar uma missão.
Pode contribuir para a evangelização.
Pode ajudar a formar sacerdotes.
Pode servir aos pobres.
Pode ser utilizado em favor da vida e da dignidade humana.
O dinheiro termina.
Mas o amor realizado por meio dele pode ter consequências eternas.
O Catecismo confirma essa visão
O Catecismo ensina que o uso dos bens deve estar ordenado à justiça e à caridade.
O parágrafo 2401 afirma que a vida cristã procura ordenar os bens deste mundo para Deus e para a caridade fraterna.
O parágrafo 2404 ensina que aquele que possui bens deve compreendê-los também em sua dimensão social, fazendo com que possam beneficiar outras pessoas.
E o parágrafo 1806 apresenta a prudência como a virtude que permite discernir o verdadeiro bem e escolher os meios adequados para alcançá-lo.
Assim, Lucas 16 não é uma aprovação da esperteza criminosa.
É um chamado à prudência cristã.
A pergunta que Jesus faria hoje
Talvez possamos traduzir a provocação de Cristo para uma pergunta muito simples:
Se você fosse tão preocupado com sua alma quanto é preocupado com seu dinheiro, como seria sua vida?
Se você tratasse a oração com a mesma seriedade com que trata sua profissão?
Se estudasse a fé com a mesma dedicação com que estuda aquilo que deseja dominar profissionalmente?
Se evitasse o pecado com a mesma determinação com que evita perder dinheiro?
Se praticasse a caridade com a mesma constância com que trabalha para aumentar seu patrimônio?
Se preparasse sua alma para a eternidade com a mesma dedicação com que prepara sua aposentadoria?
Talvez começássemos a entender por que Jesus disse:
“Os filhos deste mundo são mais prudentes, em sua geração, do que os filhos da luz.”
Lucas 16,8
A grande lição da parábola
A parábola não ensina que os filhos da luz devem se tornar filhos do mundo.
Ensina que os filhos da luz precisam aprender uma lição que, paradoxalmente, muitas vezes os filhos do mundo já aprenderam.
É preciso agir em função do futuro.
O homem mundano pode sacrificar o presente por um futuro que terminará na morte.
O cristão deveria estar disposto a sacrificar aquilo que é necessário no presente por um futuro que não terminará jamais.
O homem mundano sabe que precisa trabalhar para sobreviver.
O cristão precisa compreender que também deve trabalhar espiritualmente pela sua santificação.
O homem mundano sabe que oportunidades desaparecem.
O cristão precisa compreender que também as oportunidades de conversão passam.
O homem mundano sabe que precisa administrar seus recursos.
O cristão precisa compreender que administra diante de Deus recursos que não são definitivamente seus.
Quando chegar a nossa prestação de contas
A parábola começa com uma prestação de contas e termina falando de riquezas verdadeiras.
Essa estrutura é extremamente significativa.
O administrador recebeu bens.
Desperdiçou-os.
Foi chamado a prestar contas.
Percebeu que o tempo estava acabando.
Agindo de maneira inadequada moralmente, demonstrou uma capacidade prática que Jesus utiliza para provocar os discípulos.
E então Cristo conduz a reflexão para algo muito maior:
“Se não fostes fiéis nas riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras?”
Lucas 16,11
As “verdadeiras riquezas” são aquilo que realmente permanece.
A pergunta decisiva não é quanto conseguimos acumular.
É o que fizemos com aquilo que recebemos.
O cristão precisa ser mais diligente com a eternidade
Existe uma ironia dolorosa na frase de Jesus.
O mundo muitas vezes leva muito a sério aquilo que é passageiro.
E os cristãos podem tratar com superficialidade aquilo que é eterno.
O mundo faz planos.
O cristão também deve fazer planos.
O mundo trabalha.
O cristão também deve trabalhar.
O mundo persevera.
O cristão também deve perseverar.
O mundo calcula custos.
O cristão também precisa calcular o custo do discipulado.
Jesus disse:
“Qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa?”
Lucas 14,28
O problema não é planejar.
O problema é planejar apenas para esta vida.
A verdadeira inteligência cristã
A inteligência cristã consiste em reconhecer o valor relativo das coisas.
Dinheiro é importante, mas não é Deus.
Trabalho é importante, mas não é Deus.
Família é um dom precioso, mas não é Deus.
Saúde é um grande bem, mas não é Deus.
Conhecimento é valioso, mas não é Deus.
Tudo deve encontrar sua ordem correta diante do Criador.
Como ensina São Paulo:
“Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.”
1 Coríntios 3,22-23
Aquele que compreende isso começa a enxergar a vida de maneira completamente diferente.
Conclusão: não sejamos menos prudentes com a nossa alma
A pergunta de Jesus continua extremamente atual:
“Por que os filhos deste mundo são mais prudentes em sua geração do que os filhos da luz?”
Não é uma pergunta para admirarmos a malícia do mundo.
É uma pergunta para examinarmos nossa própria vida.
Se os homens são capazes de dedicar décadas para conquistar riquezas que perderão na morte, quanto mais nós deveríamos dedicar nossa inteligência, nosso tempo, nossa energia e nossos recursos àquilo que não passa.
O administrador sabia que seu tempo estava terminando.
Nós também sabemos.
Ele sabia que teria de prestar contas.
Nós também sabemos.
Ele tomou uma decisão.
Nós também precisamos tomar decisões.
A diferença é que ele buscava garantir uma morada terrena, enquanto Cristo nos chama a buscar uma morada eterna.
Por isso, a grande lição de Lucas 16 não é:
“Seja desonesto para conseguir o que deseja.”
É exatamente o contrário.
A lição é:
Seja tão prudente na busca do Reino de Deus quanto os homens deste mundo são prudentes na busca das coisas deste mundo.
Use bem o tempo.
Use bem os talentos.
Use bem o dinheiro.
Use bem as oportunidades.
Use os bens temporais para praticar a caridade.
Trabalhe com diligência.
Planeje com sabedoria.
Evite a preguiça espiritual.
E, acima de tudo, não viva como se esta vida fosse a realidade definitiva.
Porque chegará o momento em que ouviremos:
“Presta contas da tua administração.”
E naquele momento, aquilo que parecia tão importante neste mundo revelará seu verdadeiro valor.
Como escreveu São Paulo:
“As coisas visíveis são temporárias, mas as invisíveis são eternas.”
2 Coríntios 4,18
Essa é a verdadeira prudência dos filhos da luz.





