Por que o Demônio quer tanto destruir a sua e a minha família?


O diabo não tem família, então a meta dele é destruir a sua. Convido o caro leitor a pensarmos juntos nas tentações que afligem a vida familiar nos nossos dias.

E, como toda tentação se constitui uma investida do diabo, àquelas que se debatem contra a família cristã, tal como esta foi pensada por Deus, não poderia ser diferente.

O diabo odeia as famílias porque, no plano original de Deus, no Seu sonho eterno para a vida em família, o lar cristão fundamenta-se no amor. Um amor não mero ‘sentimentalismo’; mas, o amor enquanto realidade de um Deus que se apresenta como tal, convidando-nos a Si: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1Jo 4,16). O diabo tenta os membros do lar cristão como tenta os filhos de Deus. A tentação é uma proposta que busca anular a fonte, o meio e o fim do amor, que é o próprio Deus, visando subverter a Sua obra.

Basta observar as propagandas contra o conceito tradicional de família nos anúncios espalhados pela cidade e as conversas com pessoas ao redor para confirmar que a família está sob ataque. A pornografia pela internet, a pressão dos ativistas homossexuais, a banalização do divórcio e a imoralidade geral, tudo atenta para a desconstrução da noção bíblica de família. De fato, “pela primeira vez na História, a civilização ocidental é confrontada com a necessidade de definir o significado dos termos ‘casamento’ e ‘família’”.[1] Isso revela uma crise cultural sem precedentes.

Esse impasse moral possui fundamentos espirituais, pois “o mundo jaz no Maligno” (1Jo 5.19). A primeira investida de Satanás foi contra o primeiro casal e os efeitos daquela investida foram nocivos à família: a transferência de culpa entre os cônjuges (Gn 3.11-12), o primeiro fratricídio (Gn 4.8-10), o surgimento da poligamia (Gn 4.19), etc. A família realmente está sob ataque cultural e também espiritual, ou seja, o próprio Maligno quer destruí-la.

Por que Satanás odeia tanto a família? Certamente porque ela é importante. A família é fundamental para a criação e educação da próxima geração, mas não apenas por isso. Segundo as Escrituras, a família é fundamental para instruir e capacitar a pessoa para os diferentes aspectos da vida.

1. Ela é um centro de aprendizado teológico

Há vários aspectos da vida cristã sobre os quais Deus decidiu nos instruir usando a família. Essa é uma das metáforas mais utilizadas na Bíblia, pois há lições que só podem ser aprendidas mediante uma compreensão correta da família, conforme instituída por ele.

A. Deus a usa para nos ensinar sobre sua própria natureza

A relação entre os membros de uma família estabelece um vislumbre do relacionamento existente entre as Pessoas da Trindade. O convívio familiar deve refletir a natureza relacional de Deus. Por essa razão, o objetivo de Satanás é destruir qualquer relacionamento pacífico na família, pois assim ele criará confusão quanto à natureza relacional do próprio Deus.

B. Deus a usa para nos ensinar o evangelho

Quando Deus justifica alguém em Cristo, essa pessoa é adotada como seu filho. Dessa maneira, aprendemos que o relacionamento entre pais e filhos não é sem importância. Além do mais, a adoção acaba espelhando a misericórdia de Deus conosco. Assim, o evangelho da graça pode ser experimentado diariamente pelos filhos de Deus. Todavia, se Satanás destruir os relacionamentos entre pais e filhos, ele distorcerá a mensagem do evangelho para as pessoas.

C. Deus a usa para nos ensinar sobre a Igreja

Pedro chama a igreja de a “casa de Deus” (1Pe 4.17) e Paulo diz que os crentes são a “família de Deus” (Ef 2.19; 3.15). Desde que os cristãos são unidos sob a paternidade do Pai pela adoção em Cristo, eles constituem a família de Deus e devem se relacionar como “irmãos” e “irmãs” em Cristo. Assim, a vida familiar ajuda a compreender o tipo de comunidade a ser desenvolvido na igreja. Por essa razão o Inimigo procura destruir a família, pois isso acabará distorcendo nossa compreensão sobre a igreja.

Desse modo, para se compreender a virtude relacional de Deus, o seu evangelho e a sua igreja, é necessário primeiro compreender a natureza da família. Quando um cônjuge abandona o outro, quando pais e filhos não se relacionam bem, quando se defende um conceito “diferente” de família com dois pais, duas mães, ou sem a fidelidade exigida no relacionamento, etc., a metáfora é distorcida. Sempre que isso ocorre, Satanás consegue destruir o centro de instrução teológica no lar.

2. A família e a capacitação para o serviço ao próximo

A família não é atacada apenas pelo que ela representa, mas também pelo que ela produz. De fato, Deus a estabeleceu para ser um centro de capacitação tanto na igreja quanto no mundo, pois ali se aprende a servir o próximo.

A. A família e o serviço na igreja

Ao discorrer sobre os relacionamentos corretos na igreja, Paulo ensina que os homens idosos devem ser tratados como pais, os moços como irmãos, as mulheres idosas como mães e as moças como irmãs (1Tm 5.1-2). Na verdade, ele indica que devemos olhar para a família a fim de nos relacionarmos no contexto eclesiástico. Naquela mesma carta, Paulo estabelece que uma das maneiras de identificar pessoas qualificadas para o presbiterato é considerar se eles governam bem a própria casa (1Tm 3.4-5). Assim, a família serve como padrão para relacionamentos na igreja e modelo para liderança eclesiástica. A vida e o serviço a ser desempenhado na igreja podem ser aprendidos no contexto familiar. Se o Maligno consegue desconstruir esse padrão, as implicações para a vida comunitária na igreja são catastróficas.

B. A família e o serviço na sociedade

A família presta significante contribuição também à sociedade. Ela não é somente a célula da comunidade, mas também o centro que capacita pessoas para o serviço ao próximo. Além do mais, ela serve igualmente a sociedade quando representa corretamente o seu papel ilustrar as verdades profundas do evangelho. Nesse sentido, temas como paternidade, adoção, relacionamento fraternal, harmonia relacional, etc., são encontrados no contexto da família instituída por Deus. Esses “indicadores do evangelho” acabam servindo de parâmetro para que as pessoas não cristãs compreendam as promessas evangélicas. Por isso, quando noções corretas desses temas são distorcidas, os indicadores do evangelho são corrompidos e até perdidos.

Consequentemente, os ataques de Satanás à família não deveriam nos surpreender. Se puder destruir o padrão bíblico de família ele distorce não apenas uma metáfora de ensino, mas um centro de capacitação e serviço que ministra tanto à igreja quanto ao mundo.

3. A família e a esperança escatológica

Por melhor que seja o relacionamento de uma família, seus membros sempre compreenderão que o bom não é perfeito! O amor e a alegria resultantes da harmonia entre os cônjuges, do relacionamento sadio entre pais e filhos e das atividades de serviço e apoio mútuos no contexto familiar ainda são marcados por falhas e imperfeições. Assim, as deficiências da família inspiram o anelo pelo momento em que as bênçãos do convívio familiar serão perfeitas. Somente na eternidade com Deus as pessoas poderão desfrutar plenamente a alegria do amor paternal, da intimidade e da harmonia que não cessará. De fato, os benefícios familiares experimentados na terra são apenas vislumbres da glória por vir.

Se Satanás desconstrói a família aqui na terra, ele consegue desconstruir a esperança de uma família perfeita e distorce o anelo pelo gozo celestial. Por isso ele é tão intenso em seu ataque à família.

Após essas considerações é possível compreender não apenas o propósito de Satanás contra a família, mas a própria importância dela nos planos de Deus. Por isso, a batalha pela fé entregue aos santos também inclui o cuidado e a proteção por famílias biblicamente alicerçadas.

Quando se pensa e se fala da família como querida por Deus, de imediato se os vem à memória o modelo da Sagrada Família, Jesus, Maria e José. O lar de Nazaré, portanto, deve se repetir no interior de cada domicílio onde o Coração Jesus é o centro, o primordial. E assim a família será, de fato, o lugar de comunhão com Deus e com aqueles que lhe são partícipes; é centro de educação para a fé, para a vida e para o mundo em sociedade. Logo, “a família cristã é evangelizadora e missionária” (Catecismo da Igreja Católica, 2205).

A família, perseverante na união, vive o interesse recíproco entre os membros, numa coesão de vida tal que, a necessidade de um é a dor do outro; a alegria de um é o sucesso dos demais. É bem verdade que é um desafio viver assim, principalmente num mundo tão individualista, onde as pessoas tendem ao isolamento, criando os seus mundos e subterfúgios, principalmente pelos meios de comunicação e seus ditames atrativos e enfeitiçantes. Porém, se não há um esforço, uma dura luta para que “todos sejam um” (Jo 17,21), acontece o previsto por Nosso Senhor no Evangelho: “Se uma família se divide contra si mesma, não poderá manter-se” (Mc 3,25).

O demônio peleja contra a família, prova-nos isto o trazido pelo Gênesis, onde a serpente maldita engana a mulher, e a humanidade, por sua vez, é ameaçada: “Então o Senhor Deus disse à serpente: ‘Porque fizeste isso, […] porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela’” (Gn 3,14.15). Não entrevejamos aqui os diversos significados teológicos, mas pensemos na praticidade destas palavras em relação à vida familiar. Neste mesmo sentido, em sua profunda Exortação Apostólica Familiaris Consortio, o Papa São João Paulo II, analisando a situação da família do mundo de hoje, dirá que não lhe “faltam sinais de degradação preocupante de alguns valores fundamentais: uma errada concepção teórica e prática da independência dos cônjuges entre si; as graves ambiguidades acerca da relação de autoridade entre pais e filhos; as dificuldades concretas, que a família muitas vezes experimenta na transmissão dos valores; o número crescente dos divórcios; a praga do aborto; o recurso cada vez mais frequente à esterilização; a instauração de uma verdadeira e própria mentalidade contraceptiva. Na raiz destes fenômenos negativos está muitas vezes uma corrupção da ideia e da experiência de liberdade concebida não como capacidade de realizar a verdade do projeto de Deus sobre o matrimônio e a família, mas como força autônoma de afirmação, não raramente contra os outros, para o próprio bem-estar egoístico” (n. 6).

Mas, o que nos cabe? Ficaremos inertes ante às tentações e investidas do demônio que quer destruir as famílias? Não. Como filhos da grande família de Deus, constituída Igreja pelo Sangue de Jesus, deveremos evangelizar a cultura que aí está, evangelizando, por primeiro, os nossos lares, os nossos filhos, os nossos pais, enfim, as nossas famílias, fazendo com que “sejam reconhecidos os verdadeiros valores, sejam defendidos os direitos do homem e da mulher e seja promovida a justiça também nas estruturas da sociedade” (Familiaris Consortio, 8).

 

Peçamos a Maria, a Mulher, a Mãe que, em tudo, soube fazer a vontade de Deus, e por isso é bendita, que nos auxilie nesta peleja contra Satanás, a fim de que, evangelizando nossa família, o mundo inteiro seja, também, evangelizado.

 

 

 

Padre Everson Fontes Fonseca é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição (Mosqueiro).

Fonte: https://www.arquidiocesedearacaju.org/post/o-diabo-trama-contra-a-fam%C3%ADlia

 

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