
Vivemos uma época em que corrigir alguém parece ser proibido
Uma das frases mais repetidas em nossa sociedade é: "Não julgue ninguém."
Muitos acreditam que a verdadeira caridade consiste em nunca corrigir, nunca advertir e nunca chamar alguém à conversão. Em nome da tolerância, do respeito ou da paz, prefere-se permanecer em silêncio, mesmo quando um irmão caminha para longe de Deus.
Mas será que esse silêncio é realmente amor?
Ou será que, em determinadas situações, ele se torna uma forma de omissão?
À luz da doutrina católica, da Sagrada Escritura e da Tradição da Igreja, descobrimos que existe uma importante diferença entre julgar a pessoa e corrigir o pecado. A primeira atitude pertence somente a Deus; a segunda pode ser um verdadeiro ato de misericórdia quando realizada com humildade, prudência e amor.
O amor verdadeiro deseja a salvação do outro
A caridade cristã nunca se limita ao bem-estar material ou emocional.
Ela busca, acima de tudo, a salvação eterna.
Por isso São Paulo escreve:
"O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade."
(1 Coríntios 13,6)
No original grego lemos:
οὐ χαίρει ἐπὶ τῇ ἀδικίᾳ, συγχαίρει δὲ τῇ ἀληθείᾳ
(ou chairei epi tē adikia, synchairei de tē alētheia)
A palavra ἀλήθεια (alētheia) significa verdade, realidade, aquilo que corresponde ao plano de Deus.
Já ἀδικία (adikia) significa injustiça, iniquidade, aquilo que se opõe à vontade divina.
Portanto, quem ama verdadeiramente não pode alegrar-se quando vê alguém vivendo no pecado.
O amor deseja conduzir o outro à verdade.
Deus já ensinava isso no Antigo Testamento
Muito antes da vinda de Cristo, Deus revelou ao profeta Ezequiel a responsabilidade de advertir o pecador.
"Se eu disser ao ímpio: "Tu morrerás", e tu não o advertires... pedirei contas do seu sangue à tua mão."
(Ezequiel 3,18)
Mais adiante o Senhor repete:
"Se advertires o ímpio... terás salvo a tua vida."
(Ezequiel 3,19)
Essas palavras são fortíssimas.
Elas mostram que existe responsabilidade moral não apenas por aquilo que fazemos, mas também por aquilo que deixamos de fazer.
O silêncio pode transformar-se em omissão.
O pecado da omissão
Muitos pensam que pecamos apenas quando praticamos o mal.
Entretanto, Jesus ensina que também podemos pecar deixando de praticar o bem.
Na descrição do Juízo Final, os condenados não são acusados de assassinato ou idolatria.
São condenados porque deixaram de amar.
"Tive fome e não me destes de comer."
(Mateus 25,42)
O pecado deles foi a omissão.
Da mesma forma, quando deixamos de ajudar espiritualmente um irmão que caminha para o abismo, precisamos examinar nossa consciência.
Nem toda omissão é pecado, pois muitas circunstâncias exigem prudência. Porém, quando temos um dever real de orientar alguém e nos calamos por comodismo, medo ou indiferença, podemos faltar à caridade.
Jesus mandou corrigir o irmão
Não foi uma sugestão.
Foi uma orientação do próprio Cristo.
"Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo entre ti e ele somente."
(Mateus 18,15)
No original grego:
ὕπαγε ἔλεγξον αὐτὸν
(Hypage elenxon auton.)
O verbo utilizado é:
ἐλέγχω
(elenchō)
Esse verbo possui um significado muito rico.
Pode significar:
convencer
repreender
mostrar o erro
corrigir com o objetivo de converter.
Não se trata de humilhar.
Nem de condenar.
O objetivo é recuperar o irmão.
Jesus continua:
"Se ele te ouvir, ganhaste teu irmão."
(Mateus 18,15)
Observe que o propósito da correção não é vencer uma discussão.
É ganhar uma alma.
A diferença entre julgar e corrigir
Uma das maiores confusões modernas nasce da interpretação isolada das palavras de Jesus:
"Não julgueis."
(Mateus 7,1)
Alguns concluem que qualquer correção seria proibida.
Mas poucos versículos depois o próprio Cristo afirma:
"Guardai-vos dos falsos profetas."
(Mateus 7,15)
E acrescenta:
"Pelos seus frutos os conhecereis."
(Mateus 7,16)
Como reconhecer falsos profetas sem realizar um discernimento?
A resposta está no contexto.
Jesus condena o julgamento hipócrita.
Logo em seguida explica:
"Tira primeiro a trave do teu olho; então verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão."
(Mateus 7,5)
Ele não diz para deixar o argueiro.
Ele manda primeiro converter-se e depois ajudar o irmão.
A correção fraterna exige humildade.
São Paulo também manda corrigir
O Apóstolo escreve:
"Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão."
(Gálatas 6,1)
No grego:
καταρτίζετε
(katartízete)
Esse verbo significa restaurar, reparar, colocar novamente em ordem.
Era utilizado para descrever o conserto de redes de pesca ou a redução de um osso deslocado.
Que imagem extraordinária.
A correção cristã não quebra.
Ela restaura.
Corrigir é uma obra de misericórdia
A Igreja sempre ensinou que existe uma obra de misericórdia espiritual chamada:
Corrigir os que erram.
Ela aparece tradicionalmente entre as sete obras de misericórdia espirituais.
Não nasceu na Idade Média.
Nasceu do próprio Evangelho.
Quem ama não deseja que o outro permaneça afastado de Deus.
O Catecismo sobre a correção fraterna
O Catecismo afirma:
Catecismo da Igreja Católica §1829
"A caridade é benevolência; suscita a reciprocidade; permanece desinteressada e generosa; é amizade e comunhão."
A verdadeira amizade deseja o maior bem possível para o amigo: sua comunhão com Deus.
Catecismo §1435
Ao falar da conversão cotidiana, o Catecismo recorda:
"A correção fraterna" é um dos meios pelos quais Deus conduz seus filhos ao arrependimento.
A Igreja não vê a correção como falta de amor.
Ela a considera instrumento de conversão.
Catecismo §2447
Ao apresentar as obras de misericórdia espirituais, recorda a importância de instruir, aconselhar e corrigir aqueles que erram.
O silêncio pode nascer do medo
Muitas vezes sabemos que deveríamos dizer alguma coisa.
Mas pensamos:
"Vou perder a amizade."
"Ele vai ficar magoado."
"Não quero criar problemas."
Naturalmente, é preciso prudência. Nem toda situação exige uma intervenção imediata, e nem todos somos chamados a corrigir qualquer pessoa. Contudo, quando o silêncio nasce apenas do receio de desagradar, ele pode revelar que buscamos mais a aprovação humana do que o verdadeiro bem do outro.
Jesus adverte:
"Ai de vós quando todos vos elogiarem."
(Lucas 6,26)
O discípulo de Cristo nem sempre será compreendido.
Jesus corrigia porque amava
Cristo jamais confundiu amor com permissividade.
À mulher adúltera disse:
"Nem eu te condeno. Vai e não peques mais."
(João 8,11)
Observe o equilíbrio perfeito.
Primeiro oferece misericórdia.
Depois chama à conversão.
Não condena a pessoa.
Mas também não chama o pecado de bem.
A linguagem do Apocalipse
Jesus dirige-se à Igreja de Laodiceia dizendo:
"Eu repreendo e corrijo aqueles que amo."
(Apocalipse 3,19)
No grego:
ἐγὼ ὅσους ἐὰν φιλῶ, ἐλέγχω καὶ παιδεύω
(Egō hosous ean philō, elenchō kai paideuō.)
Novamente aparece o verbo:
ἐλέγχω
(elenchō)
Corrigir.
Repreender.
Mostrar o erro.
E aparece outro verbo:
παιδεύω
(paideuō)
Que significa educar, formar, disciplinar como um pai educa seu filho.
Cristo corrige porque ama.
Não apesar do amor.
Santo Agostinho
Santo Agostinho ensina:
"Ama e faze o que quiseres."
Fonte:
Homilia sobre a Primeira Carta de João, Tratado VII, 8.
Essa frase é frequentemente mal compreendida.
Agostinho explica que, quando existe verdadeiro amor, todas as ações serão ordenadas para o bem do próximo.
Isso inclui, quando necessário, a correção fraterna.
Na mesma homilia afirma que tanto o silêncio quanto a palavra devem nascer da caridade.
São João Crisóstomo
São João Crisóstomo escreve:
"Não corrigir os maus é incentivar os bons a praticarem o mal."
Fonte:
Homilias sobre Mateus.
Para Crisóstomo, a omissão também produz escândalo.
São Gregório Magno
São Gregório Magno afirma:
"Aquele que tem autoridade para corrigir e se cala torna-se cúmplice da culpa."
Fonte:
Regra Pastoral, Livro II.
Embora se dirija especialmente aos pastores, o princípio vale para todos aqueles que possuem responsabilidade sobre outras pessoas.
São Tomás de Aquino
São Tomás de Aquino dedica uma questão inteira da Suma Teológica à correção fraterna.
Ensina:
"A correção fraterna é um ato de caridade."
Fonte:
Suma Teológica, II-II, questão 33, artigo 1.
Tomás explica que o maior bem que podemos desejar ao próximo é sua salvação eterna.
Por isso corrigir, quando feito corretamente, pertence ao amor.
A Patrística confirma esse ensinamento
São Basílio Magno escreve:
"É sinal de ódio ocultar ao irmão aquilo que pode salvá-lo."
Fonte:
Regras Morais, Regra 72.
Santo Ambrósio afirma:
"A amizade verdadeira não adula o pecado; combate-o."
Fonte:
De Officiis Ministrorum, Livro III.
Corrigir exige santidade
Antes de corrigir alguém, devemos perguntar:
Estou movido pelo amor?
Ou pelo orgulho?
Desejo salvar uma alma?
Ou vencer uma discussão?
Estou disposto a ajudar depois da correção?
Ou apenas quero apontar defeitos?
A correção cristã nunca é um desabafo.
É um ministério da misericórdia.
Nem toda verdade pode ser dita de qualquer maneira
São Paulo recomenda:
"Vivendo a verdade na caridade."
(Efésios 4,15)
No grego:
ἀληθεύοντες δὲ ἐν ἀγάπῃ
(alētheuontes de en agapē)
A expressão une duas realidades inseparáveis.
Verdade.
Caridade.
Sem verdade, o amor torna-se sentimentalismo.
Sem caridade, a verdade transforma-se em dureza.
O cristão é chamado a unir ambas.
O maior ato de amor pode ser um chamado à conversão
Talvez nunca saibamos quantas pessoas chegaram ao Céu porque alguém teve coragem de dizer uma palavra difícil no momento certo.
Da mesma forma, talvez jamais saibamos quantas permaneceram no erro porque ninguém quis parecer "inconveniente".
A verdadeira caridade não procura agradar a qualquer custo.
Procura conduzir o outro a Cristo.
Às vezes isso exige silêncio.
Outras vezes exige uma palavra firme.
Em ambos os casos, o critério deve ser sempre o mesmo: o amor que busca a salvação do irmão.
O silêncio sempre é sinal de respeito?
Vivemos em uma cultura que valoriza profundamente a liberdade individual. Isso é, sem dúvida, um bem, pois o próprio Deus criou o homem livre e jamais força alguém a amá-Lo. Entretanto, existe uma diferença importante entre respeitar a liberdade de uma pessoa e abandonar essa pessoa à própria sorte.
Um pai que vê o filho pequeno caminhando em direção a um precipício e permanece calado, alegando respeitar sua liberdade, não está sendo amoroso.
Um médico que descobre uma doença grave e decide não informar o paciente para evitar desconforto não está sendo misericordioso.
Da mesma forma, quando percebemos que alguém está colocando em risco sua vida espiritual, o silêncio pode deixar de ser prudência para tornar-se indiferença.
São Tiago escreve:
"Quem fizer um pecador voltar do seu caminho errado salvará sua alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados."
(Tiago 5,19-20)
No original grego, o verbo utilizado é:
ἐπιστρέψῃ
(epistrépsē)
Derivado de ἐπιστρέφω (epistréphō), significa "fazer voltar", "converter", "trazer de volta ao caminho".
A missão do cristão não consiste apenas em evitar o mal pessoalmente, mas também em colaborar para que outros retornem ao caminho da vida.
Existe um momento em que o silêncio deixa de ser prudência
Nem toda situação exige uma correção imediata.
Jesus nem sempre respondia às provocações.
Diante de Herodes, permaneceu em silêncio.
"Herodes interrogou-o com muitas perguntas, mas Jesus nada respondeu."
(Lucas 23,9)
Esse silêncio não nasceu do medo.
Nasceu da sabedoria.
Jesus sabia que Herodes não buscava a verdade.
Queria apenas divertir-se.
Da mesma forma, existem momentos em que qualquer correção será inútil porque o coração do outro está completamente fechado.
O próprio Cristo ensina:
"Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis vossas pérolas diante dos porcos."
(Mateus 7,6)
Essa expressão não autoriza desprezar ninguém, mas ensina que o Evangelho exige discernimento. Há ocasiões em que insistir apenas aumentará a resistência.
Nem toda correção produz conversão imediata
Muitas pessoas deixam de advertir porque acreditam que, se o outro não mudar imediatamente, a correção fracassou.
Mas Deus nunca nos pediu para controlar os resultados.
Pediu fidelidade.
O profeta Isaías escreve:
"Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia."
(Isaías 55,11)
Às vezes uma única palavra permanece anos na consciência de alguém.
Quantas conversões começaram com uma advertência recebida muito tempo antes?
A graça de Deus continua trabalhando mesmo quando não vemos frutos imediatos.
Julgar a alma pertence a Deus
Um dos maiores cuidados que o cristão deve ter é não confundir o pecado com o pecador.
Podemos afirmar que determinada atitude é objetivamente contrária ao Evangelho.
Não podemos afirmar com certeza qual é a situação da consciência daquela pessoa diante de Deus.
Somente Deus conhece completamente o coração humano.
A Escritura afirma:
"O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração."
(1 Samuel 16,7)
Por isso a Igreja distingue claramente duas atitudes.
Julgar o estado eterno de uma pessoa pertence somente a Deus.
Discernir comportamentos à luz do Evangelho faz parte da responsabilidade cristã.
Essa distinção protege tanto a verdade quanto a caridade.
Corrigir com mansidão significa corrigir como Cristo
São Paulo não manda simplesmente corrigir.
Ele acrescenta uma condição indispensável:
"Corrigi-o com espírito de mansidão."
(Gálatas 6,1)
A palavra grega utilizada é:
πραΰτης
(praýtēs)
Traduzida como mansidão.
Entretanto, essa palavra não significa fraqueza.
Na literatura grega descrevia a força dominada, a autoridade exercida com serenidade.
Foi a mesma palavra utilizada por Jesus quando declarou:
"Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração."
(Mateus 11,29)
Cristo nunca confundiu mansidão com permissividade.
Ele expulsou os vendedores do Templo.
Repreendeu os fariseus.
Chamou Pedro à conversão.
Mas fez tudo movido pelo amor ao Pai e à salvação das almas.
A verdadeira mansidão não elimina a firmeza.
Ela elimina a violência.
A correção fraterna começa pelo testemunho
Existe uma forma de correção que fala antes mesmo das palavras.
É o exemplo.
São Pedro aconselha:
"Conquistai-os sem palavras pelo procedimento."
(1 Pedro 3,1)
Muitas vezes um testemunho coerente possui mais força do que longos discursos.
Uma vida santa desperta perguntas.
Uma vida coerente torna a correção mais credível.
Quando nossas palavras confirmam aquilo que nossas atitudes já anunciam, o coração do outro se abre com muito mais facilidade.
A oração deve preceder qualquer advertência
Antes de falar ao irmão, o cristão deve falar com Deus.
A oração purifica as intenções.
Ela impede que a correção nasça da irritação ou do orgulho.
Quantas palavras duras jamais seriam pronunciadas se primeiro fossem levadas ao Senhor!
Jesus passou noites inteiras em oração antes dos momentos decisivos de sua missão.
(Lucas 6,12)
Se o próprio Filho de Deus rezava antes de agir, quanto mais nós necessitamos pedir a luz do Espírito Santo antes de corrigir alguém.
A oração também nos ajuda a perceber se somos realmente a pessoa indicada para fazer aquela advertência ou se Deus deseja utilizar outro instrumento.
Nem todos possuem a mesma responsabilidade
Existe também uma diferença entre as diversas vocações.
Pais possuem responsabilidades que outras pessoas não possuem.
Os pastores da Igreja receberam uma missão específica de ensinar e corrigir.
Os padrinhos assumem compromissos espirituais.
Os catequistas têm deveres próprios.
São Paulo escreve aos presbíteros:
"Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e doutrina."
(2 Timóteo 4,2)
No grego aparece o verbo:
ἐπίστηθι
(epístēthi)
Que transmite a ideia de permanecer firme, estar constantemente preparado.
Quem recebeu a missão de ensinar não pode omitir a verdade por medo da impopularidade.
Quando o amor prefere perder uma amizade a perder uma alma
Há momentos em que advertir poderá trazer incompreensão, afastamento ou até o rompimento de uma amizade.
Os santos aceitaram esse risco.
Porque compreendiam que existe algo infinitamente mais precioso do que a aprovação das pessoas: a salvação eterna.
Os Provérbios já ensinavam:
"Melhor é a repreensão franca do que o amor encoberto."
(Provérbios 27,5)
E acrescentam:
"Leais são as feridas feitas pelo amigo."
(Provérbios 27,6)
O verdadeiro amigo não é aquele que confirma todos os nossos desejos, mas aquele que deseja o nosso verdadeiro bem, ainda que isso custe conversas difíceis.
Os santos preferiam desagradar por amor do que agradar por omissão
São João Maria Vianney dizia:
"Há almas que se perdem porque ninguém lhes diz a verdade."
Fonte: ensinamento preservado em suas catequeses e biografias espirituais.
Seu ministério era marcado por uma combinação admirável de firmeza e ternura. Muitos penitentes chegavam temendo suas palavras e saíam profundamente transformados por experimentarem, através delas, a misericórdia de Deus.
São Francisco de Sales, conhecido por sua extraordinária delicadeza, ensinava:
"Apanha-se mais moscas com uma gota de mel do que com um barril de vinagre."
Fonte: Introdução à Vida Devota (princípio recorrente de sua espiritualidade).
Ele não defendia esconder a verdade, mas anunciá-la com tanta doçura que o coração pudesse acolhê-la.
A verdade sem amor fere. O amor sem verdade engana.
Essas duas tentações acompanham constantemente a evangelização.
Há quem utilize a verdade como uma espada para humilhar.
Há quem utilize o amor como desculpa para esconder a verdade.
Cristo escolheu outro caminho.
São João resume sua missão dizendo:
"O Verbo se fez carne... cheio de graça e de verdade."
(João 1,14)
Graça e verdade caminham juntas.
Jamais se opõem.
Sempre que uma delas desaparece, o anúncio do Evangelho fica incompleto.
Conclusão
A correção fraterna é um dos maiores desafios da vida cristã porque exige discernimento, humildade, coragem e profunda vida de oração. Nem sempre falar será a decisão mais prudente, e nem sempre calar será um gesto de respeito. O discípulo de Cristo é chamado a buscar, em cada situação, a vontade de Deus, perguntando não apenas "o que devo dizer?", mas também "como, quando e por que devo dizê-lo?".
A verdadeira caridade nunca se acomoda diante do pecado, mas também nunca transforma a verdade em instrumento de condenação. Ela sabe esperar o momento oportuno, escolhe as palavras certas, reza antes de agir e confia que é o Espírito Santo quem toca os corações. Assim viveram os santos: anunciaram a verdade sem medo, corrigiram sem humilhar, acolheram sem relativizar o pecado e permaneceram sempre movidos pelo desejo de conduzir cada pessoa ao encontro misericordioso com Jesus Cristo, que é "o caminho, a verdade e a vida" (João 14,6).
Conclusão
A correção fraterna é uma das expressões mais exigentes e mais belas da caridade cristã. Ela nasce da convicção de que cada pessoa possui uma dignidade eterna e de que o maior bem que podemos desejar ao próximo é sua comunhão com Deus. Permanecer em silêncio diante do pecado, quando temos o dever e a possibilidade de ajudar, pode significar perder uma oportunidade preciosa de colaborar com a graça divina na conversão de um irmão.
Ao mesmo tempo, a Igreja ensina que essa correção deve ser realizada com humildade, prudência, mansidão e profundo respeito pela liberdade do outro. Não se trata de condenar pessoas, mas de iluminar consciências; não de humilhar, mas de restaurar; não de vencer debates, mas de ganhar um irmão para Cristo.
Quando a verdade é anunciada com amor, ela deixa de ser uma arma e torna-se um remédio. Foi assim que Jesus agiu. Foi assim que viveram os santos. E continua sendo esse o caminho que a Igreja propõe a todos os seus filhos: amar tanto o próximo que tenhamos coragem de ajudá-lo a caminhar rumo à santidade, lembrando sempre que a maior misericórdia é conduzir uma alma ao encontro da Verdade que liberta.











