O que a Igreja e a Bíblia dizem sobre o jejum?


O jejum fortalece o nosso espírito contra as tentações da carne e do espírito. O jejum possibilita um melhor discernimento espiritual e deve ser acompanhado de estudo da Bíblia e oração. Todos estes elementos estão presentes na experiência de Josafá, e conduziram o povo na adoração (2 Crônicas 20, 18)

O jejum fortalece o nosso espírito contra as tentações da carne e do espírito

O jejum possibilita um melhor discernimento espiritual e deve ser acompanhado de estudo da Bíblia e oração. Todos estes elementos estão presentes na experiência de Josafá, e conduziram o povo na adoração (2 Crônicas 20, 18).

O que diz a Bíblia?

Bíblia recomenda muito o jejum, tanto o Antigo como o Novo Testamento; Jesus o realizou por quarenta dias no deserto antes de enfrentar o demônio e começar a vida pública; e muito o recomendou. “Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17,20).

“Boa coisa é a oração acompanhada de jejum, e a esmola é preferível aos tesouros de ouro escondidos” (Tb 12,8).

O nosso jejum deve ser acompanhado de mudança de vida, de conversão, de arrependimento dos pecados e volta para Deus. O profeta Isaías chamava a atenção do povo para isso:

“De que serve jejuar, se com isso não vos importais? E mortificar-nos, se nisso não prestais atenção? É que no dia de vosso jejum, só cuidais de vossos negócios, e oprimis todos os vossos operários”. Passais vosso jejum em disputas e altercações, ferindo com o punho o pobre. Não é jejuando assim que fareis chegar lá em cima vossa voz. O jejum que me agrada porventura consiste em o homem mortificar-se por um dia? Curvar a cabeça como um junco, deitar sobre o saco e a cinza? Podeis chamar isso um jejum, um dia agradável ao Senhor? Sabeis qual é o jejum que eu aprecio? – diz o Senhor Deus: É romper as cadeias injustas, desatar as cordas do jugo, mandar embora livres os oprimidos, e quebrar toda espécie de jugo” (Is 58,3-6).

Durante o reinado de Josafá, rei de Judá, os filhos de Moabe e os filhos de Amóm (descendentes das filhas de Ló) se reuniram para pelejar contra Judá. Não é dada nenhuma explicação religiosa para a deflagração da guerra durante o reinado justo de Josafá. Havia anos o rei vinha aumentando a força de sua nação, equipando o exército e fortificando cidades (2 Crônicas 17, 12-19). Mas, nesse momento de crise, diante do cerco inimigo, ele teve medo. Entretanto, ao invés de colocar a sua confiança em homens, ele a colocou em Deus:

“Então, Josafá teve medo e se pôs a buscar ao SENHOR; e apregoou jejum em todo o Judá” (2 Crônicas 20,3).

O jejum possibilita um melhor discernimento espiritual e deve ser acompanhado de estudo da Bíblia e oração. Todos estes elementos estão presentes na experiência de Josafá, e conduziram o povo na adoração (2 Crônicas 20,18). Sua oração foi embasada nas Escrituras. Ele sabia que Deus governa sobre toda a Terra e também que, se os inimigos de Deus triunfassem desta vez, isso traria opróbrio ao nome do Senhor. Portanto, clamou a Deus para que vindicasse a Si mesmo diante dos pagãos.

Não há nada de errado em sentir medo diante do perigo. Errado é sucumbir ao medo. Pessoas fortes e corajosas muitas vezes sentem medo, mas o segredo é seguir adiante, buscando a presença e direção divina, confiando em Deus e em Sua Palavra. Foi isso o que o rei Josafá fez. O ajuntamento público e a oração de Josafá são um cumprimento da oração de Salomão durante a dedicação do templo (2 Crônicas 6, 24-25). O resultado foi uma vitória impressionante (2 Crônicas 20, 17, 22-29).

Jejuar é abster-se de certos tipos de alimentos com o intuito de ter a mente mais clara para poder compreender melhor os desígnios de Deus mediante oração e estudo a Bíblia. Pode-se usar alimentos mais naturais e leves, como sucos ou frutas por um determinado período de tempo, em conformidade com a condição física da pessoa. Um exemplo desse jejum é o de Daniel. Em seu estilo de vida ele não comia alimentos que haviam sido proibidos por Deus (Daniel 1, 8; Levíticos 11) e foi muito abençoado por isso (Daniel 1, 17-21). Muitos anos depois de sua chegada à Babilônia, Daniel decidiu fazer um jejum parcial por 21 dias, porque procurava mais compreensão junto a Deus quanto ao destino de seu povo (Daniel 10, 2-3).

Na Bíblia tem um significado profundo a prescrição do jejum, ou seja privação de alimento ou bebida com um fito religioso. Trata-se de uma homenagem a Deus, acompanhada de preces. É um ato, portanto, de fé e de notável  humildade. Jesus mesmo jejuou quarenta dias e quarenta noites (Mt 4,2), enquanto seus discípulos não se entregavam a esta prática e o questionaram a respeito. Sua resposta foi esta: “Podem porventura jejuar os companheiros  do esposo, enquanto o esposo está com eles? Todo o tempo que têm consigo o esposo não podem jejuar. Mas virão os dias em que lhes será tirado o esposo; e então nesses dias jejuarão” (Mc 2,18-21). Segundo os melhores biblistas isto mostra que o verdadeiro jejum é o da fé, isto é, a privação da presença visível de Jesus e sua permanente busca por entre as incongruências da vida. Entretanto, enquanto o cristão espera a volta de seu  Redentor há lugar para práticas físicas do jejum penitencial como uma maneira de mortificar o corpo e dispor o espírito para as ascensões espirituais. Há,  de fato, valores espirituais de rara valia nesta maneira de agir. Hoje, na Igreja Católica, o jejum está restrito a dois dias:

O jejum pode ser acompanhado de oração, estudo da Bíblia, arrependimento, confissão, entrega total da vida ao Senhor, reconhecimento de Sua soberania e pedido pelo batismo do Espírito Santo. É muito importante não se deter em pensamentos ou atividades frívolas.

O jejum nos ajuda a reconhecer a Deus como Rei Soberano e a nossa necessidade de Sua ajuda. Quando milhares de israelitas exilados estavam para voltar para a Judéia, a grande responsabilidade de conduzi-los com segurança pesava sobre os ombros de Esdras. Ele tinha perfeita consciência dos perigos que um grupo de exilados desarmados, com grande quantidade de tesouros, poderia enfrentar em uma viagem longa através de vastos territórios escassamente povoados. O que ele fez?

Sabendo que era preciso ter a presença de Deus mais do que tudo, e que essa presença divina é assegurada quando não há pecado entre o povo, Esdras apregoou um jejum para que todos se afligissem e se humilhassem, o que significava sondar a vida e remover todos os pecados conhecidos antes de iniciar a viagem à Judéia. Desse episódio podemos extrair a lição de que o jejum pode ser um instrumento apropriado para que a pessoa faça um exame de consciência, propiciando, mediante a atuação do Espírito Santo, um arrependimento genuíno, levando à confissão e abandono do pecado. É importante ressaltar que o jejum não é condição para se receber o perdão, mas que ele pode ajudar a pessoa a ter melhor discernimento espiritual.

O jejum é voluntário e individual, mas pode ser feito coletivamente com a igreja, de modo semelhante à experiência de Josafá e Esdras. Entretanto, o jejum sem submissão e obediência a Deus não tem valor (Isaías 58, 1-14). A Bíblia reprova o formalismo religioso. Nos tempos de Cristo havia muitos judeus que praticavam o jejum, mas deixavam de cumprir os requisitos mais importantes da lei, “a justiça e a misericórdia” (Mateus 23, 23).

O jejum não deve ser usado como meio de se obter o favor de Deus, pois a salvação é unicamente pela graça, mediante a fé em Jesus (Efésios 2, 8). Tampouco ele deve ser praticado para causar uma boa impressão nos outros. Jesus advertiu contra este tipo de atitude dizendo: “Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça, e lava o teu rosto, para não mostrar aos homens que estás jejuando, mas a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mateus 6, 17-18).

Satisfação e prazer momentâneo

O homem orientado para os bens materiais, muitas vezes, abusa deles. Hoje, busca-se, acima de tudo, a satisfação dos sentidos, a excitação que disso deriva, o prazer momentâneo e a multiplicidade cada vez maior de sensações. E isso acaba gerando um vazio no coração do homem moderno; pois sem Deus ele não pode se satisfazer. O barulho do mundo e o prazer das criaturas não conseguem preencher o seu coração.

A criança hoje (e também muitos adultos) vive de sensações, procura sensações sempre novas… E torna-se assim, sem se dar conta, escrava desta paixão atual; a vontade fica presa ao hábito, a que não sabe se opor.

A força do jejum em nós

O jejum nos ajuda a aprender a renunciar a alguma coisa. Ele nos faz capazes de dizer “não” a nós mesmos, e nos abre aos valores mais nobres de nossa alma: a espiritualidade, a reflexão, a vontade consciente. Essa prática nos coloca de pé e de cabeça para cima. Há muitos que caminham de cabeça para baixo; isso acontece quando o corpo comanda o espírito e o esmaga. É o prazer do corpo que o comanda e não a vontade do espírito.

É preciso entender que a renúncia às sensações, aos estímulos, aos prazeres e ainda ao alimento ou às bebidas, não é um fim em si mesmo, mas apenas um “meio” que deve apenas preparar o caminho para conquistas mais profundas. A renúncia do alimento deve servir para criar em nós condições para podermos viver os valores superiores. Por isso o jejum não pode ser algo triste, enfadonho, mas uma atividade feliz que nos liberta.

Os Padres da Igreja davam grande valor ao jejum. Diz, por exemplo, São Pedro Crisólogo (451): “O jejum é paz do corpo, força dos espíritos e vigor das almas” e ainda: “O jejum é o leme da vida humana e governa todo o navio do nosso corpo” (Sermão VII: sobre o jejum, 3.1).

Santo Ambrósio (397) diz: “A tua carne está-te sujeita (…): Não sigas as solicitações ilícitas, mas refreia-as algum tanto, mesmo no que diz respeito às coisas lícitas. De fato, quem não se abstém de nenhuma das coisas lícitas, está também perto das ilícitas” (Sermão sobre a utilidade do jejum, III. V. VII). Até escritores que não pertencem ao Cristianismo declaram a mesma verdade. Esta é de alcance universal. Faz parte da sabedoria universal da vida.

O Mahatma Gandhi dizia: “O jejum é a oração mais dolorosa e também a mais sincera”. “Cada jejum é a oração intensa, purificação do pensamento, impulso da alma para a vida divina, a fim de nela se perder”. “O jejum é para a alma o que os olhos são para o corpo”. (Toschi, Tomas Gandhi mensagem para hoje, Editora mundo 3, pag. 97, SP, 1977).

O jejum confere à oração maior eficácia. Por ele o homem descobre, de fato, que é mais “senhor de si mesmo” e que se tornou interiormente livre. E se dá conta de que a conversão e o encontro com Deus, por meio da oração, frutificam nele.

Assim, essa atividade não é algo que sobrou de uma prática religiosa dos séculos passados, mas é também indispensável ao homem de hoje, aos cristãos do nosso tempo.

Concluímos que o jejum pode ser um regime simples, a abstenção parcial ou total de alimentos por um determinado período de tempo, conforme a condição física da pessoa, tendo como objetivo aproximar-se mais de Deus, buscando uma melhor compreensão de Sua vontade.

Como foi dito anteriormente, o jejum é voluntário e pode ser feito sempre que a pessoa desejar, pelo período que achar conveniente. Fica à critério de cada um escolher o dia mais apropriado para realizá-lo, mas pode ser estabelecido um dia especial em que a igreja coletivamente participa desse ato, tendo em vista maior consagração e entendimento da verdade.