Qual é a vocação que Deus gravou em minha alma como missão inadiável nesta terra?


Existe uma missão específica que Deus preparou para cada pessoa? Por que Deus me colocou neste mundo? Qual é a minha missão? Devo me casar? Devo ser padre? Devo entrar para uma comunidade religiosa? Devo permanecer solteiro celibatário? Deus pode estar me chamando para uma vida de celibato no mundo? Como saber aquilo que Deus espera de mim?

Qual é a vocação que Deus gravou em minha alma como missão inadiável nesta terra?

Existe uma missão específica que Deus preparou para cada pessoa?

Existe uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, aparece no coração de quem leva a fé a sério:

“Por que Deus me colocou neste mundo?”

“Qual é a minha missão?”

“Devo me casar?”

“Devo ser padre?”

“Devo entrar para uma comunidade religiosa?”

“Devo permanecer solteiro?”

“Deus pode estar me chamando para uma vida de celibato no mundo?”

“Como saber aquilo que Deus espera de mim?”

A resposta católica começa com uma verdade que vem antes de qualquer profissão, estado civil, ministério ou missão apostólica:

Deus chama todo ser humano à santidade e à comunhão com Ele.

Depois, dentro dessa vocação fundamental, existem diferentes caminhos concretos pelos quais uma pessoa pode responder ao chamado de Deus.

O Concílio Vaticano II ensina que todos os fiéis, “seja qual for a sua condição ou estado”, são chamados pelo Senhor à santidade, cada um pelo seu próprio caminho. São João Paulo II e, posteriormente, o Papa Francisco retomaram essa mesma doutrina.

Portanto, talvez a pergunta mais correta não seja apenas:

“Qual é o meu trabalho?”

Mas:

“Senhor, por qual caminho queres que eu me torne santo e sirva ao teu Reino?”


A primeira e mais fundamental vocação: ser santo

Antes de descobrir se você será marido, esposa, padre, freira, religioso, consagrado, viúvo, celibatário ou leigo, existe uma vocação que já foi recebida no Batismo:

a vocação à santidade.

São Pedro escreve:

“Sede santos em todo o vosso procedimento, porque está escrito: Sereis santos, porque eu sou santo.”

1 Pedro 1,15-16.

Jesus é ainda mais direto:

“Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito.”

Mateus 5,48.

No grego de Mateus aparece:

Ἔσεσθε οὖν ὑμεῖς τέλειοι

Esesthe oun hymeis teleioi

A palavra τέλειοι (teleioi) vem de telos, “fim”, “meta”, “plenitude”. A ideia não é simplesmente uma pessoa que nunca comete nenhuma imperfeição psicológica, mas alguém que caminha para a maturidade e plenitude do amor.

É justamente por isso que o Catecismo ensina que a perfeição cristã tem como centro a caridade.

E São Tomás de Aquino explica:

“A perfeição da vida cristã consiste radicalmente na caridade.”

São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 184, a. 1.

Portanto, se alguém pergunta:

“Qual é a minha vocação?”

A primeira resposta é:

Você foi criado para amar a Deus e participar da vida divina.


Deus não criou você por acidente

São Paulo escreve algo impressionante:

“Nele nos escolheu antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor.”

Efésios 1,4.

No grego:

ἐξελέξατο ἡμᾶς ἐν αὐτῷ πρὸ καταβολῆς κόσμου

exelexato hēmas en autō pro katabolēs kosmou

“Escolheu-nos nele antes da fundação do mundo.”

Isso não significa que Deus tenha programado mecanicamente cada detalhe da vida humana como se fôssemos robôs.

Significa que nossa existência está dentro de um desígnio de amor.

São Paulo também afirma:

“Somos obra sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras que Deus de antemão preparou para que nós as praticássemos.”

Efésios 2,10.

Aqui aparece uma ideia belíssima.

Você não foi criado apenas para “passar pela vida”.

Você recebeu dons.

Recebeu inteligência.

Recebeu capacidade de amar.

Recebeu uma história.

Recebeu circunstâncias concretas.

Recebeu pessoas.

Recebeu oportunidades.

E tudo isso pode tornar-se matéria-prima para a missão que Deus deseja realizar através de você.


A palavra bíblica para vocação: κλῆσις

No Novo Testamento encontramos a palavra grega:

κλῆσις — klēsis

Ela significa “chamado”, “vocação”.

São Paulo escreve:

“Cada um permaneça na condição em que se encontrava quando foi chamado.”

1 Coríntios 7,20.

No grego:

ἕκαστος ἐν τῇ κλήσει ᾗ ἐκλήθη, ἐν ταύτῃ μενέτω

Hekastos en tē klēsei hē eklēthē, en tautē menetō.

Literalmente, a ideia é:

“Cada um permaneça no chamado no qual foi chamado.”

Isso é extremamente importante.

A palavra κλῆσις mostra que vocação não significa simplesmente “emprego”.

Vocação é um chamado.

É uma resposta a Deus.

É uma maneira concreta de entregar a própria existência.


A vocação ao matrimônio

Uma das grandes vocações cristãs é o matrimônio.

A Bíblia começa apresentando o homem e a mulher unidos numa comunhão de vida:

“Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe, se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne.”

Gênesis 2,24.

Jesus confirma essa passagem:

“Assim, já não são dois, mas uma só carne.”

Mateus 19,6.

O Catecismo ensina que o pacto matrimonial entre homem e mulher constitui uma comunhão íntima de toda a vida e que, entre batizados, foi elevado por Cristo à dignidade de sacramento. Catecismo da Igreja Católica, 1601.

Portanto, casar não é simplesmente “encontrar alguém de quem eu gosto”.

Para o cristão, o matrimônio é uma vocação.

O esposo é chamado a santificar-se amando sua esposa.

A esposa é chamada a santificar-se amando seu esposo.

Os dois são chamados a cooperar com Deus na transmissão da vida e na educação dos filhos.

São Paulo apresenta o matrimônio como imagem do próprio amor de Cristo pela Igreja:

“Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.”

Efésios 5,25.

Aqui existe uma dimensão profundamente vocacional.

O marido não pergunta apenas:

“Como posso ser feliz no casamento?”

Ele deveria perguntar:

“Como Deus quer que eu leve minha esposa para mais perto de Cristo?”

E a esposa:

“Como Deus quer que eu ajude meu marido a chegar ao Céu?”


A vocação ao sacerdócio

Outra vocação específica é o sacerdócio ministerial.

A Carta aos Hebreus apresenta um princípio fundamental:

“Ninguém toma esta honra para si mesmo, senão aquele que é chamado por Deus.”

Hebreus 5,4.

No grego:

καὶ οὐχ ἑαυτῷ τις λαμβάνει τὴν τιμήν, ἀλλὰ καλούμενος ὑπὸ τοῦ θεοῦ

A expressão καλούμενος ὑπὸ τοῦ θεοῦ significa:

“sendo chamado por Deus”.

Isso é muito importante.

O sacerdote não inventa a própria vocação.

Ele não simplesmente decide:

“Quero ser padre.”

Existe um chamado que precisa ser discernido e confirmado pela Igreja.

O Catecismo ensina que o Sacramento da Ordem possui três graus: episcopado, presbiterado e diaconado. Catecismo da Igreja Católica, 1536.

São João Paulo II também explica que a vocação sacerdotal é uma chamada para configurar-se a Cristo e colocar a própria vida a serviço do Povo de Deus. Pastores Dabo Vobis.


A vocação episcopal

Dentro do Sacramento da Ordem existe o episcopado.

O bispo recebe a plenitude do Sacramento da Ordem e é sucessor dos Apóstolos.

O Catecismo afirma:

“O bispo recebe a plenitude do sacramento da Ordem.”

Catecismo da Igreja Católica, 1594.

A vocação episcopal não é simplesmente uma promoção administrativa.

É uma missão apostólica.

O bispo é chamado a ensinar, santificar e governar uma Igreja particular em comunhão com o Papa e com o colégio episcopal.

Cristo disse aos Apóstolos:

“Quem vos ouve, a mim ouve.”

Lucas 10,16.

E também:

“Ide, pois, ensinai todas as nações.”

Mateus 28,19.

A sucessão apostólica torna essa missão presente na Igreja ao longo dos séculos.


A vocação ao diaconado

Outra vocação específica é o diaconado.

A palavra grega relacionada a esse ministério é:

διακονία — diakonia

que significa “serviço”, “ministério”.

O próprio Cristo se apresenta como aquele que veio para servir:

“O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.”

Marcos 10,45.

O Sacramento da Ordem possui o diaconado como um de seus três graus. O Catecismo explica que os diáconos são ordenados para o serviço da Palavra, da liturgia, da caridade e de outras tarefas pastorais.

Existe ainda o diaconado permanente, que pode ser conferido a homens casados, segundo as normas da Igreja.

Isso mostra algo muito bonito:

A vocação ao serviço não é inferior.

O próprio Cristo definiu sua missão em termos de serviço.


A vocação à vida religiosa

Existe também a vocação à vida religiosa.

Homens e mulheres podem ser chamados a abandonar uma vida familiar própria para seguir Cristo de modo radical através da profissão dos conselhos evangélicos.

Jesus disse:

“Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me.”

Mateus 19,21.

E quando Pedro pergunta o que receberão aqueles que deixaram tudo por Cristo, Jesus responde:

“Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou terras por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna.”

Mateus 19,29.

A Igreja reconhece a vida consagrada como uma vocação especial.

O Código de Direito Canônico afirma que a vida consagrada mediante os conselhos evangélicos é uma forma estável de vida pela qual os fiéis se dedicam totalmente a Deus e procuram a perfeição da caridade, servindo ao Reino de Deus. Cânon 573.


A vocação monástica

Dentro da vida religiosa existe a tradição monástica.

O monge não precisa necessariamente ser sacerdote.

A essência da vida monástica está na busca radical de Deus, na oração, na conversão da vida e na comunhão fraterna.

O Concílio Vaticano II recorda a venerável tradição monástica da Igreja e reconhece tanto a vida contemplativa quanto formas de vida monástica que assumem legitimamente algum apostolado. Perfectae Caritatis, 9.

Aqui aparece uma verdade que o mundo moderno quase esqueceu:

uma vida aparentemente escondida pode produzir frutos extraordinários para toda a Igreja.

Quem reza atrás dos muros de um mosteiro pode estar trabalhando pelo Reino de Deus tanto quanto aquele que prega numa praça.


A vocação à vida contemplativa

Existem também homens e mulheres chamados especialmente à contemplação.

Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz, Santa Teresinha do Menino Jesus e tantos outros mostram que uma vida escondida pode possuir uma extraordinária fecundidade espiritual.

Santa Teresinha é um dos exemplos mais impressionantes.

Ela descobriu sua vocação precisamente dentro da Igreja e escreveu:

“No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o Amor.”

Santa Teresinha do Menino Jesus, Manuscrito B, 3v.

Sua descoberta é extraordinária.

Ela percebeu que não precisava necessariamente realizar todas as funções da Igreja.

Precisava descobrir como amar dentro do Corpo de Cristo.


A vocação aos institutos seculares

Aqui entramos numa vocação que muitos católicos desconhecem.

Existem pessoas que desejam consagrar-se completamente a Deus, viver a castidade no celibato, assumir os conselhos evangélicos e, ao mesmo tempo, permanecer no mundo.

São os membros dos institutos seculares.

O Código de Direito Canônico explica:

“Um instituto secular é um instituto de vida consagrada no qual os fiéis, vivendo no mundo, procuram a perfeição da caridade e se esforçam por contribuir para a santificação do mundo, sobretudo a partir de dentro.”

Cânon 710.

Isso é extremamente interessante.

A pessoa não precisa necessariamente entrar num convento para viver uma consagração radical.

Pode estar no trabalho.

Pode exercer uma profissão.

Pode viver na sociedade.

Pode atuar no mundo da cultura, da educação, da saúde, da política, da comunicação ou de qualquer profissão legítima.

Mas pertence a Deus de maneira consagrada.


A vocação à virgindade consagrada

Existe ainda uma vocação muito antiga na Igreja:

a ordem das virgens consagradas.

O Código de Direito Canônico afirma que as virgens podem ser consagradas a Deus pelo bispo diocesano segundo o rito litúrgico aprovado e tornam-se, de maneira mística, esposas de Cristo, dedicando-se ao serviço da Igreja. Cânon 604.

Essa vocação encontra fundamento nas palavras de Jesus:

“Há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus.”

Mateus 19,12.

No grego:

εὐνοῦχοι διὰ τὴν βασιλείαν τῶν οὐρανῶν

eunouchoi dia tēn basileian tōn ouranōn

“eunucos por causa do Reino dos Céus.”

Não significa mutilação física.

Cristo está falando daqueles que abraçam voluntariamente a continência por causa do Reino.

São Paulo desenvolve a mesma ideia:

“Quem não tem mulher, cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor.”

1 Coríntios 7,32.

E acrescenta que aquele que permanece solteiro pode dedicar-se de modo mais indiviso às coisas do Senhor.

1 Coríntios 7,34-35.


A vocação do celibatário leigo que vive no mundo

Aqui chegamos a uma vocação que merece uma explicação especial.

Nem todo celibatário é padre.

Nem todo celibatário é religioso.

Nem todo celibatário pertence a um instituto secular.

Existe também a possibilidade de um fiel leigo viver solteiro e dedicar profundamente sua vida a Deus e ao serviço do próximo, permanecendo no mundo.

Isso não significa que toda pessoa solteira tenha automaticamente recebido uma “vocação ao celibato”.

Essa distinção é importante.

Uma pessoa pode estar solteira simplesmente porque ainda não encontrou seu futuro cônjuge.

Outra pode permanecer solteira por circunstâncias da vida.

Outra pode discernir que Deus a chama a permanecer celibatária para dedicar-se de maneira particular ao Reino.

E existe ainda uma pessoa que vive uma forma de entrega pessoal a Deus sem pertencer a um estado canônico específico de vida consagrada.

A Igreja reconhece que os leigos possuem uma verdadeira missão própria no mundo.

O Concílio Vaticano II ensina:

“É próprio e peculiar dos leigos a característica secular.”

E afirma que, por sua vocação, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus.

Lumen Gentium, 31.

Portanto, imagine um homem solteiro que não deseja construir uma família, mas dedica sua vida ao trabalho honesto, à oração, à evangelização, à caridade, à formação dos jovens, ao cuidado dos pobres e à defesa da fé.

Ele pode viver uma vida profundamente vocacionada.

Não é necessário que todo apostolado seja exercido por um sacerdote.

Não é necessário que toda pessoa que serve intensamente à Igreja esteja num convento.

O mundo também precisa de santos leigos.


São Paulo fala diretamente sobre o celibato pelo Reino

São Paulo escreve:

“Quem não tem mulher, cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor.”

1 Coríntios 7,32.

E depois:

“Aquele que não se casa fará melhor.”

1 Coríntios 7,38.

Mas é fundamental compreender o contexto.

São Paulo não está dizendo que o matrimônio seja inferior ou pecaminoso.

Ele mesmo afirma:

“Se te casares, não pecaste.”

1 Coríntios 7,28.

O Apóstolo reconhece dois caminhos legítimos.

Matrimônio.

Celibato pelo Reino.

O critério é a vocação concreta da pessoa.


A palavra grega “ἀπερίσπαστος” e o coração indiviso

Em 1 Coríntios 7,35, São Paulo deseja que aqueles que permanecem celibatários possam servir ao Senhor:

ἀπερίσπαστον

aperispaston

A ideia é de algo “não dividido”, “sem distração”, “sem estar dividido”.

Essa é uma das razões pelas quais a Igreja vê valor no celibato pelo Reino.

Não porque o casamento seja ruim.

Mas porque existe uma forma de amor em que a pessoa entrega sua capacidade de formar uma família própria para dedicar-se de modo particular a Cristo e à Igreja.


A vocação eremítica

Existe ainda uma vocação que parece quase esquecida:

a vida eremítica.

O Código de Direito Canônico reconhece explicitamente a vida eremítica ou anacorética.

O cânon 603 descreve o eremita como alguém que dedica a vida ao louvor de Deus e à salvação do mundo através de maior separação do mundo, silêncio, oração assídua e penitência.

Observe algo extraordinário:

“à salvação do mundo”.

O eremita se afasta fisicamente de muitas realidades do mundo justamente para servir espiritualmente o mundo.

Não é fuga egoísta.

É intercessão.

São João Paulo II também apresentou a vida eremítica como uma forma de testemunhar a transitoriedade deste mundo e recordar a todos a vocação suprema de estar com o Senhor. Vita Consecrata, 7.


A vocação das viúvas e dos viúvos

A Igreja primitiva também conhecia uma forma particular de dedicação de viúvas.

São Paulo escreve:

“Honra as viúvas que são verdadeiramente viúvas.”

1 Timóteo 5,3.

E descreve uma mulher que permanece dedicada à oração:

“A que é verdadeiramente viúva e desamparada põe sua esperança em Deus e persevera noite e dia nas súplicas e orações.”

1 Timóteo 5,5.

A tradição cristã antiga conheceu o estado das viúvas dedicadas ao Senhor.

São João Paulo II também menciona a renovação contemporânea da consagração de viúvas, conhecida desde os tempos apostólicos. Vita Consecrata, 7.

No entanto, aqui também devemos fazer uma distinção: ser viúvo não significa automaticamente estar em uma forma de vida consagrada. Existem viúvos simplesmente vivendo sua condição de vida cristã, e existem formas específicas de consagração reconhecidas pela Igreja.


A vocação missionária

Existe também uma dimensão missionária presente em todas as vocações cristãs.

Jesus disse:

“Ide, pois, ensinai todas as nações.”

Mateus 28,19.

A palavra grega:

μαθητεύσατε

mathēteusate

significa “fazei discípulos”.

Todo cristão é chamado a participar da missão de Cristo.

Alguns fazem isso como sacerdotes.

Outros como religiosos.

Outros como missionários consagrados.

Outros como catequistas.

Outros como pais e mães.

Outros através de sua profissão.

Outros pela internet.

Outros pela caridade.

Outros simplesmente pela santidade de uma vida escondida.

A missão pode assumir formas diferentes.


A vocação do leigo no mundo

Essa talvez seja uma das vocações mais importantes e menos compreendidas atualmente.

O leigo não é um “quase padre”.

Não é um cristão de segunda categoria.

O Batismo já o incorpora a Cristo.

O Concílio Vaticano II afirma que os leigos participam, à sua maneira, da missão sacerdotal, profética e real de Cristo.

Lumen Gentium, 31.

O Papa Leão XIV também recordou recentemente essa doutrina, afirmando que a missão dos leigos na Igreja e no mundo está fundada na dignidade batismal e se estende a todo o mundo, não ficando restrita aos ambientes eclesiais.

Isso significa que um empresário católico pode ter uma vocação.

Um médico pode ter uma vocação.

Um professor pode ter uma vocação.

Um jornalista pode ter uma vocação.

Um comerciante pode ter uma vocação.

Um trabalhador pode ter uma vocação.

Um aposentado pode ter uma vocação.

E um solteiro pode ter uma vocação.

O problema é que muitas pessoas pensam:

“Eu não sou padre, então não tenho uma missão.”

Isso é contrário à visão católica do Batismo.


São Francisco de Sales destrói essa ideia

São Francisco de Sales escreveu algo maravilhoso:

“Deus manda os cristãos, que são as plantas vivas da sua Igreja, produzir frutos de devoção, cada um segundo sua espécie e vocação.”

São Francisco de Sales, Introdução à Vida Devota, Parte I, capítulo III.

Ele continua explicando que a devoção precisa assumir formas diferentes conforme a vocação de cada pessoa.

Um bispo não deve necessariamente viver como um cartuxo.

Um pai de família não precisa imitar integralmente a vida de um religioso.

Um trabalhador não precisa abandonar seu trabalho para passar o dia inteiro na igreja.

A verdadeira devoção, segundo São Francisco de Sales, não destrói a vocação.

Ela aperfeiçoa a vocação.

Essa frase deveria ser colocada na parede de todo católico que está tentando descobrir sua missão.


Santo Agostinho: o coração foi feito para Deus

Santo Agostinho começa suas Confissões com uma das frases mais famosas da espiritualidade cristã:

“Fizeste-nos para Vós, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Vós.”

Santo Agostinho, Confissões, I, 1.

Isso ajuda a entender a questão da vocação.

Muitas vezes a pessoa pergunta:

“Qual profissão vai me fazer feliz?”

Mas a pergunta mais profunda é:

“Para quem fui criado?”

E a resposta é:

Para Deus.

Nenhuma vocação particular consegue preencher completamente o coração humano se Deus estiver ausente.

Nem casamento.

Nem sacerdócio.

Nem dinheiro.

Nem sucesso.

Nem ministério.

Nem fama.

A vocação específica é um caminho.

Deus é o destino.


São Tomás de Aquino: o fim último é a caridade

São Tomás explica que a perfeição da vida cristã consiste essencialmente na caridade.

Isso é decisivo.

Porque pode acontecer uma coisa muito estranha:

Uma pessoa pode estar no estado de vida aparentemente mais “religioso” e não ser santa.

Pode ser padre e não amar.

Pode ser religioso e não amar.

Pode ser casado e não amar.

Pode ser solteiro e não amar.

Pode ser um grande pregador e não amar.

A vocação não substitui a conversão.

A vocação é o lugar onde a conversão deve acontecer.

São Tomás, Summa Theologiae, II-II, q. 184, a. 1.


A vocação não é simplesmente “o que eu gosto”

Aqui precisamos tomar cuidado.

A cultura moderna frequentemente diz:

“Faça aquilo que você gosta.”

A fé católica pergunta algo mais profundo:

“O que Deus quer que eu faça com aquilo que Ele colocou em mim?”

Pode existir uma inclinação natural.

Pode existir um talento.

Pode existir um desejo persistente.

Pode existir uma paixão apostólica.

Mas nenhuma dessas coisas, isoladamente, prova uma vocação.

Uma pessoa pode gostar de falar e não ser chamada ao sacerdócio.

Outra pode amar crianças e não ser chamada ao matrimônio.

Outra pode gostar de silêncio e não ter vocação monástica.

O discernimento cristão precisa unir desejo, dons, realidade, liberdade, oração e confirmação eclesial quando se trata de vocações que exigem reconhecimento da Igreja.


Os carismas também fazem parte da missão

São Paulo explica:

“Há diversidade de dons, mas um só Espírito.”

1 Coríntios 12,4.

No grego:

διαιρέσεις δὲ χαρισμάτων εἰσίν

diaireseis de charismatōn eisin

“Há diversidade de carismas.”

A palavra χάρισμα — charisma significa dom concedido pela graça.

São Paulo continua:

“A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito.”

1 Coríntios 12,7.

Isso significa que a vocação pessoal pode incluir determinados dons:

ensinar;

evangelizar;

servir;

aconselhar;

administrar;

consolar;

liderar;

exercer misericórdia;

evangelizar através da comunicação;

defender a fé;

cuidar dos pobres;

formar crianças;

trabalhar pela cultura cristã.

Mas carisma não é a mesma coisa que estado de vida.

Essa distinção é importante.


Vocação, estado de vida, profissão e ministério não são a mesma coisa

Um homem pode ser:

leigo;

solteiro;

professor;

catequista;

evangelizador;

pai espiritual de jovens;

membro de uma comunidade;

e exercer um apostolado na internet.

Tudo isso pode coexistir.

Outra pessoa pode ser:

casada;

mãe;

médica;

catequista;

ministra de uma pastoral;

e evangelizadora.

Outra pode ser:

padre;

religioso;

missionário;

professor.

A vocação não precisa caber em uma única palavra.

O importante é descobrir como todas as dimensões legítimas da vida podem ser ordenadas para Deus.


A vida cotidiana pode ser uma missão extraordinária

Jesus diz:

“Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes.”

Lucas 16,10.

Essa frase deveria libertar muita gente.

Talvez sua missão não seja fundar uma comunidade.

Talvez você nunca escreva um livro.

Talvez nunca pregue para milhares.

Talvez ninguém conheça seu nome.

Mas você pode ser o pai que ensina o filho a rezar.

A mãe que persevera.

O trabalhador que não rouba.

O empresário que paga justamente seus funcionários.

O professor que não corrompe seus alunos.

O solteiro que oferece sua vida a Deus.

O idoso que reza pela Igreja.

O enfermo que oferece seu sofrimento.

O profissional que testemunha Cristo através de sua honestidade.

Isso também é Reino de Deus.


E se Deus estiver me chamando para uma vida celibatária no mundo?

Essa pergunta merece ser levada a sério.

Se uma pessoa percebe que possui uma profunda atração pelo serviço do Reino, não deseja constituir família, possui capacidade de viver a castidade e sente desejo de dedicar sua vida à Igreja e ao próximo, isso pode ser matéria legítima de discernimento.

Mas é necessário distinguir:

solteirice circunstancial

de

celibato escolhido por amor ao Reino

e

vida consagrada reconhecida pela Igreja.

São realidades diferentes.

Um leigo pode viver solteiro sem pertencer a uma forma canônica de vida consagrada.

Um membro de instituto secular pode viver no mundo com profissão e, ao mesmo tempo, possuir uma consagração reconhecida pela Igreja.

Uma virgem consagrada possui uma forma própria de consagração.

Um religioso possui outra.

Um sacerdote possui a vocação e o sacramento da Ordem.

Não devemos colocar tudo no mesmo saco.


“Não quero casar. Então estou fora da vocação?”

Não.

Essa conclusão seria errada.

Também seria errado dizer automaticamente:

“Se não quero casar, então Deus está me chamando para ser padre.”

Não necessariamente.

Pode existir um caminho de vida consagrada.

Pode existir um instituto secular.

Pode existir a vida religiosa.

Pode existir a virgindade consagrada para mulheres.

Pode existir uma vocação eremítica.

Pode existir uma forma de vida leiga celibatária vivida no mundo.

Pode existir ainda um período prolongado de discernimento.

O importante é não transformar a ausência do matrimônio em uma sentença de vazio.

Cristo também chama pessoas a uma vida inteiramente dedicada ao Reino.


A vocação ao celibato não é uma fuga das pessoas

Existe uma tentação de pensar:

“Não quero casar porque não quero responsabilidade.”

Isso é diferente de:

“Não quero constituir família porque sinto que Deus me chama a entregar minha vida de outra maneira.”

O primeiro pode ser simplesmente medo.

O segundo pode ser vocação.

Por isso, o discernimento precisa perguntar:

Estou fugindo do amor ou estou sendo chamado a amar de uma maneira diferente?

Essa pergunta é muito importante.

Porque o celibato cristão não significa amar menos.

Significa entregar o amor de outra maneira.


A vocação nunca é uma desculpa para fugir da missão

Uma pessoa pode dizer:

“Minha vocação é ficar sozinho.”

Mas passa a vida inteira isolada, sem oração, sem serviço, sem apostolado, sem caridade e sem compromisso.

Isso não parece a lógica do Evangelho.

Jesus não chamou ninguém para viver para si mesmo.

Ele disse:

“Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.”

Mateus 16,24.

A vocação cristã sempre produz dom de si.

Se o meu estado de vida me torna cada vez mais egoísta, alguma coisa precisa ser examinada.


A vocação religiosa não é superior à vocação matrimonial em santidade

Aqui existe outro erro.

Não devemos imaginar uma escada:

“Padre é mais santo que religioso.”

“Religioso é mais santo que casado.”

“Casado é mais santo que solteiro.”

Não é assim.

São Francisco de Sales já alertava que a devoção deve ser vivida segundo a vocação de cada pessoa.

São Tomás também distingue entre o estado de perfeição e a própria perfeição da caridade. Uma pessoa pode estar em um estado de vida que oferece meios especiais para a perfeição sem necessariamente possuir maior santidade pessoal.

A medida final é o amor.


Cristo é o modelo de todas as vocações

No fundo, todas as vocações cristãs convergem para Cristo.

O marido precisa olhar para Cristo.

A esposa precisa olhar para Cristo.

O padre precisa olhar para Cristo.

O religioso precisa olhar para Cristo.

O leigo solteiro precisa olhar para Cristo.

O consagrado precisa olhar para Cristo.

O diácono precisa olhar para Cristo.

O bispo precisa olhar para Cristo.

Porque a vocação cristã não é primeiramente:

“Encontrar uma atividade.”

É:

“Seguir uma Pessoa.”

Jesus disse:

“Vem e segue-me.”

Mateus 19,21.


Então quais são as principais vocações reconhecidas pela Igreja?

A vocação universal à santidade

É a vocação de todos os batizados.

Todos são chamados à perfeição da caridade e à comunhão com Deus.

Lumen Gentium, 39-42; Catecismo da Igreja Católica, 2012-2014. O Papa Francisco reafirma que todos são chamados à santidade “cada um pelo seu caminho”.

A vocação matrimonial

É a vocação do homem e da mulher chamados a constituir uma comunhão de toda a vida, elevada por Cristo à dignidade de sacramento entre batizados.

Catecismo da Igreja Católica, 1601.

A vocação ao sacerdócio

É a vocação ao Sacramento da Ordem, especialmente ao presbiterado, para servir Cristo e sua Igreja no ministério da Palavra, dos Sacramentos e do pastoreio.

Catecismo da Igreja Católica, 1536-1600.

A vocação episcopal

É a plenitude do Sacramento da Ordem e a sucessão do ministério apostólico.

Catecismo da Igreja Católica, 1555-1561 e 1594.

A vocação diaconal

É a vocação sacramental ao serviço, exercida no ministério da Palavra, da liturgia e da caridade.

Catecismo da Igreja Católica, 1569-1571 e 1596.

A vocação à vida religiosa

É a entrega especial a Deus através da profissão dos conselhos evangélicos, normalmente em formas reconhecidas pela Igreja.

Código de Direito Canônico, cânones 573-602; Perfectae Caritatis.

A vocação monástica e contemplativa

É uma forma de vida religiosa marcada de modo especial pela busca de Deus, oração, contemplação, conversão e, conforme o instituto, trabalho e apostolado.

Perfectae Caritatis, 9.

A vocação aos institutos seculares

É a consagração a Deus mediante os conselhos evangélicos, permanecendo a pessoa no mundo e buscando santificá-lo “a partir de dentro”.

Código de Direito Canônico, cânones 710-730.

A vocação à virgindade consagrada

É a consagração pública de mulheres que, mediante o rito litúrgico aprovado, são consagradas a Deus pelo bispo e dedicam-se ao serviço da Igreja.

Código de Direito Canônico, cânon 604; Vita Consecrata, 7.

A vocação eremítica

É a vida de maior separação do mundo, silêncio, oração e penitência, vivida para o louvor de Deus e a salvação do mundo.

Código de Direito Canônico, cânon 603.

A vocação à vida celibatária leiga no mundo

É a possibilidade de um fiel leigo permanecer sem matrimônio e dedicar sua vida a Deus, à Igreja, ao próximo e às responsabilidades temporais, sem necessariamente pertencer a uma forma canônica de vida consagrada.

Ela deve ser discernida concretamente e não deve ser confundida automaticamente com a vida religiosa ou com a consagração formal.

Sua inspiração bíblica aparece de modo especial em 1 Coríntios 7,32-35, enquanto sua missão secular encontra fundamento em Lumen Gentium, 31.

A vocação cristã na viuvez

A viuvez pode tornar-se um caminho particular de entrega a Deus, oração, serviço e caridade. A Escritura apresenta a viúva dedicada ao Senhor como figura de especial fecundidade espiritual em 1 Timóteo 5,3-5.

A tradição também conheceu formas de consagração de viúvas, mencionadas por São João Paulo II em Vita Consecrata, 7.


E existem ainda ministérios e carismas

Aqui precisamos fazer uma distinção.

Nem tudo aquilo que chamamos de “vocação” na linguagem cotidiana é um estado de vida.

Uma pessoa pode receber uma missão específica como catequista, evangelizador, missionário, formador, professor, músico, comunicador, defensor da fé, servidor dos pobres ou responsável por uma obra de caridade.

São Paulo fala de muitos dons:

“Há diversidade de dons, mas um só Espírito.”

1 Coríntios 12,4.

E:

“Temos dons diferentes, conforme a graça que nos foi dada.”

Romanos 12,6.

Esses dons podem estar ligados à missão pessoal.

Mas eles não substituem necessariamente o discernimento do estado de vida.


Como descobrir minha vocação?

Comece pela oração

Jesus disse:

“Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe.”

Mateus 9,38.

Antes de perguntar:

“Qual vocação combina comigo?”

Pergunte:

“Senhor, o que queres de mim?”

Essa oração muda tudo.


Observe aquilo que Deus colocou em você

Observe seus dons.

Observe suas inclinações.

Observe aquilo que lhe causa profunda alegria.

Observe aquilo pelo qual você está disposto a sofrer.

Observe aquilo que desperta em você desejo de servir.

Observe onde você produz frutos.

Mas não pare aí.

Nem todo desejo é vocação.

Nem todo talento é chamado.

Nem toda paixão é missão.

Tudo precisa ser colocado diante de Deus.


Observe também aquilo que Deus está pedindo para você renunciar

Essa é uma parte do discernimento que pouca gente quer ouvir.

Jesus chama:

“Se alguém quer vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.”

Mateus 16,24.

Uma vocação verdadeira quase sempre envolve sacrifício.

O marido renuncia ao egoísmo.

A esposa renuncia ao egoísmo.

O sacerdote renuncia à formação de uma família própria.

O religioso renuncia a muitos bens e à autonomia pessoal.

O celibatário pelo Reino renuncia à possibilidade de formar uma família própria.

O missionário renuncia à estabilidade.

A vocação não pergunta:

“O que vai me dar mais conforto?”

Ela pergunta:

“Onde posso amar mais?”


Procure confirmação na Igreja

Uma vocação cristã não deve ser construída apenas na imaginação pessoal.

Especialmente quando se trata de sacerdócio, vida religiosa, consagração, eremitismo ou outras formas reconhecidas pela Igreja, existe discernimento eclesial.

São João Paulo II explica que a Igreja é também “geradora e educadora de vocações” e que a vocação cristã, em qualquer forma, é um dom destinado a edificar a Igreja e o Reino de Deus. Pastores Dabo Vobis.

Por isso:

oração pessoal;

direção espiritual;

sacramentos;

confissão frequente;

Eucaristia;

leitura da Escritura;

acompanhamento de pessoas maduras na fé;

e, quando necessário, acompanhamento vocacional oficial

fazem parte do discernimento.


Uma pergunta que pode mudar sua vida

Imagine que Deus lhe dissesse:

“Eu não quero que você viva para si mesmo.”

O que você faria?

Talvez você tenha vocação para o matrimônio.

Talvez para o sacerdócio.

Talvez para a vida religiosa.

Talvez para uma consagração.

Talvez para o celibato no mundo.

Talvez para uma missão apostólica específica.

Talvez Deus queira que você santifique uma profissão aparentemente comum.

Talvez sua missão seja criar filhos santos.

Talvez seja cuidar de seus pais.

Talvez seja evangelizar.

Talvez seja trabalhar pela verdade.

Talvez seja sofrer com Cristo em uma enfermidade.

Talvez seja uma combinação de várias dessas realidades.

A questão é descobrir qual forma concreta Deus quer que sua vida assuma.


A sua vocação não é necessariamente aquilo que parece mais extraordinário

O Papa Francisco insistiu que a santidade não está reservada a bispos, padres ou religiosos.

Ele deu exemplos muito concretos: o casado pode santificar-se amando o esposo ou esposa; quem trabalha pode santificar-se trabalhando com integridade; pais e avós podem santificar-se educando os pequenos; quem exerce autoridade pode santificar-se trabalhando pelo bem comum. Gaudete et Exsultate, 14.

Isso significa que talvez sua missão esteja justamente onde você está.

Mas também significa que você não deve usar sua situação atual como desculpa para nunca discernir.


Deus pode estar chamando você para algo que você ainda não imaginou

Abraão teve de sair.

Moisés teve de voltar ao Egito.

Samuel precisou aprender a reconhecer a voz de Deus.

Isaías precisou responder:

“Eis-me aqui, envia-me.”

Isaías 6,8.

No grego da Septuaginta, a tradição cristã conserva:

Ἰδού, ἀπόστειλόν με

“Eis-me aqui, envia-me.”

Maria respondeu:

“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”

Lucas 1,38.

No grego:

Ἰδοὺ ἡ κυρίου δούλη· γένοιτό μοι κατὰ τὸ ῥῆμά σου

Idou hē Kyriou doulē; genoito moi kata to rhēma sou.

“Eis a serva do Senhor; aconteça comigo segundo a tua palavra.”

Talvez essa seja a essência de toda vocação:

“Senhor, não quero apenas descobrir o que eu quero. Quero descobrir o que Tu queres.”


A vocação é uma resposta de amor

São João Paulo II ensinou que toda vocação cristã nasce de Cristo e conduz ao serviço da Igreja e do mundo.

E o Papa Francisco recordou que o Senhor tem um plano de amor para cada pessoa e que a santidade não é uma “fotocópia”, mas algo original em cada vida.

Essa ideia é belíssima.

Deus não quer fabricar santos idênticos.

Ele quer santos diferentes.

São Pedro não era São Paulo.

São Francisco não era São Tomás.

Santa Teresa de Ávila não era Santa Teresinha.

São Bento não era São João Maria Vianney.

E nenhum deles precisava ser o outro.

Cada um respondeu à graça de uma maneira própria.


Então qual é a missão inadiável que Deus gravou em minha alma?

A resposta mais profunda é esta:

Deus gravou em sua alma a vocação de conhecê-Lo, amá-Lo, servi-Lo e unir-se a Ele.

E, dentro dessa vocação universal, existe um caminho concreto.

Para alguns será o matrimônio.

Para outros, o sacerdócio.

Para outros, o diaconado.

Para outros, a vida religiosa.

Para outros, a vida monástica.

Para outros, a vida contemplativa.

Para outros, o instituto secular.

Para algumas mulheres, a virgindade consagrada.

Para alguns, a vida eremítica.

Para alguns, uma vida celibatária leiga dedicada ao Reino no meio do mundo.

Para outros, a viuvez vivida como especial oportunidade de entrega a Deus.

E, em todos esses caminhos, existem incontáveis formas de missão, carismas e apostolados.

Mas existe uma coisa que ninguém está dispensado de fazer:

tornar-se santo.


A pergunta que você deveria fazer diante do Santíssimo

Talvez você esteja procurando sua vocação há anos.

Talvez esteja confuso.

Talvez tenha medo de escolher errado.

Talvez tenha perdido uma oportunidade.

Talvez esteja solteiro e não saiba se deve procurar o matrimônio.

Talvez esteja casado e se pergunte se realmente essa era sua vocação.

Talvez sinta atração pelo sacerdócio ou pela vida religiosa.

Talvez deseje viver no mundo, mas completamente para Deus.

Então faça uma pergunta diante do Santíssimo Sacramento:

“Jesus, se eu não tivesse medo de perder nada, o que Tu me pedirias?”

E depois faça outra:

“Qual caminho me permite amar mais a Deus e entregar minha vida pelo próximo?”

Porque no final das contas, vocação não é descobrir qual caminho fará você receber mais.

É descobrir qual caminho Deus quer utilizar para fazer de você um dom.

E talvez seja justamente aí que você finalmente descubra por que nasceu.

Não pergunte apenas: “Qual é o meu lugar no mundo?”

Pergunte:

“Senhor, onde queres que eu te ame?”

Essa é a pergunta de uma alma que realmente começou a discernir sua vocação.

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