Provando biblicamente que o Purgatório existe


Os católicos sabem que a doutrina do purgatório é uma das mais difíceis para o entendimento protestante e, por isso, freqüentemente estes argumentam está baseando-se em idéias que são frutos justamente deste mal-entendido. A Igreja Católica ensina o que é o purgatório no seu Catecismo, parágrafos 1030 a 1032, páginas 290 e 291. Vejamos o que ele diz: Os que morrem na graça e na amizade de Deus (No máximo em pecados leves), mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida a sua salvação eterna, passam, após a sua morte, por uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrarem na alegria do céu.

O ensinamento sobre o Purgatório tem raízes já na crença dos próprios judeus do Antigo Testamento; cerca de 200 anos antes de Cristo, quando ocorreu o episódio de Judas Macabeus. Narra-se aí que alguns soldados judeus foram encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas roupas alguns objetos consagrados aos ídolos, o que era proibido pela Lei de Moisés. Então Judas Macabeus mandou fazer uma coleta para que fosse oferecido em Jerusalém um sacrifício pelos pecados desses soldados. “Então encontraram debaixo da túnica de cada um dos mortos objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, coisas proibidas pela Lei dos judeus. Ficou assim evidente a todos que haviam tombado por aquele motivos… puseram-me em oração, implorando que o pecado cometido encontrasse completo perdão… Depois [Judas] ajuntou, numa coleta individual, cerca de duas mil dracmas de prata, que enviou a Jerusalém para que se oferecesse um sacrifício propiciatório. Com ação tão bela e nobre ele tinha em consideração a ressurreição, porque, se não cresse na ressurreição dos mortos, teria sido coisa supérflua e vã orar pelos defuntos. Além disso, considerava a magnífica recompensa que está reservada àqueles que adormecem com sentimentos de piedade. Santo e pio pensamento! Por isso, mandou oferecer o sacrifício expiatório, para que os mortos fossem absolvidos do pecado” (2Mc 12,39-45).

O autor sagrado, inspirado pelo Espírito Santo, louva a ação de Judas: “Se ele não esperasse que os mortos que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerasse que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormeceram piedosamente, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis porque ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, afim de que fossem absolvidos do seu pecado”. (2 Mac 12,44s) .Neste caso, vemos pessoas que morreram na amizade de Deus, mas com uma incoerência, que não foi a negação da fé, já que estavam combatendo no exército do povo de Deus contra os inimigos da fé. Cometeram uma falta que não foi mortal.

 

Fica claro no texto de Macabeus que os judeus oravam pelos seus mortos e por eles ofereciam sacrifícios, e que os sacerdotes hebreus já naquele tempo aceitavam e ofereciam sacrifícios em expiação dos pecados dos falecidos e que esta prática estava apoiada sobre a crença na ressurreição dos mortos. E como o livro dos Macabeus pertence ao cânon dos livros inspirados, aqui também está uma base bíblica para a crença no Purgatório e para a oração em favor dos mortos.

 Com base nos ensinamentos de São Paulo, a Igreja entendeu também a realidade do Purgatório. Em 1Cor 3,10, ele fala de pessoas que construíram sobre o fundamento que é Jesus Cristo, utilizando uns, material precioso, resistente ao fogo (ouro, prata, pedras preciosas) e, outros, materiais que não resistem ao fogo (palha, madeira). São todos fiéis a Cristo, mas uns com muito zelo e fervor, e outros com tibieza e relutância. E S. Paulo apresenta o juízo de Deus sob a imagem do fogo a provar as obras de cada um. Se a obra resistir, o seu autor “receberá uma recompensa”; mas, se não resistir, o seu autor “sofrerá detrimento”, isto é, uma pena; que não será a condenação; pois o texto diz explicitamente que o trabalhador “se salvará, mas como que através do fogo”, isto é, com sofrimentos.

 Na passagem de Mc 3,29, também há uma imagem nítida do Purgatório:”Mas, se o tal administrador imaginar consigo: ‘Meu senhor tardará a vir’. E começar a espancar os servos e as servas, a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele servo virá no dia em que não o esperar (…) e o mandará ao destino dos infiéis. O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes. Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensível será açoitado com poucos golpes.” (Lc 12,45-48). É uma referência clara ao que a Igreja chama de Purgatório. Após a morte, portanto, há um “estado” onde os “pouco fiéis” haverão de ser purificados.

Outra passagem bíblica que dá margem a pensar no Purgatório é a de (Lc 12,58-59): “Ora, quando fores com o teu adversário ao magistrado, fazer o possível para entrar em acordo com ele pelo caminho, a fim de que ele não te arraste ao juiz, e o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo.”

O Senhor Jesus ensina que devemos sempre entrar “em acordo” com o próximo, pois caso contrário, ao fim da vida seremos entregues ao juiz (Deus), nos colocará na “prisão” (Purgatório); dali não sairemos até termos pago à justiça divina toda nossa dívida, “até o último centavo”. Mas um dia haveremos de sair. A condenação neste caso não é eterna. A mesma parábola está´ em Mt 5, 22-26: “Assume logo uma atitude reconciliadora com o teu adversário, enquanto estás a caminho, para não acontecer que o adversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e, assim, sejas lançado na prisão. Em verdade te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo” . A chave deste ensinamento se encontra na conclusão deste discurso de Jesus: “serás lançado na prisão”, e dali não se sai “enquanto não pagar o último centavo”.

A Passagem de São Pedro 1Pe 3,18-19; 4,6, indica-nos também a realidade do Purgatório:”Pois também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados (…) padeceu a morte em sua carne, mas foi vivificado quanto ao espírito. É neste mesmo espírito que ele foi pregar aos espíritos que eram detidos na prisão, aqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes (…).” Nesta “prisão” ou “limbo” dos antepassados, onde os espíritos dos antigos estavam presos, e onde Jesus Cristo foi pregar durante o Sábado Santo, a Igreja viu uma figura do Purgatório. O texto indica que Cristo foi pregar “àqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes”. Temos, portanto, um “estado” onde as almas dos antepassados aguardavam a salvação. Não é um lugar de tormento eterno, mas também não é um lugar de alegria eterna na presença de Deus, não é o céu. È um “lugar” onde os espíritos aguardavam a salvação e purificação comunicada pelo próprio Cristo.

 

 


Neste texto procuro considerar alguns argumentos protestantes contra o purgatório e confrontar com o real ensino da Igreja Católica sobre este tão mal compreendido tema. 

...Porque o Senhor vosso Deus é um fogo devorador, um Deus zeloso (Dt 4,24)

Ele é precedido por um fogo que devora em redor os inimigos (Sl 96,3)

Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre os teus braços; porque o amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o sheol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina (Ct 8,6)

A questão do purgatório envolve muitas outras questões essenciais a serem discutidas para que as pessoas entendam. Mas não podemos discutir por causa disso todos os dogmas cristãos, sendo assim, temos que nos esforçar ao máximo em focar apenas o núcleo do problema. São forjados textos para rejeitar a canonicidade dos livros deuterocanônicos, chamados pelos protestantes de ?apócrifos?, para argumentar contra a doutrina do purgatório. Mas se formos tomar este exemplo (a canonicidade dos livros bíblicos), teríamos que enveredar por vários outros campos para refutar tal hipótese, pois a rejeição à teologia do purgatório também envolve a questão das indulgências, da doutrina da justificação imputada, da doutrina da eleição de Calvino e da conseqüência da prática do dogma da Sola Scriptura. Se formos discutir todos estes temas para incluir o purgatório no meio deles, então não sairemos do lugar e poderíamos confundir ainda mais as pessoas.

 


Existem certos parâmetros que devemos delimitar para que o entendimento seja bem absorvido, e as dúvidas que surjam sejam decorrentes deste entendimento que foi passado, e não do que se acha que foi passado, como bem fazem alguns protestantes.


 


O que é o Purgatório?

 


A Igreja Católica ensina o que é o purgatório no seu Catecismo, parágrafos 1030 a 1032, páginas 290 e 291. Vejamos o que ele diz:

Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida a sua salvação eterna, passam, após a sua morte, por uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrarem na alegria do céu.

 


A Igreja denomina purgatório esta purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativa ao purgatório sobretudo no Concílio de Florença (1660) e de Trento (1661). Fazendo referência a certos textos da Escritura (1662), a tradição da Igreja fala de um fogo purificador.

 


No que concerne a certas faltas leves, deve-se crer que existe antes do juízo um fogo purificador, segundo o que afirma que é a Verdade, dizendo que se alguém tiver pronunciado uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoada nem no presente século nem no século futuro (Mt 12,32). Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século presente, ao passo que outras, no século futuro (1663).

 


Este ensinamento apóia-se também na prática da oração pelos defuntos, da qual já a Sagrada Escritura fala: ?Eis porque ele [Judas Macabeu] mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, a fim de que fossem absolvidos do seu pecado? (2 Mac 12,46). Desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em seu favor, em especial o sacrifício eucarístico (1664), a fim de que, purificados, eles possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também as esmolas, as indulgências e as obras de penitência em favor dos defuntos:

Levemo-lhes o socorro e celebremos a sua memória. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai (1665), por que duvidar de que as nossas oferendas em favor dos mortos lhes leve a alguma consolação? Não hesitamos em socorrer os que partiram e em oferecer as nossas orações por eles (1666).

cf. DS 1304 ? 1661. cf. DS 1820; 1580 ? 1662. Por exemplo1 Cor 3,15; 1 Pd 1,7 ? 1663. S. Gregório Magno, Dial. 4,39 ? 1664. cf. DS 856 ? 1665. cf.Jó 1,5 ? 166. S. João Crisóstomo, Hom. In 1 Cor 41,5: PG 61,594-595.

 


Diante do ensino oficial da Igreja Católica podemos dizer agora o que o purgatório não é:

 


    1  O purgatório não é uma segunda chance para a salvação, como afirmam os protestantes quando citam passagens como Tt 1,14 e Ef 1,7. O Catecismo deixa bem claro que as almas no purgatório possuem a garantia da salvação eterna.

 


    2  A prática de oração aos mortos não foi ?inventada? pela Igreja Católica, que somente a definiu, ou seja, organizou as idéias a seu respeito. Esta prática está descrita já em 2 Mc 12,46. Sobre este livro falaremos depois.

 


    3  O fogo no purgatório é diferente do fogo do inferno. Este é um fogo de tristeza e de dor, aquele é um fogo purificador.

 


    4  O purgatório não é uma passagem obrigatória, mas somente aos que não atingiram a santificação necessária para ver a Deus.

 


Muito bem, existem outras coisas que o purgatório não é, mas podemos deixar para mais adiante à medida que for desenvolvendo o texto.

 


Porque os protestantes rejeitam a doutrina do purgatório? Bem, existem vários motivos. Existem aqueles protestantes que o rejeitam somente porque se trata de um ensino da Igreja Católica, e assim como fazem com tudo o que vem dela, a rejeitam, sem ao menos saber porquê. Existem os que o rejeitam pela tradição teológica dos reformadores. A formulação do dogma da Sola Fide e da doutrina da eleição de Calvino deixou uma herança que não dá margens para uma possibilidade ou necessidade de purificação do homem. O fato histórico de Lutero ter retirado o Livro dos Macabeus, junto com outros 6 livros da Bíblia, também gerou a confusão entre os protestantes em achar que tal ensinamento não se encontra na Bíblia.

 


Destarte, muitos dizem que não aceitam tal doutrina porque não está na Bíblia. Ora, as grandes verdades que dão razão de ser do cristianismo são o mistério da Santíssima Trindade e o da Encarnação do Verbo. Onde, por acaso, vemos as palavras ?Santíssima Trindade? ou ?Encarnação? na Bíblia? Não é porque a Bíblia não cita a palavra ?purgatório? que devamos rejeitá-la, senão deveríamos proceder com os mesmos mistérios apontados acima e outros tantos mais.

 

 

 

 

 

O purgatório não é nada mais que a purificação final.

 

A doutrina do purgatório, ao contrário do que pensam os protestantes, não se baseia somente no livro de Macabeus. Ela não se encontra explícita na Escritura, mas esta traz sua idéia implícita. Alguns rejeitam esta forma de entendimento, pois somente aceitam o que se pode perceber de imediato, como vemos com os fundamentalistas protestantes (a suposta “claridade das  Escrituras“). Mas os próprios protestantes aceitam que existam doutrinas que sejam determinadas, mesmo estando implícitas nas Escrituras.

CONFISSÃO DE FÉ BATISTA DE 1689

 

7. Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras, nem igualmente evidentes para todos.?

Passemos agora a analisar as passagens que a Igreja usa para testificar a existência de uma purificação final aos imperfeitos ?que morreram na amizade de Deus?.

 

2 Mac 12,46

 

O texto diz:

Era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas

Mas só este texto não basta. Os protestantes fazem objeção ao grau de pecado dos judeus que acompanhavam Judas Macabeu e à canonicidade do próprio Livro.

 

Bem, vejamos uma coisa: A Igreja Católica diz que a prática de oração expiatória aos mortos já era feita desde tempos antes de Cristo, já na época dos Macabeus ou até mesmo antes. Para isso não há necessidade nenhuma de considerar o Livro dos Macabeus como inspirado. Se não é inspirado, como dizem os protestantes, que não possuem a autoridade necessária para determinar se algum livro bíblico é inspirado ou não, é, no mínimo, um livro histórico que apresenta a todos um fato! E isso os protestantes não podem negar. Negue-se a autoridade canônica do livro, mas não neguem que ele foi escrito em algum momento da história de Israel. Além do mais, na Bíblia Católica, os livros dos Macabeus são incluídos no grupo dos livros históricos.

 

Portanto, existia, de fato, a prática de oração aos mortos na antiga Israel.

 

Um argumento protestante diz:

 

Devemos notar também que muito, muito ao contrário do que os católicos afirmam de que o ensinamento sobre o Purgatório tem raízes já na crença dos próprios judeus, cerca de 200 anos antes de Cristo, quando ocorreu o episódio de Judas Macabeus é uma mentira…!!! Querem usar um apócrifo para sustentar o purgatório.

 

Vejamos que não é mentira nenhuma, pois o livro não foi escrito por um autor católico, mas um autor Judeu, e se o argumento protestante nega a autoridade do livro, não pode, sob hipótese alguma, negar a historicidade do livro.

 

Também dizem que:

 

A referência mais antiga ao cânon hebraico é do historiador judeu Josefo (37-95 AC).

 

Mas esquece de dizer que não existia nenhum cânon definitivo até o fechamento (questionável, diga-se) do cânon hebraico em Jâmnia na Palestina, onde ficaram de fora os 7 livros encontrados no cânon dos judeus de Alexandria, por exemplo. O Cânon do Antigo Testamento não foi definido por critério de inspiração pelo Espírito Santo pelo fato de que tal Cânon é da religião judaica e por isso estes (os judeus) excluem que haja um ?Espírito Santo? que inspire autores a escrever. O Cânon palestinense foi definido com bases na língua escrita e em fatores patrióticos e políticos (e, porque não, anti-cristãos…).

 

Existe ainda um livro, este sim ?apócrifo?, chamado ?A Vida de Adão e Eva? que retrata Adão à espera do regozijo: ?…Ele ficará até o dia do julgamento nos últimos tempos, quando tornarei seu pesar em regozijo? (A Vida de Adão e Eva, 46,7).

 

Este livro a Igreja Católica não considera como canônico, mas nunca negou que apresenta uma crença histórica.

 

Dizem ainda:

 

?Usam este livro apócrifo, que serve apenas para revelar o costume pagão de alguns judeus, e que não deveria, evidentemente, ser tomado como norma para o povo de Deus, para provar a doutrina do Purgatório?

 

Vou analisar cada frase usada neste argumento:

 

1Vocês usam este livro apócrifo

 

Primeiro, este livro não é apócrifo para todos os cristãos. Os cristãos orientais negam a autoridade do Papa, mas consideram este livro como canônico. Os protestantes negam a autoridade do Papa, e negam este livro. O porquê está no fato de Lutero ter retirado este livro juntamente com outros 6, e, se não fosse impedido por outros reformadores, o livro de Tiago, chamado por ele de ?verdadeira epístola de palha? onde “nada de evangélico existe”, também iria junto, por refutar sua nova doutrina da salvação somente pela fé. Se o livro de Macabeus deve ser apócrifo, e os protestantes baseiam-se somente na Bíblia para determinar em quê acreditar, então esta determinação deveria estar na Bíblia, o cânon de quais livros os cristãos deveriam aceitar ou não, deveria vir nas Escrituras. Mas o fato é que não veio.

 

2Que serve apenas para revelar o costume pagão de alguns judeus

 

Ora, o costume da oração aos mortos tinha um objetivo:

Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas (2 Mac 12,43-46)

A prática se deu pela crença na ressurreição dos mortos, que é uma crença cristã. Logo o ?costume pagão? a que o argumento se refere é a crença cristã na ressurreição dos mortos.

 

3Não deveria, evidentemente, ser tomado como norma para o povo de Deus, para provar a doutrina do Purgatório

 

O argumento atrela a necessidade da crença na doutrina de acordo com a quantidade das pessoas que crêem nela. Bem, vejamos que alguns protestantes são adeptos das doutrinas teológicas de João Calvino (TULIP), e sei que somente uma pequena parte dos protestantes hoje em dia aceita tal sistema, pois a maioria tem tendência arminiana. Será que os calvinistas não gostariam que a sua teologia (?de alguns cristãos?) fosse aceita como norma para o povo de Deus inteiro, por acharem-na a verdadeiramente correta?

 

Bem, existe um problema para resolver. Ele consiste em dizer que, pelo fato de terem sido encontradas imagens de ídolos junto aos corpos dos soldados de Judas Macabeu, o que a lei judaica proíbe, os mesmo praticaram pecado mortal, e portanto não poderiam receber a expiação tentada por Macabeu, pois o pecado mortal leva ao fogo eterno, necessariamente.

Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas? (1 Cor 6,9)

Outra passagem:

O sangue de Jesus Cristo que nos purifica de todo pecado” (1 Jo 1.7)

E por fim os protestantes alertam: todo pecado é todo pecado.

 

Será que entre ?todo pecado? o pecado da idolatria se inclui?

 

Jesus o faz:

Por isso, eu vos digo: todo pecado e toda blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não lhes será perdoada (Mt 12,31)

Por isso sabemos que mesmo o pecado da idolatria pode ser perdoado.

 

Os soldados de Macabeu praticaram a idolatria, mas ao morrerem estavam servindo a Deus, mesmo que carregando ídolos, o que foi a causa de sua morte. Eles morreram pelo pecado cometido, o que configura sua pena temporal, mas estavam atuando na obra de Deus, na ?amizade de Deus? como diz o catecismo, o que não lhes imputava a pena eterna.

 

Mesmo existindo entre os soldados de Macabeu alguns que praticaram a idolatria, Deus não deixou de estar com eles:

Sob a proteção do Senhor, Macabeu e seus companheiros retomaram o templo e a cidade? (2 Mc 10,1)

E mesmo possuindo o pecado, fizeram o que era da vontade de Deus:

Destruíram os altares que os estrangeiros haviam edificado na praça pública, como também os troncos sagrados. Após terem purificado o templo, erigiram um outro altar dos perfumes; utilizaram uma pedra para tirar faíscas das quais eles se serviram para oferecer os sacrifícios, após dois anos de interrupção; queimaram o incenso, acenderam as lâmpadas e recolocaram os pães da proposição? (2 Mac 10,2-3)

E nunca se esqueciam de louvar a Deus por isso:

Foi assim que, levando tirsos, ramos verdejantes e palmas, cantaram hinos àquele que lhes havia concedido a dita de purificar o seu templo? (2 Mac 10,7)

E para suas batalhas, Macabeu e seus companheiros sempre pediam o auxílio de Deus:

Então Macabeu com seus companheiros atacaram as fortalezas da Iduméia, após haver rezado e invocado o auxílio de Deus? (2 Mac 10,16)

E o Senhor os ouvia:

Ao despontar a aurora, travaram combate os dois lados, contando uns com o êxito e a vitória, por causa de sua valentia e do socorro do Senhor, e os outros entregando-se ao combate, apoiados no próprio furor? (2 Mac 10,28)

E sempre após cada vitória, louvavam ao Senhor, que os concedia a fortaleza.

?Após essa façanha, cantaram hinos e cânticos ao Senhor, que havia operado grandes prodígios em favor de Israel, concedendo-lhe a vitória? (2 Mac 10,38)

Vejam que mesmo estando alguns deles em pecado, Deus não os abandonou, simplesmente porque agora estavam realizando a sua vontade.

 

Por isso os companheiros de Judas Macabeu, apesar do pecado, morreram piedosamente, e ele, por crer na ressurreição dos mortos, mandou realizar a oração expiatória em favor deles, o que seria supérfluo se não cressem nesta ressurreição.

Ora, sob a túnica de cada um encontraram objetos consagrados aos ídolos de Jânia, proibidos aos judeus pela lei: todos, pois, reconheceram que fora esta a causa de sua morte.  Bendisseram, pois, a mão do justo juiz, o Senhor, que faz aparecer as coisas ocultas,  e puseram-se em oração, para implorar-lhe o perdão completo do pecado cometido. O nobre Judas falou à multidão, exortando-a a evitar qualquer transgressão, ao ver diante dos olhos o mal que havia sucedido aos que foram mortos por causa dos pecados. Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. MAS, SE ELE ACREDITAVA QUE UMA BELA RECOMPENSA AGUARDA OS QUE MORREM PIEDOSAMENTE, era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas? (2 Mac 12,40-46)

Desta forma percebemos que os companheiros de Judas Macabeu não permaneceram no pecado, ainda que os tivessem cometido. Deus não os rejeitou nas suas orações de ajuda e escutava seus louvores. Morreram por causa do pecado, mas não cometendo o pecado, mas sim praticando a vontade de Deus. Por isso eles estavam passíveis de uma purificação, e não destinados ao inferno, a pena eterna.

 

 

 

Sabemos que Deus não resiste ao pecador que se dirige a Ele:

Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar? (Sl 50,19)

Sabemos que Deus ?destrói a casa dos soberbos? (Pv 15,25) e que ?Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes? (Pr 3,34).

 

Não podemos negar que os soldados de Macabeu, ainda que carregassem ídolos, não se humilharam diante de Deus e o louvaram. E sabemos que todo pecado é passível de perdão.

 

Mas os protestantes poderiam dizer que o pecado da idolatria leva incondicionalmente à morte e suponhamos que eu aceite esta definição. Sabemos que o pecado da idolatria está enumerado ao lado do pecado do adultério (1 Cor 6,9).

 

Todo mundo aqui sabe da história de adultério de Davi com a esposa de Urias. Pois bem. Sobre isso vejam o que aconteceu:

Natã disse então a Davi: Tu és esse homem. Eis o que diz o Senhor Deus de Israel: ungi-te rei de Israel, salvei-te das mãos de Saul, dei-te a casa do teu senhor e pus as suas mulheres nos teus braços. Entreguei-te a casa de Israel e de Judá e, se isso fosse ainda pouco, eu teria ajuntado outros favores. Por que desprezaste o Senhor, fazendo o que é mau aos seus olhos? Feriste com a espada Urias, o hiteu, para fazer de sua mulher a tua esposa, e o fizeste perecer pela espada dos amonitas. Por isso, jamais se afastará a espada de tua casa, porque me desprezaste, tomando a mulher de Urias, o hiteu, para fazer dela a tua esposa. Eis o que diz o Senhor: vou fazer com que se levantem contra ti males vindos de tua própria casa. Sob os teus olhos, tomarei as tuas mulheres e dá-las-ei a um outro que dormirá com elas à luz do sol!? (2 Sm 12,7-11)

Segundo o entendimento protestante, Davi estaria destinado ao inferno definitivamente.

 

Mas vejamos a seqüência da história.

Davi disse a Natã: Pequei contra o Senhor. Natã respondeu-lhe: O Senhor perdoa o teu pecado; não morrerás. Todavia, como desprezaste o Senhor com essa ação, morrerá o filho que te nasceu.. O Senhor feriu o menino que a mulher de Urias tinha dado a Davi, e ele adoeceu gravemente. Davi suplicou ao Senhor pelo menino; jejuou e passou a noite em sua casa prostrado por terra, vestido com um saco. Os anciãos de sua casa, de pé junto dele, insistiam em que ele se levantasse do chão, mas ele não o quis, nem tomou com eles alimento algum. Ao sétimo dia, morreu o menino? (2 Sm 12,13-18a)

Vemos que Davi ?desprezou o Senhor? pelo seu pecado, e foi castigado com a morte do seu filho (pena temporal). Porque então deveríamos negar que o mesmo ocorreu com os companheiros de Macabeu? Sabemos de antemão que Deus não faz acepção de pessoas e que Davi não morreu apenas por ser Davi, mas porque reconheceu o erro, quis permanecer ?na amizade de Deus?. Da mesma forma os soldados de Judas Macabeu.

 

Mas ainda é bom atentar para um interessante fato. Os protestantes dizem que o costume de orar pelos mortos é um costume pagão e que poucos judeus o faziam.

 

Bem, já mostrei que não era nada de costume pagão, mas não mostrei a outra parte. Na verdade não são poucos judeus que faziam a oração pelos mortos, mas muitos judeus fazem a oração pelos mortos, mantendo este ?costume pagão? até os dias de hoje.

 

Os judeus possuem uma oração feita após a morte de alguém, por esse alguém!

 

Os judeus ortodoxos acreditam que exista um lugar de purificação final que chamam de ?Gehenom?. Quando morre um judeu ocorre a prática do ?Taharh? onde se realiza a ?Chevra kaddisha — gmilat khessed shel emet? que podemos abreviar por ?Chevra Kadisha? ou simplesmente ?Kaddish?. Nesta oração os judeus pedem a clemência pelos pecados que a pessoa cometeu. Rezam esta oração por 11 meses.

 

Vamos agora para Mt 12,31-32

Por isso, eu vos digo: todo pecado e toda blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não lhes será perdoada. Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro?

O argumento protestante entende esta passagem desta forma: ?Em Mateus 12.31, Jesus simplesmente enfatiza a gravidade do pecado contra o Espírito Santo, dizendo que o perdão é impossível, não importando o tempo e o espaço?.

 

O Evangelho de Mateus no mostra um belo confronto entre os fariseus e Cristo. Estes o estavam acusando de possuir autoridade sobre os demônios pelo poder de Belzebu, que é o príncipe dos demônios (Mt 12,24). Vejamos:

?Mas, ouvindo isto, os fariseus responderam: É por Beelzebul, chefe dos demônios, que ele os expulsa?

E por isso Jesus os adverte quanto ao pecado contra o Espírito Santo (Mt 12,31-32).

 

O que se diz por ?tempo e espaço? Jesus diz por ?neste século ou no século vindouro (que virá)?. Se este pecado, o contra o Espírito Santo, é o único que não pode ser perdoado nem neste século nem no século que virá (a Bíblia TEB traduz esta parte como ?mundo vindouro?, assim com traduções protestantes), é porque existem pecados que poderão ser perdoados no século vindouro.

 

Para auxiliar o entendimento desta passagem devemos ler Mt 5,23-26:

?Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta. Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás em caminho com ele, para que não suceda que te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao seu ministro e sejas posto em prisão. Em verdade te digo: dali não sairás antes de teres pago o último centavo?

Com entender as últimas palavras: dali não sairás até teres pago o último centavo?

 

Jesus está se referindo a uma imagem escatológica. O Juiz jogará quem ainda tem alguma dívida numa ?prisão?. Jesus alerta para não haver demora no ?acordo com o teu irmão?, pois o ?juiz? está a caminho.

 

De onde é dali?

 

Ora, sabemos que do inferno ninguém sai. É um dos dois únicos lugares eternos. Sabemos também que no céu ?nada de impuro pode entrar? (Ap 21,27). Deste lugar há possibilidade de sair, mas sob o ?pagamento até do último centavo?, ou seja, até que o que causou a sua ?entrada? seja equacionada. Não pode ser o inferno, pois de lá ninguém sai, não pode ser o céu, pois se ainda se têm ?algo a pagar? lá não se entra. Somente a existência de um estado intermediário, temporário, uma purificação final, dá sentido a esta passagem.

 

Com isso podemos passar para 1 Cor 3,12-15 para complementar este entendimento.

Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo?

Desta forma os protestantes interpretam: O assunto de 1 Coríntios 3.15 gira em torno dos cristãos que hão de comparecer ao Tribunal de Cristo (Bema – palavra grega que significa pódio). Não para sermos julgados, mas, sim, galardoados. Nesse Tribunal, as pessoas receberão suas recompensas de acordo com as obras que realizaram (Ver 2 Co 5.10)?.

 

A passagem diz que no dia do julgamento nossas obras aparecerão, e o fogo provará o trabalho de cada um.

 

O argumento protestante diz que os cristãos hão de comparecer ao tribunal, mas não para serem julgados.

 

Pra que serve o fogo, então?

 

A recompensa que o texto se direciona é a nossa salvação. O autor da obra que foi provada pelo fogo e que provou ser resistente, receberá a salvação. Porém se a obra de alguém ?pegar fogo?, por ter ?construído com madeira feno e palha?, este não será recompensado da mesma forma que o anterior. Ele deverá arcar com os danos da sua obra ?queimada?, pois estava imperfeita, vacilante. Entretanto sua salvação está assegurada, porém ?como que passando pelo fogo?.

 

O que São Paulo quer dizer?

 

Ele não está se referindo ao inferno, pois as pessoas que se submeterão a este fogo purificador serão salvas, enquanto que aqueles condenados ao inferno estão para sempre perdidos. E também não pode ser o céu, pois ele se refere a ?arcar com os danos?, e no céu ninguém ainda ?arca com os danos? de nada, pois lá Deus ?enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição? (Ap 21,4)

 

A Bíblia nos mostra que Deus é um ?fogo devorador? (Hb 12,28). O que São Paulo quer dizer é que Deus, quando nos traz a si após a morte para o julgamento, há um processo de purificação pelo fogo da presença de Deus. É Deus quem nos purifica das obras imperfeitas, simbolizadas na madeira, na palha e no feno. E esta purificação é necessária, porque, como já mostrei, a Bíblia diz que no céu (a Nova Jerusalém) ?nada de impuro pode entrar? (Ap 21,27). Esta imagem bíblica da pessoa sendo purificada pelas suas obras imperfeitas, mas obtendo a salvação, é o puro ensino da Igreja Católica sobre o purgatório.

 

Uma das maiores objeções ao purgatório é que dizem que ele nega o sacrifício de Cristo. Este sacrifício foi suficiente? Claro! É suficiente para nos redimir e permitir que o Espírito Santo nos santifique. Esta é a obra do Espírito Santo, nos purificar e nos santificar. O purgatório não é uma ?segunda chance? de salvação, pelo qual aqueles que rejeitaram a Cristo possam ?ganhar a salvação?. Jesus é claro em dizer que aquele que se recusa a segui-lo é culpado: ?Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado; por que não crê no nome do Filho único de Deus? (Jo 3,18). A purificação final somente é concedida aos que se reconciliaram com Deus nesta vida.

 

Os protestantes citam Fl 1,21-23 e 1 Cor 5,8 para defender a máxima de que quando o cristão morre automaticamente vai para o céu.

 

Fl 1,21-23 (versão TEB)  

Pois para mim viver é Cristo e morrer um ganho. Mas se viver neste mundo me permite um trabalho fecundo, não sei o que escolher. sinto o desejo de partir e estar com cristo, o que é muito preferível?

Ora, Paulo exprime o desejo de ?sair? do corpo e estar com Cristo, mas qual cristão não o quer??? Paulo exprime o seu desejo, mas não significa que de fato o obtenha. Por isso não há porque entender que sair do corpo é o mesmo que estar automaticamente no céu. E este versículo não serve para refutar a doutrina do purgatório, pois de uma forma ou de outra todas as almas no purgatório estão em direção ao céu, da mesma forma como ficaram à espera do paraíso as principais figuras do Antigo Testamento. Hb 11,13.16: ?Todos estes morreram sem ter alcançado a realização das promessas…Por isso Deus não se envergonha de ser chamado seu Deus; de fato, ele preparou-lhes uma cidade?.

 

É-nos questionado também sobre o destino de São Dimas, o ?bom ladrão? da tradição cristã. Sobre esta questão lemos em Lc 23,43: ?Jesus lhe respondeu: ?Em verdade eu te digo, hoje, estarás comigo no paraíso??. Bem, sabemos que a salvação depende somente da graça de Deus, sem a participação anterior de nossas obras. O ladrão no momento mais crítico da paixão de Cristo o defendeu ?…mas ele não fez nada de mal? (v. 40) e apelou para Jesus ?Jesus, lembra-te de mim quando vieres como Rei? (v. 42) então Jesus aceitou sua oração ?Em verdade eu te digo, hoje, estarás comigo no paraíso? (v. 43). O que aconteceu é que, pelo menos implicitamente, o bom ladrão pediu a Cristo pela sua salvação. Devido a esta sua atitude de reconhecimento do pecado e da fé, ele recebeu o perdão de todos os seus pecados e penas temporais. Portanto não havia necessidade de purgatório para ele.

 

Portanto este texto não serve para refutar a doutrina do purgatório.

 

Dizem ainda ?O purgatório é uma invenção papista – inspirada por Satanás – das mais perniciosas porque ela termina por perverter a soteriologia bíblica inteiramente ao inverter o sentido da expiação dos pecados, tirando o foco da cruz de Cristo e Sua obra substitutiva, transferindo-o para o homem em uma suposta obra auto-expiatória, através de sofrimentos em um processo de purificação pós-morte.?

 

De fato Cristo nos conseguiu tudo para nossa salvação através de seu sacrifício na cruz, entretanto Ele em lugar algum nos impede de termos parte de nossa salvação através de sacrifícios, seja na terra, seja no purgatório. Deus escolheu para nós a melhor forma de alcançarmos o paraíso, que é participar com o seu filho em nossa salvação, e Ele faz isso, em parte, por permitir que carreguemos nossas próprias cruzes e nos permitindo sofrer: ?Agora encontro minha alegria nos sofrimentos que suporto por vós; e o que falta às tribulações de Cristo, eu os completo em minha carne em favor do seu corpo que é a Igreja? (Cl 1,24). Qual a necessidade de Paulo sacrificar sua carne se o sacrifício de Cristo não o levaria a isto? O purgatório não é algo que desvie este único sacrifício de Cristo, mas é onde nós poderemos terminar nossa purificação, nossa santificação, pelo poder de Deus e não nosso, sem a qual ninguém vê a Deus, se assim precisarmos.

 

A propósito, algum protestante aceita a teologia do purgatório?

 

Bem, alguns…

 

O teólogo anglicano C.S. Lewis escreveu em sua ?Carta a Malcom?, refutando a posição protestante contra a necessidade do purgatório:

?Nossas almas exigem o purgatório, não é mesmo? Não nos quebraria o coração se Deus nos dissesse, ?é verdade, meu filho, que tu não cheiras bem, que tuas vestes são surradas e derramam lama e lodo, mas aqui somos caridosos e ninguém irá te reprovar por você ser assim, muito menos te enviará de volta. Regozije-se conosco?. Por acaso não responderíamos ?Com submissão meu Senhor, e se não houver nenhuma objeção, eu prefiro me limpar antes?. ?Há sofrimento, sabias disso??. ?Ainda assim, meu Senhor??.

Jerry L. Walls, professor de filosofia e religião no Asbury Theological Seminary ? presbiteriano – escreveu um artigo à revista teológica protestante ?First Things? chamado ?Purgatório para Todos? (Purgatory for Everyone) onde ele analisa a teologia protestante sobre a justificação pela fé e o purgatório. Ele diz: ?Alguns protestantes continuam insistindo em dizer que o purgatório rejeita a justificação pela fé? e que ?é uma inovação separar justificação de santificação?. Ele ainda diz que ?pelo fato de a justificação não nos tornar efetivamente justos, é simplesmente irrelevante que se negue o purgatório?.

 

O purgatório não é uma invenção papista, como foi atentado. Qual foi o Papa que ?inventou? o purgatório? E sobre os antigos e os atuais judeus, que rezaram pelos mortos e ainda o fazem utilizando o Kaddish? Os judeus e cristãos ortodoxos, ainda que não contenham a doutrina do purgatório, entendem perfeitamente a existência de uma purificação final.

 

Vejamos mais. O purgatório é a palavra latina para o hebraico Sheol e o grego Hades. E nas Escrituras nós podemos encontrar referências que mencionam um estado que não é nem o inferno e nem o céu. No Antigo Testamento este estado é descrito por Sheol, no grego Hades. Alguém pode até pensar que Sheol (Hades) é igual ao inferno no AT, mas a Bíblia faz a diferença, pois ?inferno? na Escritura é descrito como Gehenna, o lago de fogo dos condenados (Mc 9,434-47Mt 5,22-30). A Escritura diz, no AT, que as almas dos justos e dos ímpios, iam para o Sheol:

?Um mesmo destino para todos: há uma sorte idêntica para o justo e para o ímpio, para aquele que é bom como para aquele que é impuro, para o que oferece sacrifícios como para o que deles se abstém. O homem bom é tratado como o pecador e o perjuro como o que respeita seu juramento? (Ecl 9,2)

E neste lugar não importa o que se havia feito anteriormente, é para lá que se vai depois da morte:

Tudo que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria? (Ecl 9,10)

Esta posição sobre o Sheol é confirmada por São Paulo quando diz que ?foi na fé que todos (nossos pais) morreram. Embora sem atingir o que lhes tinha sido prometido? e esperavam no Sheol pelo que havia sido prometido ?Eles aspiravam a uma pátria melhor, isto é, à celestial. Por isso, Deus não se dedigna de ser chamado o seu Deus; de fato, ele lhes preparou uma cidade? (Hb 11,13.16).

 

Sabemos que Davi é servo de Deus, mas Lucas diz que ?Davi pessoalmente não subiu ao céu? (At 2,34), e sabemos que Davi não foi ao inferno. Muito menos foi para sair depois de lá.

 

Desta forma, o Sheol contém as almas daqueles que foram justos, mas também dos ímpios. Isto tudo mudou com a morte e ressurreição de Jesus. ?Porque Deus, que tinha para nós uma sorte melhor, não quis que eles (as almas no Sheol ? adendo meu) chegassem sem nós à perfeição?. Jesus veio e retirou as almas dos justos do Sheol e deixou os ímpios.

 

Como ele fez isso?

 

Depois que Cristo ?padeceu a morte na carne? (1 Pd 3,18) Ele desceu ao Sheol e ?foi pregar aos espíritos que eram detidos no cárcere, àqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes? (1 Pd 3,19) e Jesus pregava o Evangelho ?também aos mortos; para que, embora sejam condenados em sua humanidade de carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito? (1 Pd 4,16)

 

Após isso o Sheol não desapareceu. Jesus diz:

?Pois estive morto, e eis-me de novo vivo pelos séculos dos séculos; tenho as chaves da morte e da região dos mortos? (Ap 1,18)

Esta região dos mortos é o Sheol (Hades) e Jesus não estaria segurando a chave de alguma coisa que não existe mais, lógico. E é esse Sheol, ou Hades ou ainda Purgatorium que os judeus ortodoxos, os católicos latinos e os ortodoxos orientais crêem ser o ?estado? onde ocorre a purificação final

 

Infelizmente, por falta de espaço neste artigo, preciso terminar a reflexão por aqui, sentido que sempre haverá algo mais a esclarecer, pois, de fato, a doutrina do purgatório é um belo exemplo dos mais insondáveis mistérios de Deus.

 

Para finalizar, queria propor uma questão aos protestantes:

At 9, 36-37;40-41

?Em Jope havia uma discípula chamada Tabita – em grego, Dorcas. Esta era rica em boas obras e esmolas que dava. Aconteceu que adoecera naqueles dias e veio a falecer. Depois de a terem lavado, levaram-na para o quarto de cima. Pedro então, tendo feito todos sair, pôs-se de joelhos e orou. Voltando-se para o corpo, disse: Tabita, levanta-te! Ela abriu os olhos e, vendo Pedro, sentou-se. Ele a fez levantar-se, estendendo-lhe a mão. Chamando os irmãos e as viúvas, entregou-lha viva?.

 

Por quem Pedro estava orando?

 

 

 

Purgatório: o fogo purificador

Um outro ensino comumente incompreendido da Igreja diz respeito ao Purgatório. O Purgatório não é uma “segunda chance” para as almas condenadas se arrependerem. Ao invés disso, é um estado de limpeza e purificação para as almas destinadas ao céu [=salvas]. O Purgatório também não é um meio de se ganhar o caminho para o céu, mas um presente de Deus que nos prepara para vê-Lo face a face. Mesmo que não seja explicitamente referido pelo nome, a Bíblia faz alusão [ao Purgatório], especialmente em termos de fogo purificador.

A palavra “purgatório” está relacionada ao verbo “purificar”, que significa “limpeza, purificação”. De acordo com o Catecismo da Igreja Católica (CCC):

“Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu. A Igreja denomina ‘Purgatório’ esta purificação final dos eleitos, que é completamente diferente do castigo dos condenados” (CIC 1030-1031).

Somente as almas salvas (aquelas que morrem na amizade de Deus) podem passar pelo Purgatório com vistas ao Céu. Para entender melhor o Purgatório, à luz do sacrifício redentor de Cristo, precisamos primeiramente focar nas consequências do pecado:

Através do batismo e da fé (cf. Marcos 16,16), tornamo-nos amigos de Deus e recebemos a graça santificadora (o privilégio da vida eterna). Tudo isso é possível pela redenção de Cristo por nós. Infelizmente, o pecado muito grave (o pecado mortal) mata a nossa amizade com Deus. Ao cometermos voluntariamente o pecado mortal, rejeitamos a Deus e perdemos a graça santificadora (cf. Tito 1,16). [Apesar disso,] o sacrifício de Cristo na cruz ainda pode resgatar a nossa amizade com Deus, no entanto devemos nos arrepender e buscar o perdão de Deus através do Sacramento da Reconciliação (confissão). [Por outro lado,] se não nos arrependermos e morrermos neste estado, sem a graça, sofreremos a perda [irreparável] da vida eterna; essa perda é a punição eterna (Inferno, cf. Mateus 25,46). O Inferno não é o castigo de um Deus vingativo, mas a consequência natural de rejeitarmos a Deus, Fonte da Alegria e da Vida. A nossa redenção não interfere no nosso livre arbítrio, de modo que podemos rejeitar Nosso Senhor através de pecados graves (cf. Hebreus 10,26-27).

Pois bem: nem todo pecado é mortal (cf. 1João 5,17). Alguns pecados não são graves o suficiente para matar a nossa amizade com Deus, mas ainda assim são prejudiciais para nós e para os nossos próximos. A mancha (por exemplo, o escândalo) causada por nosso pecado precisa de correção. Essa correção é um castigo temporal (cf. Hebreus 12,5-11). Podemos ser corrigidos e limpos através da penitência pessoal na Terra ou mais tarde no Purgatório, graças ao nosso Redentor Jesus Cristo.

Jesus, no Evangelho, fala sobre essa correção – e, indiretamente, do Purgatório – no final da parábola sobre o perdão:

“E, indignado, o seu senhor o entregou aos carcereiros, até que pagasse toda a sua dívida. Assim vos fará também meu Pai celestial, se de coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas” (Mateus 18,34-35).

Nesta passagem, não há menção de Deus punindo pecadores muito graves, mas apenas aqueles que pecam por não perdoar os outros. Também o castigo mencionado aqui não é eterno como o Inferno (cf. Marcos 9,47-48), mas apenas temporário, “até que pague toda a sua dívida”.

O Purgatório é um estado temporário para as almas em estado de amizade com Deus (isto é, salvas), que precisam ser purificadas dos maus efeitos, manchas, escândalos e apegos (atração pelo pecado) que ainda lhes restam dos pecados mortais perdoados e dos pecados veniais menos graves. Tais almas contaminadas, embora salvas, não podem entrar no Céu diretamente. Como afirma a Bíblia: “Mas nada impuro entrará nele (=Céu)” (cf. Apocalipse 21,27). Essas almas precisam ser purgadas de toda “impureza”, não importa quão leve seja, antes de ver Deus face a face (cf. Apocalipse 22,3-5). Com efeito, todas as almas do Purgatório virão a ingressar no Céu.

 

 

São Paulo faz alusão a isso, em termos de fogo, na sua Epístola aos Coríntios:

“E se alguém contrói sobre este fundamento um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade, o Dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual foi a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou permanecer, esse receberá a recompensa; se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” (1Coríntios 3,12-15).

Nossas obras edificadas em Cristo serão testadas. Trabalhos inferiores (“madeira, feno e palha”) serão purgados pelo “fogo”; apenas os de “ouro, prata e pedras preciosas” sobreviverão [diretamente] para o Céu. A cláusula “sofrerá perda” implica dificuldades e punições temporárias, ainda que ele seja salvo.

São Pedro, em sua epístola, também nos lembra que a genuinidade da nossa fé “é provada pelo fogo” (1Pedro 1,7).

Pois bem: alguns cristãos objetam a doutrina do Purgatório citando o ladrão arrependido no Evangelho:

“E [o ladrão] disse a Jesus: ‘Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino’. E disse-lhe Jesus: ‘Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso"” (Lucas 23,42-43).

Segundo esses, uma vez que Jesus prometeu a esse pecador arrependido que este estaria com Ele no “Paraíso” naquele mesmo dia, então não há necessidade do Purgatório. Esta argumentação tem várias falhas:

Primeiro, Cristo pode ter concedido a esse pecador arrependido em particular o que a Igreja chama de “indulgência plenária”: a remissão total do castigo temporal devido aos pecados já perdoados.

Em segundo lugar, Cristo pode ter reconhecido que o sofrimento do ladrão na cruz era penitência pessoal suficiente para purificar sua alma.

No entanto, um ponto mais interessante é que Jesus, após a Sua morte, não foi imediatamente para o Céu. Segundo a Epístola de São Pedro:

“Pois também Cristo padeceu uma vez pelos pecados (…) Na verdade, mortificado na carne, mas vivificado pelo Espírito (…) foi e pregou aos espíritos na prisão, os quais noutro tempo foram rebeldes” (1Pedro 3,18-20).

Com efeito, imediatamente após Sua morte, Jesus “foi e pregou aos espíritos na prisão”. Ora, essa “prisão” certamente não é o Céu, nem pode ser o Inferno, já que as almas no Inferno não podem se beneficiar da pregação de Cristo. Logo, trata-se de um terceiro estado. Talvez o ladrão arrependido tenha se juntado a Cristo naquele mesmo dia; e em comparação com o Inferno, o Purgatório pode corretamente ser descrito como Paraíso.

Outros podem se opor [ao Purgatório] afirmando que o sangue de Cristo “nos purifica de todo o pecado” (cf. 1João 1,7). Ora, isso é verdade, mas o Seu sacrifício de redenção pode ser aplicado de diferentes maneiras, como através do batismo, da confissão, da oração… e uma outra maneira seria o Purgatório. Sabão e água podem ser suficientes para limpar o corpo; no entanto, ambos podem ser aplicados de diferentes maneiras: banho de assento, banho de esponja, banho de chuveiro…

A Igreja nos encoraja a orarmos pelos falecidos, pois eles podem estar no Purgatório, precisando das nossas orações. Orar pelos mortos é bastante bíblico. No Livro dos Macabeus, encontrado no Antigo Testamento Católico e Ortodoxo, Judas Macabeus faz uma coleta para uma oferta pelo pecado dos seus homens que morreram em batalha:

“Pois, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo orar por eles. (…) Eis por que ele pediu um sacrifício expiatório: para que os mortos fossem livres de suas faltas” (2Macabeus 12,44.46).

São Paulo também faz uma breve oração por Onesíforo [falecido] e sua família:

“Que o Senhor conceda misericórdia à família de Onesíforo (…) O Senhor lhe conceda que naquele dia encontre misericórdia diante do Senhor” (2Timóteo 1,16.18).

 

 

São Paulo, vivo ou morto, intercede (medeia) a Deus (cf. 1Timóteo 2,1-5).

Na Bíblia, São Paulo escreve sobre um fogo purificador que irá purificar nossas obras “naquele Dia”. São Pedro nos lembra que nossa fé será refinada e testada pelo fogo. Em outras partes da Bíblia, a ação do Espírito Santo é descrita como fogo: “Ele te batizará com o Espírito Santo e com fogo” (cf. Lucas 3,16). Segundo o místico espanhol São João da Cruz, o fogo do Purgatório é o amor de Deus purificando nossa alma em preparação para a visão beatífica final: a união celeste com Deus (cf. Apocalipse 22,3-5), “porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hebreus 12,29).

 

Rondinelly Ribeiro

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