Padre foi uma invenção Católica ou Bíblica? E chamar o sacerdote de padre (pai) contraria a Bíblia?


Se não existe padre na Bíblia, por que a própria Bíblia chama homens consagrados de sacerdotes, ordenados para oferecer sacrifícios, ungir os enfermos, perdoar pecados e pastorear o povo de Deus? E chamar o sacerdote de padre (pai) contraria a Bíblia?

Existe padre na Bíblia? A resposta que muitos ignoram

Uma pergunta antiga que continua atual

Uma das objeções mais repetidas contra a Igreja Católica é a seguinte: "Existe padre na Bíblia?" Muitos afirmam que o sacerdócio ministerial foi uma invenção posterior da Igreja e que, no Novo Testamento, todos os cristãos seriam apenas "irmãos", sem qualquer distinção entre sacerdotes e fiéis.

Entretanto, basta analisar cuidadosamente as Escrituras, a tradição apostólica e os primeiros séculos do cristianismo para perceber que essa afirmação não resiste ao exame histórico nem bíblico.

A própria Bíblia revela que Cristo instituiu ministros específicos para governar, ensinar e santificar o povo de Deus. Esses ministros receberam autoridade especial, transmitida aos seus sucessores, formando aquilo que hoje chamamos de sacerdócio ministerial.

Deus sempre conduziu seu povo através de sacerdotes

Desde o Antigo Testamento, Deus escolheu homens específicos para exercerem o sacerdócio.

"No meio dos filhos de Israel farás aproximar-se de ti Aarão, teu irmão, e seus filhos, para que exerçam o sacerdócio em meu favor." (Êxodo 28,1)

O sacerdócio não era uma iniciativa humana. Era uma vocação divina.

A Carta aos Hebreus recorda esse princípio:

"Nem alguém toma para si esta honra, senão aquele que é chamado por Deus, como Aarão." (Hebreus 5,4)

O Novo Testamento ensina que Jesus é o Sumo Sacerdote definitivo.

"Tendo, pois, um grande sumo sacerdote que penetrou os céus, Jesus, o Filho de Deus..." (Hebreus 4,14)

Mas isso não elimina a existência de ministros terrenos. Pelo contrário, Cristo escolhe homens para participarem do seu sacerdócio.

Jesus escolheu doze homens com uma missão diferente

Todos os discípulos eram importantes.

Mas nem todos receberam a mesma missão.

Jesus chamou muitos discípulos.

Entre eles escolheu doze.

"Chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos." (Lucas 6,13)

Essa distinção é fundamental.

Se todos tivessem exatamente a mesma missão, não haveria razão para Cristo separar doze homens e lhes conceder autoridade específica.

O poder de perdoar pecados foi dado aos Apóstolos

Depois da Ressurreição, Jesus aparece aos Apóstolos e lhes concede uma autoridade extraordinária.

"Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." (João 20,22-23)

Nenhum cristão comum recebeu essa missão diretamente de Cristo.

Perdoar ou reter pecados exige discernimento, autoridade e jurisdição espiritual.

É exatamente isso que a Igreja Católica continua realizando no Sacramento da Confissão.

Na Última Ceia nasce o sacerdócio do Novo Testamento

Durante a instituição da Eucaristia, Jesus não fala para toda a multidão.

Ele fala apenas aos Apóstolos.

"Fazei isto em memória de mim." (Lucas 22,19)

No texto grego aparece:

Τοῦτο ποιεῖτε εἰς τὴν ἐμὴν ἀνάμνησιν
(Touto poieite eis tēn emēn anamnēsin)

A palavra ποιεῖτε (poieite) significa "fazei", mas possui um sentido litúrgico muito mais profundo.

Na tradução grega do Antigo Testamento (Septuaginta), esse mesmo verbo é frequentemente utilizado para designar a realização de sacrifícios oferecidos pelos sacerdotes.

Por exemplo:

"Fará (ποιήσει — poiēsei) o sacerdote expiação por ele..." (Levítico 9,7 – Septuaginta)

Assim, quando Cristo diz "Fazei isto", Ele não está simplesmente dizendo "repitam um gesto".

Está conferindo uma função litúrgica sacrificial aos Apóstolos.

A palavra "presbítero" deu origem ao termo padre

Muitos perguntam:

"Mas a palavra padre aparece na Bíblia?"

Na realidade, o termo moderno deriva do grego.

O Novo Testamento utiliza:

πρεσβύτερος (presbyteros)

Significa literalmente:

"ancião"

"presbítero"

Os presbíteros exerciam funções pastorais e sacramentais.

São Paulo escreve:

"Por esta razão te deixei em Creta: para estabeleceres presbíteros em cada cidade." (Tito 1,5)

No grego:

καταστήσῃς κατὰ πόλιν πρεσβυτέρους
(katastēsēs kata polin presbyterous)

Da palavra presbyteros surgiram:

Presbyter (latim)

Prester (português antigo)

Padre (português moderno)

Portanto, embora a palavra portuguesa "padre" não apareça literalmente na Bíblia, sua origem está diretamente no vocábulo utilizado pelos próprios Apóstolos.

Os presbíteros celebravam a Eucaristia

São Paulo lembra Timóteo do dom recebido mediante imposição das mãos.

"Não descuides do dom da graça que está em ti e que te foi dado mediante profecia com a imposição das mãos do colégio dos presbíteros." (1 Timóteo 4,14)

A imposição das mãos sempre foi o rito de transmissão do ministério.

Esse mesmo gesto aparece novamente.

"Por esse motivo, exorto-te a reavivar o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos." (2 Timóteo 1,6)

Essa sucessão ministerial permanece viva na Igreja Católica até hoje.

Os presbíteros ungiam os enfermos

Tiago escreve:

"Está alguém enfermo? Chame os presbíteros da Igreja." (Tiago 5,14)

No original grego:

προσκαλεσάσθω τοὺς πρεσβυτέρους τῆς ἐκκλησίας
(proskalesasthō tous presbyterous tēs ekklēsias)

Observe que Tiago não diz:

"Chame qualquer cristão."

Ele manda chamar os presbíteros.

São eles que rezam.

São eles que ungem.

São eles que exercem esse ministério.

Os primeiros cristãos acreditavam no sacerdócio

Poucas décadas após os Apóstolos, encontramos a mesma estrutura da Igreja Católica.

Santo Inácio de Antioquia escreve por volta do ano 107:

"Sem o bispo ninguém faça coisa alguma referente à Igreja."

Fonte: Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses, capítulo 8.

Na mesma carta afirma:

"Onde aparece o bispo, aí esteja a multidão, assim como onde está Cristo Jesus, aí está a Igreja Católica."

Fonte: Carta aos Esmirnenses, 8,2.

Observe que já no início do século II aparecem claramente:

Bispos

Presbíteros

Diáconos

A mesma estrutura da Igreja Católica atual.

No Novo Testamento, os discípulos de Cristo assumiram esse papel. Eles são responsáveis por ensinar sobre Deus, orientar as pessoas na fé e ajudá-las a desenvolver uma vida dedicada a Deus. 

Na igreja católica, há um entendimento de que o padre é uma pessoa separada para se dedicar integralmente à obra de Deus. Partindo para esse entendimento, o matrimônio foi proibido pela igreja católica à partir do Primeiro Concílio  de Latrão em 1123. Por isso, o celibato para o padre ocidental passou a ser obrigatório.

Um dos termos mais distintivos usados na Igreja Católica (embora às vezes usado por outras denominações) é a palavra “sacerdote”. É o termo mais comum usado para identificar um membro ordenado do clero e tem uma rica história no cristianismo.

Em inglês, a palavra “padre” – “priest” – é derivada do grego “presbyteros”, que significa “ancião”. O termo é usado em todo o Velho e Novo Testamentos para identificar um indivíduo que oferece um sacrifício a Deus.

O primeiro uso do termo está no livro de Gênesis, para identificar o misterioso Melquisedeque, que aparece do nada em um encontro com Abraão.

Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, mandou trazer pão e vinho, e abençoou Abrão, dizendo: “Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que criou o céu e terra! Bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos em tuas mãos!” E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo. (Gênesis 14, 18-20)

Mais tarde, desenvolve-se um sacerdócio levítico sob Moisés, que é mantido por vários séculos em um sacerdócio associado ao Templo Judaico. É dever do sacerdote judaico oferecer sacrifícios a Deus em nome do povo.

a terminologia da palavra, que vem do aramaico antigo, que significa “mediação entre o povo e Deus”.

Devemos nos lembrar que a função sacerdotal apareceu em Gênesis 14, 18-20, em que Melquisedeque, sacerdote do Altíssimo, abençoou Abrão. Foi também, nessa passagem, que vimos a entrega do primeiro dízimo.

O sacerdote na Antiga Aliança

Não só entre os povos pagãos, mas assim também o era entre o povo de Deus da Antiga Aliança. Seu principal encargo era a apresentação da vítima, do holocausto, a Deus através do seu sacrifício. É comum a menção ao “Sangue da Vítima”. 1

Ainda, relata-se a existência de três graus de sacerdócio no Antigo Testamento:

1. Sumo Sacerdote

Exercido por aquele que era o chefe dos sacerdotes, sendo o mais alto grau. Aarão ocupava esse papel 2. Trata-se do responsável pelo oculto.

2. Sacerdócio ministerial

Em um grau menor estavam os filhos de Aarão e os levitas, 3 que auxiliavam no serviço religioso, no culto.

3. Sacerdócio comum

O último grau era exercido por todo o Povo de Deus. Nesse sentido, os judeus eram um povo de sacerdotes. 4

Os sacerdotes hebreus

O sacerdócio hebreu foi oficialmente ordenado no tempo de Moisés, com Arão e seus filhos (Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar) sendo consagrados como sacerdotes por Moisés de acordo com a ordem divina. A cerimônia solene da consagração de Arão e seus filhos foi repleta de detalhes e bastante significativa, durando sete dias (Êx 29, 1-37; cf. Lv 8).

Dos quatro filhos de Arão, apenas dois sobreviveram, Eleazar e Itamar, e, portanto, a linhagem sacerdotal de Arão ficou preservada nos descendentes de ambos (Lv 10, 1,2; Nm 3, 4; 1Cr 24, 2). No entanto, para ser um sacerdote não bastava apenas ser descente legítimo de Arão, pois algumas limitações tanto de ordem física, como deficiências, quanto de ordem cerimonial, como impurezas, impediam que alguns indivíduos exercessem o sacerdócio (Lv 21). Além disso, houve muitos casos complicados em que pessoas não conseguiram comprovar pertencer à genealogia da família de Arão.

São Clemente de Roma confirma a sucessão apostólica

Escrevendo por volta do ano 96, São Clemente afirma:

"Os Apóstolos estabeleceram bispos e diáconos... e determinaram que, depois de sua morte, outros homens aprovados lhes sucedessem no ministério."

Fonte: São Clemente de Roma, Primeira Carta aos Coríntios, capítulos 42–44.

Essa é uma das provas históricas mais antigas da sucessão apostólica.

Santo Irineu combate as heresias mostrando a sucessão dos bispos

No século II, Santo Irineu escreve:

"Podemos enumerar aqueles que foram estabelecidos bispos pelos Apóstolos e seus sucessores até nossos dias."

Fonte: Santo Irineu de Lião, Contra as Heresias, Livro III, capítulo 3.

Sua argumentação é simples.

Se alguém deseja conhecer a verdadeira doutrina apostólica, deve procurar as Igrejas fundadas pelos Apóstolos e seus sucessores.

São João Crisóstomo exalta o sacerdócio

São João Crisóstomo escreve:

"O sacerdócio é exercido na terra, mas pertence às realidades celestes."

Fonte: São João Crisóstomo, Sobre o Sacerdócio, Livro III.

Ele afirma ainda que o sacerdote administra os mistérios divinos em nome de Cristo.

Santo Agostinho reconhece o ministério sacerdotal

Santo Agostinho ensina:

"Pedro representava a Igreja por causa do primado do seu apostolado."

Fonte: Santo Agostinho, Sermão 295.

Ao comentar a autoridade recebida por Pedro e pelos Apóstolos, Agostinho mostra que essa missão continua na Igreja por meio de seus ministros.

São Tomás de Aquino explica o sacerdócio

O Doutor Angélico ensina:

"Somente o sacerdote validamente ordenado pode consagrar este sacramento."

Fonte: São Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 82, a. 1.

Para São Tomás, isso decorre diretamente da missão confiada por Cristo aos Apóstolos.

O Catecismo confirma a instituição do sacerdócio

O Catecismo ensina:

"O sacerdócio ministerial difere essencialmente do sacerdócio comum dos fiéis."

Fonte: Catecismo da Igreja Católica, §1547.

Também afirma:

"Cristo, Sumo Sacerdote e único mediador, fez da Igreja um Reino de sacerdotes para Deus, seu Pai."

Fonte: Catecismo da Igreja Católica, §§1546–1547.

Sobre a sucessão apostólica, o Catecismo declara:

"Para que a missão confiada aos Apóstolos continuasse após sua morte, eles transmitiram a seus colaboradores imediatos o encargo de completar e consolidar a obra iniciada por eles."

Fonte: Catecismo da Igreja Católica, §861.

E acrescenta:

"O ministério eclesiástico é conferido pelo sacramento da Ordem."

Fonte: Catecismo da Igreja Católica, §1536.

Mas Jesus proibiu chamar alguém de "pai"?

Alguns citam Mateus 23,9:

"A ninguém na terra chameis vosso pai."

Se interpretarmos literalmente, também seria proibido chamar nossos pais biológicos de pai.

Além disso, São Paulo escreve:

"Pois ainda que tivésseis dez mil pedagogos em Cristo, não tendes muitos pais. Fui eu quem vos gerou em Cristo Jesus pelo Evangelho."

(1 Coríntios 4,15)

No grego:

ἐγὼ ὑμᾶς ἐγέννησα
(egō hymas egennēsa)

"Eu vos gerei."

Paulo reconhece sua paternidade espiritual.

Jesus não condenava o uso da palavra "pai".

Condenava a soberba dos fariseus que buscavam títulos para serem exaltados.

O testemunho da Igreja permanece o mesmo

Durante dois mil anos, cristãos do mundo inteiro reconheceram bispos, presbíteros e diáconos como sucessores dos Apóstolos.

Essa estrutura não nasceu em Roma.

Não surgiu na Idade Média.

Ela aparece nas próprias páginas do Novo Testamento e é confirmada continuamente pelos escritos dos Padres Apostólicos, dos Padres da Igreja, dos Doutores da Igreja e pelo Magistério.

Negar o sacerdócio ministerial exige ignorar não apenas a tradição católica, mas também a história documentada do cristianismo primitivo.

Chamar o sacerdote de padre contraria a Bíblia?

A objeção mais conhecida

Talvez nenhuma crítica seja tão repetida contra a Igreja Católica quanto esta:

"Jesus disse para não chamar ninguém de pai. Então por que os católicos chamam os sacerdotes de padre?"

A passagem normalmente utilizada é Mateus 23,9:

"A ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é vosso Pai, aquele que está nos céus." (Mateus 23,9)

À primeira vista, alguém poderia imaginar que Jesus estivesse proibindo o uso da palavra "pai". No entanto, basta ler o contexto e comparar essa passagem com o restante das Escrituras para perceber que essa interpretação não se sustenta.

Na verdade, se Mateus 23,9 fosse entendido de maneira absolutamente literal, a própria Bíblia entraria em contradição.

O contexto é a chave da interpretação

Nenhum texto bíblico deve ser interpretado isoladamente.

Os versículos anteriores mostram exatamente o que Jesus estava condenando.

"Todas as suas obras fazem para serem vistos pelos homens... Gostam do primeiro lugar nos banquetes, dos primeiros assentos nas sinagogas, das saudações nas praças e de serem chamados pelos homens: Mestre." (Mateus 23,5-7)

O problema não era o uso de determinados títulos.

O problema era a vaidade.

Os fariseus desejavam honras, prestígio e reconhecimento público.

Cristo combate o orgulho, não o vocabulário.

Isso fica ainda mais claro quando Ele diz:

"Quem entre vós for o maior seja o vosso servo." (Mateus 23,11)

Toda a passagem gira em torno da humildade.

Se fosse literal, ninguém poderia chamar seu próprio pai de pai

A interpretação literal leva a uma conclusão impossível.

Se Jesus proibisse o uso da palavra "pai", então seria pecado uma criança dizer:

"Pai, posso conversar com o senhor?"

No entanto, o próprio Deus ordena:

"Honra teu pai e tua mãe." (Êxodo 20,12)

Esse mandamento é repetido no Novo Testamento.

"Honra teu pai e tua mãe." (Efésios 6,2)

Seria incoerente Deus ordenar que honrássemos nosso pai e, ao mesmo tempo, proibir que o chamássemos de pai.

Isso demonstra que Jesus não estava proibindo o termo, mas combatendo a soberba daqueles que buscavam títulos para se exaltarem.

O próprio Jesus chamou Abraão de pai

Na parábola do rico e de Lázaro encontramos uma informação muito interessante.

O rico exclama:

"Pai Abraão, tem piedade de mim." (Lucas 16,24)

Em nenhum momento Jesus corrige essa expressão.

Muito pelo contrário.

Durante toda a parábola, Abraão responde normalmente.

Se chamar alguém de "pai" fosse pecado, seria estranho que Jesus utilizasse justamente essa linguagem em um ensinamento.

São Paulo chama a si mesmo de pai espiritual

A maior dificuldade para quem interpreta Mateus 23,9 literalmente aparece nas cartas de São Paulo.

Escrevendo aos coríntios, ele afirma:

"Ainda que tivésseis milhares de pedagogos em Cristo, não tendes muitos pais, pois fui eu quem vos gerou em Cristo Jesus por meio do Evangelho." (1 Coríntios 4,15)

No original grego lemos:

ἐγὼ γὰρ ὑμᾶς ἐγέννησα ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ
(Egō gar hymas egennēsa en Christō Iēsou)

O verbo ἐγέννησα (egénnēsa) significa "gerei", "dei origem", "fiz nascer".

Paulo está afirmando exercer verdadeira paternidade espiritual.

Ele não diz apenas que ensinou.

Ele diz que gerou filhos para Cristo.

Logo, a própria Escritura utiliza a linguagem da paternidade espiritual.

São João também fala como pai

O apóstolo João dirige-se diversas vezes aos cristãos chamando-os de filhos.

"Filhinhos meus, escrevo-vos estas coisas..." (1 João 2,1)

No grego:

Τεκνία μου
(Teknía mou)

Significa literalmente:

"Meus filhinhos."

João assume claramente uma relação paterna com os fiéis.

Da mesma forma, São Pedro escreve:

"A Igreja que está na Babilônia, eleita como vós, vos saúda, bem como Marcos, meu filho." (1 Pedro 5,13)

Não se trata de um filho biológico.

É um filho espiritual.

Mais uma vez aparece a linguagem da paternidade espiritual dentro da própria Bíblia.

O próprio Antigo Testamento chama líderes religiosos de pai

Muito antes de Cristo, encontramos esse costume.

Quando Naamã quase desistiu de mergulhar no Jordão, seus servos disseram:

"Meu pai..." (2 Reis 5,13)

O profeta Eliseu também é tratado como pai.

No momento de sua morte, o rei Joás exclama:

"Meu pai, meu pai! Carro de Israel e sua cavalaria!" (2 Reis 13,14)

Expressão semelhante havia sido usada anteriormente para Elias.

"Meu pai, meu pai! Carro de Israel e seus cavaleiros!" (2 Reis 2,12)

Percebe-se que chamar um líder espiritual de pai já fazia parte da tradição do povo de Deus.

Santo Estêvão faz o mesmo

No livro dos Atos dos Apóstolos, Santo Estêvão inicia seu discurso dizendo:

"Irmãos e pais, ouvi." (Atos 7,2)

No grego:

Ἄνδρες ἀδελφοὶ καὶ πατέρες
(Andres adelphoi kai pateres)

Literalmente:

"Homens, irmãos e pais."

Os "pais" aqui são justamente as autoridades religiosas judaicas.

Se chamar líderes espirituais de pai fosse proibido por Cristo, Estêvão jamais começaria sua defesa dessa maneira.

São Paulo também chama autoridades de pais

Quando Paulo faz sua defesa em Jerusalém, utiliza exatamente a mesma expressão.

"Irmãos e pais, ouvi agora minha defesa." (Atos 22,1)

Novamente aparece:

Ἄνδρες ἀδελφοὶ καὶ πατέρες

O mesmo vocabulário.

O mesmo respeito.

A mesma tradição.

Os primeiros cristãos chamavam seus sacerdotes de pais

Desde os primeiros séculos encontramos essa prática.

São Jerônimo escreve:

"Se chamamos pai àquele de quem recebemos a vida corporal, quanto mais deve ser chamado pai aquele por meio do qual nascemos para Cristo."

Fonte: São Jerônimo, Comentário à Carta aos Gálatas, Livro IV.

São João Crisóstomo afirma:

"Os sacerdotes receberam uma paternidade muito mais elevada do que a dos pais segundo a carne."

Fonte: São João Crisóstomo, Sobre o Sacerdócio, Livro III.

Para ele, os pais dão a vida natural.

Os sacerdotes colaboram para o nascimento da vida sobrenatural por meio do Batismo, da Palavra de Deus e dos sacramentos.

Santo Agostinho compreendia essa paternidade

Comentando seu ministério episcopal, Santo Agostinho afirma:

"Para vós sou bispo; convosco sou cristão."

Fonte: Santo Agostinho, Sermão 340.

Essa frase mostra duas realidades inseparáveis.

Como cristão, Agostinho é irmão dos fiéis.

Como bispo, exerce uma verdadeira paternidade espiritual.

Não existe oposição entre fraternidade e paternidade espiritual.

Ambas convivem harmoniosamente na Igreja.

São Tomás de Aquino explica a paternidade espiritual

São Tomás ensina que a paternidade espiritual é superior à biológica, porque conduz o homem à vida eterna.

Comentando a virtude da religião, escreve que aqueles que comunicam a vida espiritual merecem honra especial, pois cooperam com Deus na geração dos filhos para a graça.

Fonte: São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 102, a. 1; III, q. 22.

Não se trata de substituir Deus.

O sacerdote participa da obra de Deus.

Assim como um pai biológico participa da criação sem ocupar o lugar do Criador.

O Catecismo confirma a missão dos ministros ordenados

O Catecismo ensina que o sacerdote age em nome do próprio Cristo.

"No serviço eclesial do ministro ordenado, é o próprio Cristo que está presente à sua Igreja como Cabeça do seu Corpo, Pastor do seu rebanho, Sumo Sacerdote do sacrifício redentor e Mestre da Verdade."

Fonte: Catecismo da Igreja Católica, §1548.

E acrescenta:

"O sacerdote age in persona Christi Capitis, isto é, na pessoa de Cristo Cabeça."

Fonte: Catecismo da Igreja Católica, §1548.

É justamente por exercer essa missão de conduzir os filhos de Deus que, desde os primeiros séculos, os ministros da Igreja passaram a ser chamados de "pais", origem da palavra portuguesa "padre".

Padre significa pai

A palavra "padre" não foi inventada para dar um título de honra.

Ela deriva do latim pater, que significa simplesmente "pai".

Esse uso não pretende colocar o sacerdote no lugar de Deus.

Pelo contrário.

Reconhece que Deus é o único Pai por natureza e origem de toda a vida, enquanto o sacerdote participa, por graça e missão, da paternidade divina ao anunciar o Evangelho, administrar os sacramentos e conduzir os fiéis à vida eterna.

É exatamente a mesma lógica empregada por São Paulo quando afirmou aos coríntios:

"Fui eu quem vos gerou em Cristo Jesus por meio do Evangelho." (1 Coríntios 4,15)

Se o próprio Apóstolo se reconhecia como pai espiritual de seus filhos na fé, não há qualquer contradição em chamar de "padre" aqueles que continuam exercendo essa mesma missão na Igreja fundada por Cristo.

Conclusão

A acusação de que os católicos desobedecem a Jesus ao chamar um sacerdote de "padre" nasce de uma leitura isolada de Mateus 23,9, desconsiderando o contexto imediato, o restante das Escrituras e a Tradição Apostólica.

Jesus condenou o orgulho e a busca por honrarias, não o uso da palavra "pai". A própria Bíblia chama Abraão de pai, apresenta os profetas como pais espirituais, registra Santo Estêvão e São Paulo dirigindo-se às autoridades como "pais" e mostra São Paulo afirmando que gerou filhos para Cristo pelo Evangelho.

Desde os tempos apostólicos, a Igreja compreendeu que Deus é o único Pai em sentido absoluto, mas concede a alguns homens a missão de exercer uma autêntica paternidade espiritual em favor do seu povo. Chamar um sacerdote de "padre" é reconhecer essa missão, jamais atribuir-lhe o lugar que pertence exclusivamente ao Pai celeste.

A pergunta correta não é se existe a palavra "padre" na Bíblia, mas se existe o ministério que hoje chamamos de sacerdócio.

E a resposta é clara.

Cristo escolheu Apóstolos.

Os Apóstolos instituíram presbíteros e bispos.

Os presbíteros receberam imposição das mãos.

Celebravam a Eucaristia.

Perdoavam pecados em nome de Cristo.

Ungiam os enfermos.

Governavam a Igreja.

Transmitiam esse ministério aos seus sucessores.

É exatamente isso que a Igreja Católica continua fazendo há dois mil anos.

Quem olha honestamente para a Bíblia, para os escritos dos primeiros cristãos e para a história da Igreja percebe que o sacerdócio católico não é uma invenção humana, mas uma continuidade viva da missão que o próprio Cristo confiou aos Apóstolos para santificar, ensinar e conduzir o povo de Deus até o fim dos tempos.

Por que devo rezar urgentemente pela santificação dos Sacerdotes?

Os sacerdotes são nossos pais espirituais. Sem eles, não temos Jesus nos sacramentos. Eles são verdadeiros amigos que esclarecem nossa mente para a Verd...

O que a palavra “padre” significa e onde ela está na Bíblia?

E chamar o sacerdote de padre (pai) contraria a Bíblia? Os sacerdotes fazem parte do cristianismo desde o início, e suas raízes estão já no Antigo Testamen...