Com minhas escolhas diárias, estou temendo mais: os homens que podem matar o corpo ou Deus que guarda a alma? O mundo ou a eternidade no inferno?


Será que nosso temor está mais voltado para os perigos visíveis do mundo ou para a realidade eterna da alma? Quantas vezes nossas escolhas revelam que damos mais importância ao corpo do que ao espírito? O medo da morte física é maior do que o respeito e reverência ao Criador?

O medo que revela nossas prioridades

Vivemos em uma época marcada pelo medo. As pessoas temem perder o emprego, a saúde, a reputação, os bens materiais e até mesmo a própria vida. No entanto, Cristo nos faz uma pergunta desconfortável: será que estamos temendo aquilo que realmente deveria ser temido?

Nosso Senhor ensinou:

"Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo." (Mateus 10,28)

Essa passagem é uma das mais fortes de todo o Evangelho. Ela nos obriga a confrontar uma realidade muitas vezes esquecida: a alma é mais importante que o corpo.

Quando nossas decisões são guiadas exclusivamente pela preservação do conforto físico, da segurança material ou da aprovação humana, talvez estejamos revelando que tememos mais os homens do que a Deus.

O verdadeiro significado do temor de Deus

A cultura moderna costuma interpretar mal a expressão "temor de Deus". Muitos imaginam um medo irracional ou um terror psicológico. Entretanto, a Sagrada Escritura apresenta algo muito mais profundo.

O termo grego utilizado em diversas passagens do Novo Testamento é φόβος (phobos), que pode significar medo, reverência, respeito profundo e reconhecimento da autoridade divina.

Em Atos 9,31 lemos:

"A Igreja caminhava no temor do Senhor e, com a assistência do Espírito Santo, crescia em número."

O texto grego diz:

πορευομένη τῷ φόβῳ τοῦ Κυρίου

Literalmente:

"Caminhando no temor do Senhor."

Não se trata de pânico diante de Deus, mas da consciência de Sua majestade, justiça e santidade.

O Livro dos Provérbios afirma:

"O temor do Senhor é o princípio da sabedoria." (Provérbios 9,10)

Sem esse temor santo, o homem perde a noção da eternidade e passa a viver apenas para o presente.

Quando o corpo se torna mais importante que a alma

Desde a queda de Adão, existe uma tendência humana de priorizar os bens temporais em detrimento dos eternos.

Jesus pergunta:

"Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder sua alma?" (Marcos 8,36)

O texto grego utiliza a palavra ψυχή (psyché), que significa alma, vida interior, princípio espiritual.

A pergunta de Cristo continua ecoando pelos séculos.

Quantos abandonam a verdade para evitar perseguições?

Quantos silenciam a fé para não serem ridicularizados?

Quantos aceitam o pecado para preservar uma situação confortável?

Quantos se preocupam mais com a saúde física do que com o estado da própria alma?

A realidade é que muitos cristãos têm mais receio de uma doença do que do pecado mortal.

Temem mais a morte corporal do que a separação eterna de Deus.

Os mártires compreenderam essa verdade

Os mártires dos primeiros séculos entenderam perfeitamente o ensinamento de Cristo.

Enquanto o Império Romano ameaçava seus corpos, eles permaneciam firmes porque sabiam que a alma pertence a Deus.

Santo Inácio de Antioquia escreveu pouco antes de seu martírio por volta do ano 107:

"Deixai-me ser alimento das feras, pelas quais me será dado alcançar Deus."

Fonte: Carta aos Romanos, capítulo 4.

Mais adiante ele afirma:

"Agora começo a ser discípulo."

Fonte: Carta aos Romanos, capítulo 5.

Para Inácio, perder a vida física não era derrota. Era a entrada na verdadeira vida.

A visão dos Padres da Igreja

São João Crisóstomo comenta Mateus 10,28 dizendo:

"A morte não destrói a alma; por isso aquele que mata apenas o corpo não possui verdadeiro poder."

Fonte: Homilia 34 sobre o Evangelho de Mateus.

Santo Agostinho escreve:

"Teme a Deus e nada mais precisarás temer."

Fonte: Sermão 161.

Em outra obra afirma:

"O temor santo não afasta de Deus; conduz a Deus."

Fonte: Enarrationes in Psalmos, Salmo 111.

Os Padres da Igreja compreendiam que o temor de Deus não diminui a liberdade humana; ao contrário, liberta o homem da escravidão do medo dos homens.

O ensinamento dos Doutores da Igreja

São Tomás de Aquino dedica longas reflexões ao temor de Deus na Summa Theologiae.

Ele ensina:

"O temor filial consiste em reverenciar a Deus e evitar separar-se dele."

Fonte: Summa Theologiae, II-II, q.19, a.2.

Tomás distingue o temor servil do temor filial.

O temor servil teme o castigo.

O temor filial teme ofender a Deus porque O ama.

O cristão maduro busca esse segundo tipo de temor.

Santa Teresa de Ávila escreveu:

"Quem tem Deus nada lhe falta. Só Deus basta."

Fonte: Poesia "Nada te perturbe".

Quem realmente acredita nisso não vive escravizado pelos medos terrenos.

O Catecismo da Igreja Católica e o dom do temor do Senhor

O Catecismo ensina que o temor do Senhor é um dos sete dons do Espírito Santo.

O Catecismo declara:

"Os sete dons do Espírito Santo são: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus."

Catecismo da Igreja Católica, §1831.

Também ensina:

"O princípio da sabedoria é o temor do Senhor."

Catecismo da Igreja Católica, §1831.

Ao comentar os dons do Espírito Santo, o Catecismo mostra que esse temor não é incompatível com o amor.

Pelo contrário, ele nasce da consciência da infinita grandeza de Deus.

O Catecismo também recorda:

"A morte põe fim à vida do homem como tempo aberto à aceitação ou rejeição da graça divina."

Catecismo da Igreja Católica, §1021.

Essa verdade deveria levar cada cristão a examinar seriamente suas prioridades.

O testemunho das Sagradas Escrituras

Ao longo de toda a Bíblia encontramos o mesmo ensinamento.

Nosso Senhor declara:

"Não tenhais medo daqueles que matam o corpo e depois nada mais podem fazer. Eu vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem o poder de lançar na geena." (Lucas 12,4-5)

O autor da Carta aos Hebreus afirma:

"Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo." (Hebreus 10,31)

O Eclesiastes conclui:

"Teme a Deus e observa seus mandamentos, porque isso é o dever de todo homem." (Eclesiastes 12,13)

O Salmista proclama:

"O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os salva." (Salmo 34,7)

A Escritura nunca opõe o amor ao temor santo.

Ela apresenta ambos caminhando juntos.

O perigo de uma fé sem temor

Muitos desejam um cristianismo que fale apenas do amor divino, mas ignore a justiça divina.

Entretanto, o próprio Cristo falou mais sobre o inferno do que qualquer outro personagem das Escrituras.

Não porque quisesse aterrorizar as pessoas.

Mas porque amava as almas.

Quem ama adverte.

Quem ama alerta.

Quem ama mostra o caminho da salvação.

Uma fé sem temor de Deus facilmente se transforma em presunção.

E a presunção foi sempre considerada um grave perigo espiritual pelos santos.

O que nossas escolhas revelam?

A pergunta permanece.

Quando surge um conflito entre agradar a Deus e agradar aos homens, qual lado escolhemos?

Quando a verdade custa nossa reputação, permanecemos firmes?

Quando a fidelidade ao Evangelho exige sacrifícios, continuamos obedecendo?

Quando temos de escolher entre a segurança temporal e a fidelidade a Cristo, qual é nossa decisão?

Nossas respostas revelam aquilo que realmente tememos.

O temor que conduz à liberdade

Paradoxalmente, quem teme a Deus deixa de temer os homens.

Os mártires provaram isso.

Os santos provaram isso.

Os apóstolos provaram isso.

Após serem ameaçados pelas autoridades, Pedro declarou:

"É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens." (Atos 5,29)

Essa frase resume toda a questão.

Quando Deus ocupa o primeiro lugar, todos os demais medos perdem sua força.

O corpo é importante.

A saúde é importante.

A vida terrena é um dom precioso.

Mas nada disso possui valor superior à alma.

Cristo nos recorda que existe algo pior do que morrer.

É viver afastado de Deus.

Por isso, a pergunta continua atual para cada geração:

Quem você teme mais?

Os homens que podem matar o corpo?

Ou Deus, diante de quem cada alma prestará contas na eternidade?

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