
Você sabia que cada provação pode ser uma visita de Deus para fortalecer sua fé e transformar sua vida?
E se aquilo que você chama de problema for justamente o lugar onde Deus quer transformar você?
Existem momentos em nossa vida em que parece que Deus desapareceu.
A oração parece não ser respondida. A porta que esperávamos que se abrisse permanece fechada. Uma doença aparece. Um relacionamento entra em crise. Uma dificuldade financeira surge. Somos injustiçados, rejeitados, humilhados ou obrigados a enfrentar uma situação que jamais escolheríamos.
E então surge a pergunta:
“Se Deus me ama, por que Ele está permitindo que isso aconteça?”
A resposta da fé católica é profundamente diferente daquela que o mundo costuma oferecer.
A Igreja não ensina que todo sofrimento seja enviado diretamente por Deus. Também não ensina que uma pessoa deva simplesmente aceitar passivamente o mal. O que ela ensina é algo muito mais profundo: Deus pode permitir uma provação sem ser o autor do mal, e pode transformar essa provação em instrumento de santificação.
É exatamente por isso que uma provação pode se tornar aquilo que poderíamos chamar de uma “visita de Deus”.
Não porque Deus seja o causador da tragédia, mas porque Ele entra naquela situação, permanece conosco e pode fazer nascer dali uma criatura espiritualmente diferente.
A Bíblia não diz que a provação é inútil
São Tiago escreve algo que, à primeira vista, parece quase absurdo:
“Meus irmãos, tende por motivo de grande alegria o passardes por diversas provações, sabendo que a prova da vossa fé produz perseverança.”
Tiago 1,2-3.
No grego, encontramos:
πειρασμοῖς ποικίλοις — peirasmois poikilois
A palavra peirasmos pode significar “provação”, “teste” ou “tentação”, dependendo do contexto.
E isso é importantíssimo.
A mesma palavra pode aparecer em contextos nos quais alguém é colocado diante de uma prova, mas também em situações de tentação.
Tiago continua:
“Bem-aventurado o homem que suporta a provação.”
Tiago 1,12.
Mas alguns versículos depois ele estabelece um limite fundamental:
“Ninguém, ao ser tentado, deve dizer: ‘É Deus que me tenta’. Porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta.”
Tiago 1,13.
Portanto, existe uma diferença entre provação e tentação.
Deus pode permitir uma provação para nosso crescimento, mas Deus jamais seduz alguém ao pecado.
O Catecismo da Igreja Católica explica precisamente essa distinção. Ao comentar o “não nos deixeis cair em tentação”, afirma que é necessário discernir entre “a provação, necessária ao crescimento do homem interior”, e “a tentação que conduz ao pecado e à morte”. Catecismo da Igreja Católica, 2846-2847.
Isso muda completamente a maneira como enxergamos nossos sofrimentos.
Deus não precisa causar a ferida para transformar a ferida
Imagine alguém que sofre uma injustiça.
Deus não precisa ter inspirado aquela pessoa a cometer a injustiça.
Imagine alguém que fica doente.
Deus não precisa ser o autor daquela doença.
Imagine uma família passando por uma crise.
Deus não precisa ter provocado aquela crise.
Mas existe uma verdade extraordinária: Deus pode entrar naquela situação e produzir um bem que jamais teria surgido sem aquela experiência.
É exatamente aquilo que São Paulo ensina:
“Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus.”
Romanos 8,28.
Observe que São Paulo não diz que todas as coisas são boas.
Ele diz que todas as coisas concorrem para o bem.
A diferença é enorme.
A doença não precisa ser boa.
A injustiça não precisa ser boa.
A perda não precisa ser boa.
A perseguição não precisa ser boa.
Mas Deus é tão poderoso que consegue trabalhar até mesmo através de situações dolorosas para conduzir seus filhos a um bem maior.
A provação revela aquilo que existe dentro de nós
Existe uma razão pela qual a provação pode ser tão transformadora.
Ela revela quem nós somos quando os apoios externos desaparecem.
Enquanto tudo está funcionando, é relativamente fácil dizer:
“Eu confio em Deus.”
Mas o que acontece quando Deus parece silencioso?
O que acontece quando a oração não produz imediatamente aquilo que pedimos?
O que acontece quando perdemos aquilo em que depositávamos nossa segurança?
É aí que descobrimos se nossa fé estava realmente em Deus ou apenas nos benefícios que esperávamos receber de Deus.
Santo Agostinho percebeu profundamente essa realidade.
Ao comentar o Salmo 76, ele escreve que, no dia da tribulação, devemos procurar não simplesmente alguma coisa através de Deus, mas o próprio Deus.
Em outras palavras, a provação pode revelar uma pergunta escondida dentro da alma:
“Eu quero Deus ou quero apenas aquilo que Deus pode me dar?”
Essa reflexão aparece na Exposição sobre o Salmo 76, de Santo Agostinho.
E isso é extremamente atual.
Talvez algumas pessoas não estejam sofrendo porque Deus as abandonou.
Talvez estejam descobrindo, justamente através do sofrimento, onde realmente estava apoiado o coração delas.
São Pedro compara a fé ao ouro colocado no fogo
São Pedro apresenta uma das imagens mais bonitas de toda a Bíblia para explicar a provação.
“Agora, por algum tempo, se necessário, sois contristados por diversas provações, para que a autenticidade da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, que é provado pelo fogo, alcance louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo.”
1 Pedro 1,6-7.
No texto grego aparece:
δοκίμιον ὑμῶν τῆς πίστεως — dokimion hymōn tēs pisteōs
A expressão dokimion está relacionada àquilo que é testado e demonstrado como autêntico.
É a ideia de uma fé que passa pelo teste e demonstra sua autenticidade.
O ouro não é colocado no fogo porque o fogo seja bom para o ouro em si mesmo.
Ele é colocado no fogo para que aquilo que é impuro seja separado e aquilo que é precioso seja manifestado.
Da mesma maneira, uma provação pode revelar uma fé que estava escondida.
Antes da provação, talvez você diga:
“Eu confio em Deus.”
Depois da provação, talvez sua própria vida possa testemunhar:
“Agora eu sei que consigo continuar confiando em Deus mesmo quando não compreendo o que Ele está fazendo.”
Isso é maturidade espiritual.
São Paulo vai ainda mais longe
São Paulo escreve:
“E não somente isso: nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.”
Romanos 5,3-4.
O grego é particularmente interessante:
θλῖψις — thlipsis
significa tribulação, pressão, aflição.
Depois aparece:
ὑπομονή — hypomonē
que significa perseverança, constância, capacidade de permanecer firme.
E então:
δοκιμή — dokimē
que possui a ideia de caráter provado, autenticidade demonstrada.
A sequência de São Paulo é impressionante:
tribulação → perseverança → caráter provado → esperança.
A provação não é apresentada como o ponto final.
Ela é apresentada como parte de um processo.
Deus pode pegar aquilo que pretendia nos destruir e, pela graça, transformar em ocasião de amadurecimento.
Abraham também precisou passar por uma prova
Um dos exemplos mais impressionantes encontra-se em Gênesis.
Deus coloca Abraão diante de uma prova extremamente dolorosa:
“Deus pôs Abraão à prova.”
Gênesis 22,1.
No grego da Septuaginta aparece o verbo:
ἐπείρασεν — epeirasen
relacionado a peirazō, “provar”, “testar”.
Aqui encontramos uma questão teológica muito interessante.
Como podemos conciliar isso com Tiago 1,13, que afirma que Deus não tenta ninguém?
A resposta está justamente na diferença entre provar e seduzir ao pecado.
Deus prova Abraão, mas não o induz ao pecado.
A prova manifesta a fé de Abraão.
Hebreus interpreta esse episódio dizendo:
“Foi pela fé que Abraão, posto à prova, ofereceu Isaac.”
Hebreus 11,17.
São João Crisóstomo, comentando esse episódio, explica que Deus não precisava descobrir algo que Ele próprio desconhecesse. A prova serviu para manifestar a fortaleza de Abraão e torná-la evidente.
Isso é profundamente importante.
A provação não necessariamente revela algo que Deus não sabe.
Ela pode revelar algo que nós ainda não sabemos sobre nós mesmos.
A provação pode revelar uma fé que você nem sabia possuir
Talvez você esteja pensando:
“Eu não sei se conseguiria suportar isso.”
Mas talvez Deus esteja permitindo que você descubra, pela graça, que é mais forte do que imaginava.
Não por causa de uma força psicológica independente de Deus.
Mas porque a graça divina pode sustentar uma pessoa exatamente quando suas próprias forças terminam.
São Paulo experimentou isso.
Ele pediu três vezes que Deus retirasse de sua vida aquilo que chamava de “espinho na carne”.
A resposta de Cristo foi:
“Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta plenamente.”
2 Coríntios 12,9.
A palavra de Cristo não foi:
“Eu vou retirar imediatamente o seu sofrimento.”
Foi:
“Minha graça te basta.”
Isso é muito diferente.
Às vezes pedimos:
“Senhor, tira isso de mim.”
E Deus responde:
“Eu permanecerei com você enquanto você atravessa isso.”
A Cruz de Cristo muda completamente o significado do sofrimento
O cristianismo não oferece uma explicação abstrata para o sofrimento.
Ele apresenta uma Pessoa.
Jesus Cristo.
Deus não ficou distante do sofrimento humano.
O Filho de Deus entrou na história, assumiu nossa natureza humana e passou pela rejeição, abandono, humilhação, dor, perseguição e morte.
Isaías já havia profetizado:
“Era desprezado e abandonado pelos homens, homem das dores, experimentado no sofrimento.”
Isaías 53,3.
E São Pedro afirma:
“Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo, para que sigais os seus passos.”
1 Pedro 2,21.
É por isso que a dor de um cristão nunca precisa ser uma dor solitária.
Quando sofremos unidos a Cristo, podemos transformar o sofrimento em oferecimento.
São Paulo chega a dizer:
“Completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, em favor do seu corpo, que é a Igreja.”
Colossenses 1,24.
Não significa que faltou alguma coisa à eficácia da Cruz de Cristo.
A redenção de Cristo é perfeita.
O sentido é que Cristo permite que os membros do seu Corpo participem de maneira real, misteriosa e pessoal dos seus sofrimentos e da missão da Igreja.
O Catecismo explica essa realidade ao ensinar que, pela Paixão e Morte de Cristo, o sofrimento recebeu um novo sentido e pode configurar-nos com Cristo e unir-nos à sua Paixão redentora. Catecismo da Igreja Católica, 1505.
Deus pode transformar uma ferida em missão
Existe algo ainda mais impressionante.
Aquele que sofreu pode se tornar capaz de consolar quem sofre.
São Paulo escreve:
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que nos consola em todas as nossas tribulações, para podermos consolar os que estão em qualquer tribulação.”
2 Coríntios 1,3-4.
Perceba a lógica.
Deus consola você.
Você aprende a receber essa consolação.
E depois sua própria experiência pode se tornar instrumento de consolação para outra pessoa.
A ferida que um dia fazia você perguntar “por quê?” pode, com o tempo, permitir que você diga a alguém:
“Eu sei o que você está passando. Eu também atravessei isso. E Deus não me abandonou.”
Aquilo que parecia apenas uma dor pode se transformar em testemunho.
Santo Agostinho: procure Deus dentro da tribulação
Santo Agostinho oferece uma das reflexões mais fortes para quem está atravessando momentos difíceis.
Comentando o Salmo 76, ele pergunta, em essência, o que devemos procurar no dia da tribulação.
Se a prisão é o problema, procuramos sair da prisão.
Se é a doença, procuramos a saúde.
Se é a fome, procuramos alimento.
Mas Agostinho conduz a alma para uma pergunta maior: em meio à tribulação, procure Deus.
Não apenas aquilo que você deseja receber de Deus.
Procure o próprio Deus.
Exposição sobre o Salmo 76, Santo Agostinho.
Essa talvez seja uma das maiores transformações que uma provação pode produzir.
Antes, eu dizia:
“Deus, faça aquilo que eu quero.”
Depois, aprendo a dizer:
“Deus, mesmo que eu não entenda o que está acontecendo, não permita que eu me afaste de Vós.”
Isso é fé.
São João Crisóstomo: Deus está presente no fogo
São João Crisóstomo compara a provação ao fogo que purifica o ouro.
Ele afirma que o ourives sabe quanto tempo deve deixar o ouro no fogo e quando deve retirá-lo, sem permitir que ele seja destruído.
E acrescenta que Deus conhece muito melhor o momento e a medida daquilo que permite que atravessemos.
São João Crisóstomo também insiste que, mesmo quando a provação está dentro das nossas forças, ainda precisamos da graça divina para permanecer firmes. Homilias sobre as Estátuas, discurso sobre as tribulações e 1 Coríntios 10,13.
Isso é importante porque o cristianismo não ensina:
“Você é forte o suficiente sozinho.”
Ele ensina:
“A graça de Deus pode sustentar você.”
São Cipriano: a adversidade pode fortalecer a fé
São Cipriano de Cartago, um dos grandes Padres da Igreja, também enxergava as tribulações como ocasião para a fé ser provada.
Comentando 2 Coríntios 12,7-9, ele relaciona a fraqueza de São Paulo com a manifestação da força divina.
Ele escreve que, quando a fé permanece firme sob a prova, ela é coroada, e que a adversidade não deve afastar o cristão da verdade, mas pode fortalecê-lo por meio do sofrimento.
Tratado 7, São Cipriano de Cartago.
E em outro tratado, Cipriano relaciona diretamente as aflições com a finalidade de provar a fidelidade do cristão, citando Romanos 5,3-5 e 1 Pedro 4,12. Tratado 11,9.
Santo Agostinho e a diferença entre ser provado e ser destruído
Santo Agostinho também ensina que as provações podem revelar aquilo que estava escondido dentro do coração.
Ele explica que aquilo que não aparece nas palavras ou nas ações pode tornar-se manifesto através das provações.
Sobre o Sermão da Montanha, Livro II, capítulo 25.
É por isso que determinadas situações da vida funcionam como um espelho.
A pessoa descobre que era muito mais apegada ao dinheiro do que imaginava.
Descobre que dependia demais da aprovação dos outros.
Descobre que sua fé estava condicionada às respostas de Deus.
Descobre que tinha ressentimentos escondidos.
Descobre que não sabia perdoar.
Mas também pode descobrir algo maravilhoso:
“Eu consigo permanecer de pé porque Deus me sustenta.”
São João da Cruz: Deus purifica para conduzir à união
São João da Cruz, Doutor da Igreja, apresenta uma espiritualidade profundamente marcada pela purificação interior.
Ele ensina que o caminho para a união com Deus passa pelo desapego e pela purificação dos apegos desordenados.
Uma de suas formulações mais conhecidas afirma:
“Para chegar ao que agora não desfrutas, deves ir pelo caminho em que não desfrutas.”
Subida do Monte Carmelo, I, 13, 11. A formulação é citada também pelo Papa São João Paulo II ao explicar a espiritualidade de São João da Cruz.
Isso não significa que o sofrimento seja bom em si mesmo.
Significa que, às vezes, Deus permite que determinados apoios sejam retirados para que descubramos que estávamos buscando segurança em coisas que não poderiam nos salvar.
São João da Cruz ensina que essa purificação tem como finalidade última a transformação da alma e sua união com Deus.
Santa Teresa de Lisieux: a provação da fé pode se tornar amor
Santa Teresa do Menino Jesus, Doutora da Igreja, experimentou uma dolorosa provação de fé nos últimos anos de sua vida.
O Papa Bento XVI descreveu sua experiência como uma verdadeira “provação da fé”, na qual Teresa viveu uma fé heroica em meio à escuridão interior. Mesmo sofrendo, ela continuou escolhendo o amor.
Suas últimas palavras foram:
“Meu Deus, eu vos amo.”
São palavras extraordinárias.
Ela não terminou sua vida dizendo:
“Meu Deus, eu entendi tudo.”
Ela terminou dizendo:
“Meu Deus, eu vos amo.”
Talvez essa seja uma das formas mais maduras de fé.
A fé não significa compreender todas as coisas.
Significa confiar em Deus mesmo quando ainda não compreendemos todas as coisas.
O Catecismo confirma que o sofrimento pode amadurecer a alma
O Catecismo da Igreja Católica é extremamente equilibrado nesse assunto.
Ao tratar da doença e do sofrimento, afirma que a enfermidade pode levar a pessoa à angústia e até à revolta contra Deus, mas também pode ajudá-la a amadurecer, discernir o que é essencial e voltar-se novamente para Deus. Catecismo da Igreja Católica, 1500-1502.
Depois afirma algo ainda mais profundo:
“Cristo deu novo sentido ao sofrimento.”
Catecismo da Igreja Católica, 1505.
E quando comenta a oração do Pai-Nosso, o Catecismo ensina que o Espírito Santo nos ajuda a discernir entre a provação necessária ao crescimento interior e a tentação que conduz ao pecado. Catecismo da Igreja Católica, 2846-2847.
Portanto, a Igreja não manda o cristão procurar sofrimento.
Ela manda o cristão encontrar Cristo quando o sofrimento chegar.
Jesus também foi provado
Antes de iniciar sua vida pública, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto.
“Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.”
Mateus 4,1.
Aqui aparece novamente o campo semântico de peirazō.
Mas perceba a diferença.
Deus não está tentando Jesus ao pecado.
O demônio é quem tenta.
O Espírito conduz Jesus ao deserto.
A provação se torna o cenário no qual a fidelidade do Filho é manifestada.
E Jesus vence.
Depois disso, começa sua missão pública.
Há uma lição poderosa aqui.
Às vezes, o deserto vem antes de uma missão.
O silêncio vem antes de uma decisão.
A purificação vem antes de uma maturidade maior.
A luta vem antes de uma nova etapa.
A provação não significa necessariamente que Deus esteja castigando você
Esse ponto precisa ser muito bem compreendido.
Quando algumas pessoas passam por uma dificuldade, imediatamente perguntam:
“Qual pecado eu cometi para Deus fazer isso comigo?”
Mas Jesus rejeita uma visão simplista desse tipo.
Quando mencionam a tragédia dos galileus mortos e a queda da torre de Siloé, Jesus pergunta se aquelas pessoas eram mais pecadoras do que as outras.
E responde:
“Não, eu vos digo.”
Lucas 13,2-5.
O Papa Bento XVI explicou essa passagem mostrando que Jesus rejeita a interpretação segundo a qual toda tragédia seria uma punição direta de Deus por pecados pessoais. Ao contrário, Jesus utiliza aqueles acontecimentos como chamado à conversão.
Portanto, não devemos olhar para cada sofrimento e concluir:
“Deus está me castigando.”
Às vezes, o sofrimento simplesmente pertence à condição de um mundo ferido pelo pecado.
Mas, mesmo nesse mundo ferido, Deus continua sendo capaz de agir.
A verdadeira pergunta não é apenas “por que isso aconteceu?”
Quando uma provação chega, naturalmente perguntamos:
“Por quê?”
Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante:
“Senhor, o que queres formar em mim através disso?”
Essa pergunta muda tudo.
Talvez Deus esteja ensinando perseverança.
Talvez esteja ensinando humildade.
Talvez esteja libertando você de um apego.
Talvez esteja ensinando você a perdoar.
Talvez esteja aproximando você da oração.
Talvez esteja mostrando que determinada segurança era falsa.
Talvez esteja preparando você para consolar alguém que ainda passará pelo mesmo sofrimento.
Talvez esteja simplesmente chamando você para permanecer junto dele naquele momento, sem receber imediatamente uma explicação.
Nem toda provação será retirada
Essa talvez seja uma das partes mais difíceis da fé.
Algumas orações serão respondidas com uma cura.
Outras serão respondidas com força para continuar.
São Paulo pediu que seu “espinho na carne” fosse retirado.
A resposta foi:
“Minha graça te basta.”
2 Coríntios 12,9.
O Catecismo reconhece essa realidade ao explicar que nem mesmo as orações mais fervorosas obtêm sempre a cura de todas as doenças.
Isso não significa que Deus não ouviu.
Significa que a resposta de Deus nem sempre é a resposta que imaginávamos.
Às vezes pedimos:
“Senhor, muda minha situação.”
E Deus começa mudando nosso coração dentro daquela situação.
A provação pode ser uma visita de Deus
Agora podemos compreender melhor aquela frase:
“Cada provação é uma visita de Deus.”
Se entendermos isso como uma definição literal, precisamos fazer uma correção: nem toda provação é causada diretamente por Deus.
Mas, se entendermos como uma expressão espiritual, ela contém uma verdade profundamente católica.
Quando a provação chega, Deus pode nos visitar com sua graça.
Pode nos visitar através de uma palavra da Escritura.
Pode nos visitar através da Eucaristia.
Pode nos visitar através do Sacramento da Reconciliação.
Pode nos visitar através de uma pessoa que aparece no momento certo.
Pode nos visitar através de uma força interior que não sabemos de onde veio.
Pode nos visitar no silêncio da oração.
Pode nos visitar no próprio sofrimento, não como autor do mal, mas como aquele que permanece conosco e transforma a experiência em caminho de santificação.
É exatamente isso que torna a cruz cristã tão diferente.
O cristão não olha para a cruz e diz:
“Deus não está aqui.”
Ele olha para a cruz e descobre:
“Deus entrou justamente aqui.”
A fé verdadeira aparece quando Deus parece silencioso
Talvez a maior prova de fé não seja acreditar quando tudo está dando certo.
Talvez seja continuar dizendo:
“Eu creio.”
Quando a porta não abre.
“Eu creio.”
Quando a resposta demora.
“Eu creio.”
Quando não entendo.
“Eu creio.”
Quando choro.
“Eu creio.”
Quando preciso esperar.
“Eu creio.”
Quando Deus parece silencioso.
“Eu creio.”
Porque fé não é apenas acreditar que Deus pode fazer aquilo que eu quero.
É confiar que Deus continua sendo Deus mesmo quando Ele não faz aquilo que eu quero.
A provação pode mudar sua vida para sempre
Talvez você esteja atravessando hoje uma situação que não escolheu.
Talvez ninguém saiba da batalha que existe dentro de você.
Talvez você esteja cansado.
Talvez tenha perguntado muitas vezes:
“Meu Deus, até quando?”
Não tenha tanta pressa para concluir que Deus abandonou você.
Olhe para a Escritura.
Abraão teve sua prova.
Jó teve sua prova.
José teve sua prova.
Davi teve suas provas.
Os Apóstolos tiveram suas provas.
São Paulo teve sua prova.
Os mártires tiveram suas provas.
Os santos tiveram suas provas.
E acima de todos eles está Cristo, que entrou no sofrimento humano e transformou a própria Cruz em caminho de Ressurreição.
A provação pode não ser o fim da sua história.
Pode ser o lugar onde começa uma nova história.
Pode ser o lugar onde sua oração deixa de ser apenas palavras.
Pode ser o lugar onde sua fé deixa de depender de sentimentos.
Pode ser o lugar onde você descobre que Deus é mais importante do que aquilo que você perdeu.
Pode ser o lugar onde você aprende a amar de verdade.
Pode ser o lugar onde sua fraqueza encontra a força da graça.
Quando a provação chegar, não desperdice a oportunidade da graça
Quando estiver sofrendo, não precisa fingir que não dói.
Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro.
João 11,35.
No Getsêmani, Jesus experimentou profunda angústia.
“Minha alma está triste até a morte.”
Mateus 26,38.
E ainda assim Ele rezou:
“Não seja feita a minha vontade, mas a tua.”
Lucas 22,42.
Essa é a oração madura.
Não é:
“Senhor, eu não estou sofrendo.”
É:
“Senhor, eu estou sofrendo. Eu não entendo. Eu preferiria que fosse diferente. Mas não quero perder a minha confiança em Vós.”
Isso é fé.
Talvez Deus não esteja apenas querendo tirar você da provação
Talvez Deus esteja querendo tirar algo de você através dela.
Talvez esteja tirando uma falsa segurança.
Um orgulho.
Um apego.
Uma dependência.
Uma vaidade.
Uma confiança exagerada em pessoas.
Uma busca desenfreada por dinheiro.
Uma necessidade constante de aprovação.
Uma vida espiritual superficial.
E, ao mesmo tempo, esteja colocando em seu lugar algo muito maior:
Perseverança.
Humildade.
Sabedoria.
Caridade.
Esperança.
Maturidade.
Santidade.
E uma confiança mais profunda em Deus.
A última palavra da provação não é a dor
A última palavra é a Ressurreição.
São Paulo escreve:
“Os sofrimentos do tempo presente não têm proporção alguma com a glória que há de ser revelada em nós.”
Romanos 8,18.
O cristianismo não promete uma vida sem cruz.
Promete que a cruz não terá a última palavra.
Cristo morreu.
Mas ressuscitou.
E é justamente por isso que o sofrimento do cristão nunca precisa ser interpretado apenas como derrota.
Unido a Cristo, ele pode tornar-se caminho.
Caminho de conversão.
Caminho de purificação.
Caminho de maturidade.
Caminho de amor.
Caminho de santidade.
Caminho para Deus.
Conclusão: talvez sua provação esteja preparando você para aquilo que você ainda não consegue enxergar
Se hoje você está passando por uma provação, talvez você não consiga enxergar o que Deus está fazendo.
E tudo bem.
Você não precisa compreender tudo para confiar.
Abraão não sabia como Deus resolveria a situação.
Jó não recebeu imediatamente todas as respostas.
São Paulo não teve seu espinho retirado.
Santa Teresa de Lisieux atravessou uma noite de fé.
Os santos não foram homens e mulheres que nunca sofreram.
Foram homens e mulheres que aprenderam a sofrer sem abandonar Deus.
Por isso, quando a próxima provação chegar, talvez você possa fazer uma oração diferente.
Em vez de perguntar apenas:
“Senhor, por que isso está acontecendo comigo?”
Pergunte também:
“Senhor, o que queres fazer em mim através disso?”
E talvez, algum dia, olhando para trás, você perceba algo que hoje não consegue enxergar.
Aquela situação que parecia apenas uma tragédia se tornou uma escola.
Aquela perda se tornou desapego.
Aquela espera se tornou perseverança.
Aquela humilhação se tornou humildade.
Aquela fraqueza se tornou dependência de Deus.
Aquela lágrima se tornou oração.
Aquela cruz se tornou caminho.
E então você entenderá que Deus não precisava ser o autor daquela dor para estar presente nela.
Ele apenas precisava permanecer ao seu lado.
E transformar, pela graça, aquilo que parecia ser o fim em um novo começo.
“Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta plenamente.”
2 Coríntios 12,9.
Talvez a sua provação não seja uma prova de que Deus foi embora.
Talvez seja justamente o lugar onde você descobrirá que Ele nunca saiu do seu lado.







