Por que a Esquerda em sua essência persegue tanto a familia tradicional?


Por que movimentos políticos e culturais de esquerda veem a família tradicional como um obstáculo à sua visão de sociedade? A perseguição à família é apenas política ou também espiritual? Como os católicos podem responder, com fé e razão, a esse ataque cultural e ideológico? Quais valores da família cristã entram em choque com ideologias modernas de cunho progressista? De que forma a defesa da família se conecta com a missão evangelizadora da Igreja?

Introdução: por que a família se tornou um campo de batalha ideológico?

A família é uma das instituições mais antigas da humanidade. Antes da existência dos Estados modernos, dos partidos políticos e das ideologias contemporâneas, já existiam pais, mães, filhos e comunidades organizadas em torno dos vínculos familiares.

Para a Igreja Católica, a família não é simplesmente uma convenção social que pode ser redefinida de qualquer maneira conforme as mudanças políticas. Ela possui uma dimensão natural, moral e espiritual, fundamentada na dignidade humana, no matrimônio e na responsabilidade dos pais pela educação dos filhos.

É justamente nesse ponto que surgem conflitos com determinadas correntes ideológicas, inclusive correntes da esquerda revolucionária, que interpretam a família tradicional como uma estrutura relacionada à propriedade, à herança, à desigualdade social ou à transmissão de valores considerados conservadores.

Mas é necessário fazer uma distinção honesta: não é correto afirmar que toda pessoa de esquerda odeia a família. Existem diferentes tradições políticas de esquerda, e muitas pessoas que se identificam com elas valorizam seus pais, amam seus filhos e desejam proteger seus lares, porém grande parte infelizmente tem essa corrente ideologica muito forte por conta de diversos fatores.

A questão apologética é outra: quais ideias e projetos políticos entram em conflito com a visão católica da família? E por que a Igreja considera perigoso subordinar essa instituição a uma ideologia ou ao poder do Estado?

Para responder, precisamos examinar a história das ideias, as Sagradas Escrituras, os escritos dos santos e o ensinamento oficial da Igreja.

 

 

A família segundo a Bíblia: uma realidade anterior ao Estado

O livro do Gênesis apresenta a família dentro do próprio relato da criação:

“Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Gênesis 1,27).

Em seguida, o texto afirma:

“Por isso, o homem deixa seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne” (Gênesis 2,24).

Jesus retoma essa passagem no Evangelho de Mateus:

“Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher?” (Mateus 19,4).

E acrescenta:

“Portanto, não separe o homem o que Deus uniu” (Mateus 19,6).

Para a doutrina católica, essas passagens fundamentam a compreensão do matrimônio como uma união entre homem e mulher, ordenada ao bem dos esposos e aberta à geração e à educação dos filhos.

Isso não significa que toda família concreta seja perfeita ou que todas as pessoas tenham a mesma história familiar. Existem abandonos, violência, separações e situações dolorosas que exigem proteção e cuidado. A defesa da família não pode servir de desculpa para encobrir injustiças cometidas dentro dela.

O ensinamento católico, porém, afirma que a família possui um valor próprio, que não depende simplesmente da aprovação do governo ou de determinada corrente política.

O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2202, ensina que a família constituída por um homem e uma mulher unidos em matrimônio, com seus filhos, é uma realidade anterior ao reconhecimento pela autoridade pública. O parágrafo 2203 destaca a igual dignidade de seus membros e a existência de responsabilidades e deveres familiares.

Fonte para consulta: Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 2201–2206.

 

 

O que Marx e Engels realmente disseram sobre a família?

Para compreender o conflito histórico entre o comunismo revolucionário e a família tradicional, é necessário consultar os textos originais, em vez de depender apenas de acusações feitas por adversários políticos.

No Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848, Karl Marx e Friedrich Engels discutem a família burguesa e sua relação com a propriedade privada, a herança e as estruturas econômicas do capitalismo.

No capítulo II, intitulado “Proletários e comunistas”, aparece a conhecida expressão “Abolição da família!”. O texto, entretanto, explica que a crítica se dirige à forma de família burguesa que os autores associavam ao capital e à exploração econômica.

Isso exige precisão histórica. Não se deve interpretar automaticamente essa passagem como uma proposta de eliminar todo vínculo de amor entre pais e filhos. O que os autores defendiam era uma transformação radical da organização social e econômica, incluindo a superação da forma de família que consideravam vinculada à sociedade burguesa.

Mesmo assim, existe um conflito filosófico importante.

A tradição católica entende que a família possui uma estrutura natural e direitos que não são simplesmente produtos das relações econômicas. O marxismo clássico, por sua vez, interpreta a forma histórica da família a partir das condições materiais e das relações de propriedade.

A divergência aparece quando a família deixa de ser compreendida como uma comunidade natural com direitos próprios e passa a ser analisada principalmente como produto de uma estrutura econômica que deveria ser transformada por uma revolução social.

Para a Igreja, os problemas econômicos da família precisam ser enfrentados sem destruir sua dignidade, sua liberdade e sua função educativa.

Fonte primária para pesquisa: Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista, capítulo II, “Proletários e comunistas”. O texto em português pode ser consultado na Biblioteca Wikisource.

O problema da luta de classes dentro da família

Uma das grandes divergências entre a visão católica e o marxismo revolucionário diz respeito à maneira de compreender as relações humanas.

A interpretação marxista da história dá grande importância aos conflitos entre classes sociais e às relações de produção. Na leitura católica, embora existam injustiças econômicas reais que precisam ser corrigidas, a sociedade não pode ser reduzida à luta entre grupos de interesses opostos.

A família é um exemplo particularmente importante. Dentro de um lar saudável, pais e filhos não devem enxergar uns aos outros como adversários numa disputa permanente por poder. A relação familiar deve ser construída sobre amor, responsabilidade, respeito e solidariedade.

São Paulo escreve:

“Suportai-vos uns aos outros na caridade, com toda a humildade, mansidão e paciência” (Efésios 4,2).

A mesma lógica aparece no ensinamento católico sobre a família. O Catecismo, no parágrafo 2206, descreve a comunidade familiar como um espaço de respeito mútuo, cooperação entre os esposos e participação responsável dos pais na educação dos filhos.

É importante, contudo, não confundir a crítica ao marxismo com a rejeição de toda luta contra a pobreza ou a exploração. A própria doutrina social católica condena a injustiça econômica, defende os trabalhadores e exige condições dignas de vida para as famílias.

O conflito não está em ajudar os pobres, mas em transformar a luta de classes no princípio absoluto da organização social, subordinando a família a um projeto ideológico.

A família como primeira educadora: quem tem o direito de formar os filhos?

Um dos conflitos mais importantes entre determinadas correntes políticas e a doutrina católica diz respeito à educação das crianças.

Para a Igreja, os pais não são simples prestadores de serviços que entregam seus filhos ao Estado para que este decida sozinho como devem ser educados. A responsabilidade dos pais é anterior e fundamental.

O livro do Deuteronômio apresenta esta orientação:

“Tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa, andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te” (Deuteronômio 6,7).

A educação da fé, dos costumes e das virtudes começa no ambiente familiar. Isso não significa que a escola seja desnecessária, mas que sua atuação deve respeitar a responsabilidade própria dos pais.

São Paulo também recorda a importância da formação cristã dos filhos:

“Pais, não exaspereis vossos filhos. Pelo contrário, criai-os na educação e doutrina do Senhor” (Efésios 6,4).

O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2221, ensina que a educação moral e espiritual dos filhos é uma responsabilidade primordial e inalienável dos pais. Nos parágrafos 2223 e 2225, reforça a importância do exemplo dos pais e da educação na fé.

A Igreja não se opõe à educação pública, à ciência ou à participação do Estado na proteção das crianças. O problema surge quando qualquer governo pretende monopolizar a formação moral dos jovens ou impedir que os pais eduquem seus filhos segundo convicções legítimas.

Esse princípio não vale apenas contra governos de esquerda. Qualquer regime autoritário, seja de esquerda ou de direita, pode ameaçar a liberdade da família quando tenta controlar integralmente a educação e a consciência das novas gerações.

Fonte: Catecismo da Igreja Católica, especialmente os parágrafos 2221–2231.

O original grego: o significado de “casa” e “família” no Novo Testamento

Uma expressão interessante aparece em 1 Timóteo 5,8:

“Se alguém não cuida dos seus, e principalmente dos de sua própria casa, negou a fé e é pior que um infiel.”

No grego, encontramos a expressão:

τῶν ἰδίων καὶ μάλιστα οἰκείων

Transliteração: tōn idiōn kai malista oikeiōn.

Uma tradução aproximada seria “os seus, especialmente os de sua própria casa”.

A palavra οἰκεῖος (oikeios) está relacionada à casa, aos membros do lar e às pessoas pertencentes ao círculo familiar. A palavra οἶκος (oikos), por sua vez, pode designar casa, lar ou família, dependendo do contexto.

A ideia é importante: a fé cristã não pode ser separada das responsabilidades concretas que temos para com aqueles que dependem de nós.

Não basta defender discursos sobre justiça social se negligenciamos nossos próprios filhos, abandonamos nossos pais idosos ou tratamos com desprezo as pessoas que vivem conosco.

A caridade cristã começa também nas obrigações cotidianas do lar, sem se limitar a ele. A família deve ensinar a solidariedade e preparar seus membros para servir à sociedade.

Santo Agostinho e São João Crisóstomo: a família como escola de virtudes

Santo Agostinho, Doutor da Igreja, oferece uma reflexão importante sobre a ordem do amor em sua obra A Doutrina Cristã, especialmente no livro I, capítulos 22–29. O amor cristão precisa ser ordenado segundo Deus, de maneira que o próximo seja amado sem transformar nenhum bem criado em absoluto.

Aplicado à vida familiar, isso significa que os vínculos de parentesco são verdadeiros bens, mas devem ser vividos dentro da justiça e da caridade. Amar a família não autoriza a praticar injustiças contra os demais.

São João Crisóstomo, em suas homilias sobre a Carta aos Efésios, especialmente na Homilia 20 sobre Efésios, reflete sobre as responsabilidades entre marido, mulher e filhos e sobre a importância de uma vida doméstica orientada pela fé.

A tradição cristã não apresenta o lar como uma fortaleza egoísta, fechada ao sofrimento do mundo. Apresenta-o como um lugar em que se aprende a amar, perdoar, servir e assumir responsabilidades.

Por isso, a família cristã deve ser protegida tanto das ideologias que tentam dissolver seus vínculos quanto do egoísmo, da violência e do materialismo que podem destruí-la por dentro.

O que diz o Catecismo sobre a família e a sociedade?

O Catecismo da Igreja Católica apresenta uma visão que vai além das disputas partidárias.

No parágrafo 2204, afirma que a família cristã pode ser chamada de “Igreja doméstica”, pois constitui uma comunidade de fé, esperança e caridade.

No parágrafo 2207, ensina que a família é a célula original da vida social, na qual se aprendem os valores morais, a responsabilidade e o uso correto da liberdade.

Já o parágrafo 2211 aborda direitos familiares que devem ser reconhecidos pela sociedade, incluindo a liberdade de constituir uma família, a proteção da estabilidade conjugal e o direito dos pais à educação dos filhos.

A doutrina social da Igreja acrescenta um princípio fundamental: a subsidiariedade. Isso significa que as instâncias maiores da sociedade devem ajudar as famílias a cumprir suas responsabilidades, em vez de assumir desnecessariamente as funções que elas podem exercer.

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nos parágrafos 209–214 e 252, apresenta a família como uma sociedade natural dotada de direitos próprios e explica que o Estado deve respeitar sua autonomia e apoiá-la.

Fonte oficial: Compêndio da Doutrina Social da Igreja, capítulo sobre a família.

Esse ensinamento também impede que a defesa da família seja usada como justificativa para abandonar os mais pobres. O Estado deve oferecer condições para que as famílias cumpram suas responsabilidades, especialmente quando enfrentam desemprego, pobreza, doença ou outras dificuldades.

A esquerda contemporânea é toda inimiga da família?

Aqui precisamos ser intelectualmente honestos.

Existem correntes revolucionárias que defendem a transformação radical das estruturas familiares tradicionais. Existem movimentos que entram em conflito com a doutrina católica sobre o matrimônio, a sexualidade e a educação dos filhos e tambem sobre o Ab2rto. Mas também existem partidos e governos de esquerda que defendem políticas de assistência às famílias, creches, licença parental, moradia e proteção social, mas dificilmente serão contra o Ab2rto.

O critério católico não deve ser simplesmente a identidade partidária de quem propõe uma medida. Deve ser a verdade sobre a pessoa humana, o bem comum, a dignidade do matrimônio, a liberdade dos pais, a proteção dos mais frágeis, mas também ser a favor da vida desde sua concepção.

O cristão precisa examinar as ideias e suas consequências, sem transformar a política em uma guerra permanente entre pessoas consideradas boas e pessoas consideradas más.

A família tradicional é perfeita? O que a doutrina católica realmente ensina

Defender a família não significa afirmar que toda família tradicional seja saudável ou que tudo o que aconteceu historicamente dentro dela tenha sido justo.

A própria Bíblia condena a violência, a exploração e a falta de amor. São Paulo ensina:

“Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Efésios 5,25).

O modelo cristão não é o de um homem que domina arbitrariamente a mulher, mas o de um amor que exige sacrifício e responsabilidade. Da mesma forma, os filhos devem ser educados com firmeza, mas sem humilhação ou violência.

A família precisa de proteção contra as pressões ideológicas externas, mas também precisa de conversão interior. Um lar que se apresenta como tradicional e, ao mesmo tempo, está marcado por agressões, abandono e infidelidade não corresponde ao ideal cristão.

A defesa católica da família não consiste em conservar todo costume antigo indiscriminadamente. Consiste em preservar aquilo que corresponde à verdade sobre o ser humano, ao matrimônio, à responsabilidade parental e à caridade.

Conclusão: o cristão deve defender a família sem transformar a política em religião

Por que determinadas correntes da esquerda entram em conflito com a família tradicional?

A resposta está nas concepções de ser humano e de sociedade que orientam essas correntes. Quando uma ideologia interpreta a família principalmente como instrumento de dominação econômica, deseja subordinar a educação dos filhos ao projeto do Estado ou rejeita princípios fundamentais da antropologia cristã, surge um conflito real com a doutrina católica.

O Manifesto do Partido Comunista oferece um exemplo histórico dessa tensão ao propor a superação da família burguesa. A doutrina católica, em contraste, entende que a família possui uma dignidade própria e direitos que não dependem inteiramente das estruturas econômicas ou da vontade do Estado.

Mas seria injusto transformar essa crítica em uma acusação contra todas as pessoas de esquerda. O católico deve avaliar cada proposta política à luz do Evangelho e da doutrina social da Igreja.

A verdadeira defesa da família exige mais do que slogans. Exige proteger a vida desde a concepção, valorizar o matrimônio, apoiar os pais na educação dos filhos, combater a violência doméstica, ajudar as famílias pobres e garantir que o Estado respeite suas responsabilidades legítimas.

Como ensina o Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2207, a família é a célula original da vida social. Se queremos uma sociedade mais justa, precisamos começar fortalecendo os vínculos de amor, responsabilidade e solidariedade que tornam possível a vida familiar.

A pergunta decisiva, portanto, não é simplesmente se alguém pertence à esquerda ou à direita. É esta: as ideias e políticas que defendemos respeitam a dignidade humana, protegem a família e permitem que os pais cumpram sua missão diante de Deus?

Esse é o critério que deve orientar o católico. A família não deve ser instrumento de nenhuma ideologia. A política, por sua vez, deve estar a serviço da pessoa humana, do bem comum e das comunidades naturais que sustentam a sociedade.

Fontes para aprofundamento

Sagradas Escrituras

Gênesis 1,27-28 e 2,24, sobre a criação do homem e da mulher e a união matrimonial.

Deuteronômio 6,4-9, sobre a transmissão da fé aos filhos.

Mateus 19,4-6, sobre o matrimônio segundo o ensinamento de Jesus.

Efésios 4,2 e 5,21-33, sobre a caridade, a responsabilidade e o amor conjugal.

Efésios 6,1-4, sobre os deveres dos pais e dos filhos.

1 Timóteo 5,8, sobre a responsabilidade de cuidar dos familiares.

Padres da Igreja e Doutores

Santo Agostinho, A Doutrina Cristã, livro I, capítulos 22–29, sobre a ordem do amor.

São João Crisóstomo, Homilias sobre a Carta aos Efésios, especialmente a Homilia 20, sobre as relações familiares e os deveres dos esposos.

Documentos da Igreja

Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 2201–2231, sobre a natureza da família, seus direitos e os deveres dos pais.

São João Paulo II, exortação apostólica Familiaris Consortio, especialmente os parágrafos 36 e 45, sobre a educação dos filhos e a relação entre família e sociedade. Consultar no Vaticano.

Compêndio da Doutrina Social da Igreja, parágrafos 209–214 e 252, sobre a família como sociedade natural e o princípio da subsidiariedade. Consultar no Vaticano.

Fonte histórica para a crítica ao comunismo

Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista, capítulo II, “Proletários e comunistas”, especialmente a discussão sobre a família burguesa e a propriedade privada.

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