
O casamento cristão não é uma promessa de felicidade, mas uma promessa de entrega
Existe uma ideia de casamento muito difundida em nossos dias: duas pessoas se amam enquanto o relacionamento lhes proporciona felicidade, realização, prazer e segurança. Quando essas coisas desaparecem, começa a surgir a pergunta: “Ainda vale a pena continuar?”
O cristianismo apresenta uma lógica completamente diferente.
Para a Igreja Católica, o matrimônio não é simplesmente uma união entre duas pessoas que decidiram compartilhar uma vida. Entre os batizados, ele é sacramento. E o modelo desse amor não é o amor romântico moderno, mas o próprio Cristo crucificado.
É justamente por isso que a frase “estar disposto a morrer pelo seu amado” possui uma profundidade muito maior do que parece.
Não significa que alguém precise literalmente morrer pelo cônjuge para que o casamento seja válido. Significa que o verdadeiro consentimento matrimonial precisa conter uma disposição real de entrega total, definitiva e fiel, inclusive quando essa entrega exigir sacrifício.
São Paulo apresenta o padrão de maneira impressionante:
“Maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.”
Efésios 5,25
Cristo não amou a Igreja apenas quando ela era agradável.
Cristo entregou-se por ela.
Cristo sofreu por ela.
Cristo morreu por ela.
E São Paulo coloca exatamente esse amor como referência para o amor conjugal.
O verbo grego utilizado por São Paulo revela a radicalidade desse amor
No texto grego de Efésios 5,25 encontramos:
Οἱ ἄνδρες, ἀγαπᾶτε τὰς γυναῖκας, καθὼς καὶ ὁ Χριστὸς ἠγάπησεν τὴν ἐκκλησίαν καὶ ἑαυτὸν παρέδωκεν ὑπὲρ αὐτῆς.
“Maridos, amai as vossas mulheres, assim como também Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.”
O verbo ἀγαπᾶτε (agapâte) vem de ἀγαπάω (agapaō), o verbo associado ao amor de caridade, ao amor que busca o bem do outro.
Mas há uma expressão ainda mais impressionante:
ἑαυτὸν παρέδωκεν ὑπὲρ αὐτῆς
Literalmente, algo como:
“entregou a si mesmo por ela”.
ἑαυτόν significa “a si mesmo”.
παρέδωκεν significa “entregou”, “deu”, “entregou-se”.
ὑπὲρ αὐτῆς significa “por ela”, “em favor dela”.
Portanto, São Paulo não está simplesmente dizendo: “Marido, seja gentil com sua esposa”.
Ele está apresentando Cristo como o modelo do esposo que entrega a própria vida pelo bem da esposa.
É por isso que o casamento cristão não pode ser reduzido a compatibilidade, atração física, companheirismo ou conveniência.
Ele é uma escola de entrega.
“Até que a morte os separe” não é uma simples formalidade
Quando um homem e uma mulher assumem o matrimônio, não estão simplesmente dizendo:
“Eu ficarei com você enquanto você me fizer feliz.”
Também não estão dizendo:
“Eu ficarei com você enquanto nossas necessidades forem satisfeitas.”
O consentimento matrimonial é muito mais radical.
O Catecismo ensina que o matrimônio se fundamenta no consentimento dos esposos, isto é, na vontade de se darem mútua e definitivamente, para viver uma aliança de amor fiel e fecundo.
E o Catecismo explica que o amor conjugal possui uma característica de totalidade: envolve a pessoa inteira e exige “indissolubilidade e fidelidade no dom recíproco definitivo”. Catecismo da Igreja Católica, 1643.
Essa palavra é fundamental:
definitivo.
O casamento cristão não é um contrato de experiência.
É uma aliança.
O matrimônio é uma imagem do amor entre Cristo e a Igreja
Aqui está talvez a parte mais profunda de toda a doutrina católica sobre o casamento.
São Paulo continua:
“Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne. Grande é este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a Igreja.”
Efésios 5,31-32
A palavra grega utilizada para “mistério” é:
μυστήριον — mystērion
São Paulo está dizendo que a realidade do matrimônio possui uma dimensão que ultrapassa aquilo que os olhos conseguem enxergar.
O casamento cristão aponta para outra realidade.
O marido e a esposa tornam-se, de certo modo, um sinal visível de uma realidade invisível: Cristo e sua Igreja.
O Catecismo afirma:
“O sacramento do Matrimônio significa a união de Cristo com a Igreja.”
E acrescenta que o sacramento concede aos esposos a graça de se amarem com o amor com que Cristo amou sua Igreja. Catecismo da Igreja Católica, 1661.
Isso muda completamente a maneira de enxergar o casamento.
O marido não deve olhar para a esposa apenas como alguém que deve satisfazer suas necessidades.
A esposa não deve olhar para o marido apenas como alguém que deve satisfazer suas necessidades.
Ambos são chamados a perguntar:
“Como posso entregar minha vida para o bem daquele que Deus colocou ao meu lado?”
“Mas e se o outro não fizer o mesmo?”
Aqui aparece uma das maiores dificuldades do cristianismo.
É relativamente fácil amar quem nos ama.
Jesus, porém, apresenta um amor muito mais elevado:
“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.”
Mateus 5,44
E São Paulo diz:
“O amor é paciente, o amor é bondoso; não é invejoso, não é arrogante, não se ensoberbece.”
1 Coríntios 13,4
O amor cristão não depende simplesmente da reciprocidade imediata.
Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores.
“Deus demonstra seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores.”
Romanos 5,8
É exatamente essa lógica que São João Crisóstomo aplica ao casamento.
São João Crisóstomo: o marido deve estar disposto a dar a vida pela esposa
São João Crisóstomo, comentando Efésios 5,25, faz uma afirmação extraordinariamente forte.
Ele pergunta, em essência, se o marido deseja amar a esposa como Cristo amou a Igreja. Então responde que ele deve assumir o mesmo espírito de entrega de Cristo, chegando até a disposição de entregar a própria vida por ela.
Crisóstomo chega a dizer que, ainda que fosse necessário sofrer repetidamente por sua esposa, isso sequer seria comparável ao que Cristo fez pela Igreja, porque Cristo entregou-se por aqueles que se afastaram dele.
São João Crisóstomo, Homilia 20 sobre Efésios, comentário a Efésios 5,25.
Isso é extraordinário.
O casamento cristão não pergunta primeiro:
“Quanto essa pessoa vai fazer por mim?”
Pergunta:
“Quanto estou disposto a fazer pelo bem dela?”
O amor conjugal não é sentimento: é também vontade
Um dos grandes erros modernos é imaginar que amar significa necessariamente sentir constantemente paixão, entusiasmo e emoção.
A doutrina cristã é muito mais profunda.
Você pode não sentir a mesma emoção de dez anos atrás e ainda amar profundamente.
Você pode estar cansado e amar.
Pode estar frustrado e amar.
Pode precisar perdoar e amar.
Pode precisar sacrificar seus próprios desejos legítimos pelo bem do outro e amar.
O amor conjugal possui uma dimensão profundamente voluntária.
Por isso o consentimento matrimonial é tão importante.
São Tomás de Aquino explica que o consentimento é aquilo que constitui o matrimônio, porque é através dele que homem e mulher se unem matrimonialmente. Suma Teológica, Suplemento, questão 45, artigo 1.
E São Tomás afirma algo particularmente importante: o consentimento matrimonial possui como objeto um vínculo permanente. Um consentimento que fosse simplesmente temporário não corresponderia à natureza do matrimônio. Suma Teológica, Suplemento, questão 49.
Isso significa que, quando alguém diz “eu aceito você como meu esposo” ou “eu aceito você como minha esposa”, não está simplesmente expressando uma emoção.
Está realizando uma entrega.
Santo Agostinho e os três bens do matrimônio
Santo Agostinho refletiu profundamente sobre a natureza do casamento.
Ele identificou três grandes bens próprios do matrimônio: a descendência, a fidelidade e o vínculo sacramental.
Ele fala da prole, da fidelidade e do sacramento ou vínculo conjugal como elementos fundamentais do matrimônio. Santo Agostinho, De bono coniugali, cap. 24; também De peccatorum meritis et remissione, II, 27.
A fidelidade, portanto, não é um detalhe secundário.
É parte da própria estrutura do casamento.
E Agostinho insiste que o vínculo matrimonial não desaparece simplesmente porque surgiram dificuldades, nem porque o relacionamento deixou de proporcionar prazer.
Ele chama atenção para a permanência do vínculo matrimonial mesmo diante de situações extremamente dolorosas.
“Uma só carne” significa muito mais do que relação sexual
Quando Gênesis afirma:
“Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe, se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne.”
Gênesis 2,24
A expressão hebraica בָּשָׂר אֶחָד — basar echad significa literalmente “uma só carne”.
Jesus retoma essa passagem:
“Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe.”
Mateus 19,6
No grego do Evangelho encontramos:
οὐκέτι εἰσὶν δύο, ἀλλὰ μία σάρξ
“Já não são dois, mas uma só carne.”
E Cristo acrescenta:
ὃ οὖν ὁ Θεὸς συνέζευξεν, ἄνθρωπος μὴ χωριζέτω
“Aquilo que Deus uniu, não o separe o homem.”
A palavra συνέζευξεν — synezeuxen, utilizada por Cristo, vem de uma ideia de colocar sob o mesmo jugo, unir conjuntamente.
Não é simplesmente “duas pessoas que decidiram morar juntas”.
É uma união estabelecida diante de Deus.
O casamento cristão passa necessariamente pela cruz
Aqui está uma verdade que quase nunca aparece nas propagandas de casamento.
Casamento cristão envolve cruz.
O próprio Catecismo afirma que, diante da exigência da indissolubilidade matrimonial, Jesus não deixou os esposos abandonados às próprias forças. Ele lhes concede a graça necessária para viver essa realidade.
O Catecismo explica que os esposos conseguem compreender e viver o matrimônio seguindo Cristo, renunciando a si mesmos e tomando sua cruz. Catecismo da Igreja Católica, 1615.
Isso é fundamental.
A cruz não significa que um casamento saudável deva ser marcado por abuso, violência ou sofrimento provocado deliberadamente.
Não significa que alguém tenha obrigação de permanecer em uma situação de violência doméstica.
Significa que o amor verdadeiro inevitavelmente exige renúncia.
Às vezes será necessário renunciar ao orgulho.
Às vezes à necessidade de sempre estar certo.
Às vezes ao desejo de vingança.
Às vezes ao egoísmo.
Às vezes ao conforto.
Às vezes será necessário perdoar.
E algumas vezes será necessário sofrer para permanecer fiel a uma promessa feita diante de Deus.
O matrimônio pode ser nulo se um dos dois não estava disposto a “morrer pelo outro”?
Essa pergunta precisa de uma resposta cuidadosa, porque existe uma diferença importante entre não possuir uma disposição emocional heroica de morrer pelo cônjuge e não querer verdadeiramente assumir aquilo que o matrimônio cristão é.
A resposta católica, portanto, é:
Não. O simples fato de uma pessoa não ter, no momento do casamento, a disposição psicológica de literalmente morrer pelo outro não torna automaticamente o matrimônio nulo.
Mas existe uma situação muito mais séria.
Se, no momento do consentimento, uma pessoa excluía deliberadamente a própria essência do matrimônio, sua indissolubilidade, sua fidelidade ou alguma obrigação essencial da vida conjugal, então pode existir fundamento para uma declaração de nulidade.
E aqui entramos no coração da questão.
A Igreja não pergunta simplesmente: “Você estava disposto a morrer?”
A Igreja não possui como requisito de validade matrimonial uma espécie de teste psicológico dizendo:
“Você morreria pelo seu marido?”
“Você morreria pela sua esposa?”
O Direito Canônico não estabelece isso.
O que a Igreja pergunta é muito mais profundo:
Você realmente quis se entregar matrimonialmente a essa pessoa?
O Código de Direito Canônico afirma:
“O consentimento matrimonial é um ato da vontade pelo qual o homem e a mulher, por uma aliança irrevogável, se dão e se aceitam mutuamente para constituir o matrimônio.”
Código de Direito Canônico, cân. 1057 §2.
Portanto, o núcleo da questão não é o sentimento de heroísmo.
É o ato da vontade.
O consentimento é aquilo que “faz” o matrimônio
O Catecismo da Igreja Católica é absolutamente claro:
“A Igreja considera a permuta dos consentimentos entre os esposos como o elemento indispensável ‘que constitui o Matrimónio’.”
Catecismo da Igreja Católica, 1626.
E o Catecismo explica que o consentimento consiste em um ato pelo qual os esposos se dão e se recebem mutuamente.
Isso é importantíssimo para compreender a nossa pergunta.
Quando um homem diz:
“Eu te recebo como minha esposa”,
e uma mulher diz:
“Eu te recebo como meu esposo”,
não estão simplesmente dizendo:
“Eu gosto muito de você.”
Estão realizando um ato da vontade.
Estão dizendo:
“Eu me entrego a você como esposo.”
“Eu te recebo como esposa.”
“Aceito constituir com você uma comunidade de toda a vida.”
É esse consentimento que constitui o matrimônio.
Então o que poderia tornar esse consentimento inválido?
Aqui aparece o cânon 1101 do Código de Direito Canônico.
A Igreja estabelece uma presunção muito importante:
“O consentimento interno da vontade presume-se conforme às palavras ou sinais empregados na celebração do matrimônio.”
Mas existe uma exceção:
“Se uma ou ambas as partes, por um ato positivo da vontade, excluem o próprio matrimônio, algum elemento essencial do matrimônio ou alguma propriedade essencial, contraem invalidamente.”
Código de Direito Canônico, cân. 1101 §1-2.
Aqui está a chave para responder à pergunta.
Não basta dizer:
“Eu era imaturo.”
“Eu tinha medo.”
“Eu não compreendia completamente o que era o casamento.”
“Eu não imaginava que seria tão difícil.”
“Eu não sentia que morreria por ela.”
Essas coisas, isoladamente, não demonstram nulidade.
É necessário investigar se existia, no momento do casamento, algum problema que atingisse verdadeiramente o consentimento matrimonial.
E se a pessoa já pensava: “Se ficar difícil, eu vou embora”?
Aqui a questão começa a ficar mais delicada.
Imagine alguém que, antes do casamento, pensasse:
“Eu vou casar, mas se um dia eu deixar de gostar dela, considero que estou livre para abandonar o casamento.”
Isso pode ser muito mais sério.
Por quê?
Porque a pessoa pode ter entrado no casamento excluindo interiormente a indissolubilidade.
O matrimônio católico não é:
“Eu prometo ficar com você enquanto eu quiser.”
É uma aliança irrevogável.
O Código de Direito Canônico afirma que a indissolubilidade é uma propriedade essencial do matrimônio. Cân. 1056.
E o Catecismo ensina que o consentimento matrimonial é uma entrega mútua e definitiva para uma aliança de amor fiel e fecundo.
Portanto, existe uma diferença gigantesca entre:
“Eu não sei se conseguirei suportar qualquer sofrimento futuro.”
e:
“Eu já decidi que não assumirei um vínculo para toda a vida; se deixar de ser conveniente, vou embora.”
A segunda situação pode levantar uma questão real sobre o consentimento.
O problema não é falta de coragem: é exclusão daquilo que o matrimônio é
Imagine dois homens.
O primeiro pensa:
“Eu amo minha futura esposa. Quero permanecer com ela para sempre. Espero que Deus me dê força para enfrentar as dificuldades. Não sei como reagirei diante de um sofrimento extremo, mas quero ser fiel.”
Isso, por si só, não constitui nulidade.
Agora imagine o segundo:
“Eu vou casar, mas não aceito que esse vínculo seja para sempre. Se aparecer outra mulher que eu prefira, quero poder abandonar minha esposa.”
Aqui existe uma questão completamente diferente.
Esse homem pode estar externamente dizendo:
“Eu te recebo como minha esposa.”
Mas interiormente sua vontade pode estar dizendo:
“Eu não aceito a indissolubilidade.”
E o cânon 1101 trata precisamente da exclusão voluntária do matrimônio ou de uma de suas propriedades essenciais.
E se os dois pensavam assim?
A situação poderia ser ainda mais grave.
Imagine que ambos tenham se casado pensando:
“Vamos ficar juntos enquanto funcionar.”
“Se não der certo, cada um segue sua vida.”
“Não acredito realmente que o casamento seja para sempre.”
Se essa concepção não fosse simplesmente uma ignorância teórica, mas estivesse acompanhada de uma decisão positiva da vontade de excluir a indissolubilidade, poderia existir fundamento para investigar uma possível nulidade.
Perceba a palavra fundamental:
investigar.
Não significa que alguém simplesmente diga:
“Meu ex-marido não queria morrer por mim, portanto nosso casamento era nulo.”
Não funciona assim.
A Igreja precisa examinar concretamente aquilo que existia no momento da celebração.
A diferença entre erro e vontade
Existe outro detalhe extremamente importante.
O Código de Direito Canônico afirma que um erro sobre a unidade, a indissolubilidade ou a dignidade sacramental do matrimônio não invalida necessariamente o consentimento, desde que esse erro não determine a vontade.
Cânon 1099.
Isso significa que uma pessoa pode ter uma compreensão imperfeita da doutrina católica e, ainda assim, ter contraído validamente.
Por exemplo:
“Eu não conheço profundamente a teologia do sacramento do matrimônio, mas quero me casar com você para sempre, ser fiel e constituir uma família.”
Essa pessoa não precisa ser teóloga para se casar validamente.
O problema surge quando aquilo que ela pensa determina efetivamente sua vontade.
Por exemplo:
“Eu não aceito que o casamento seja indissolúvel e, por isso, desde agora decido que poderei rompê-lo quando quiser.”
Aí a questão muda.
São Tomás de Aquino ajuda a entender essa diferença
São Tomás de Aquino ensina que o matrimônio é constituído pelo consentimento.
Não é simplesmente a cerimônia externa que cria o vínculo.
O elemento essencial está no consentimento matrimonial.
São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Suplemento, q. 45, trata precisamente daquilo que constitui o matrimônio e da importância do consentimento.
Isso explica por que duas pessoas podem pronunciar exatamente as mesmas palavras diante do altar, mas a questão da validade dependerá também da realidade do consentimento que essas palavras expressam.
E se a pessoa amava o outro, mas era extremamente egoísta?
Isso também não significa automaticamente nulidade.
Uma pessoa pode ser egoísta.
Pode ser imatura.
Pode ser narcisista.
Pode ter dificuldade de perdoar.
Pode ter pouca capacidade de sacrifício.
Pode ter uma visão superficial do casamento.
Tudo isso pode ser gravemente prejudicial à vida conjugal.
Mas a Igreja não transforma automaticamente todo defeito moral em causa de nulidade.
A pergunta é outra:
Esse defeito tornava a pessoa incapaz de assumir as obrigações essenciais do matrimônio ou fazia com que ela excluísse voluntariamente aquilo que estava prometendo?
O cânon 1095, por exemplo, trata daqueles que não podem assumir as obrigações essenciais do matrimônio por causas de natureza psíquica, além de situações de grave falta de discernimento sobre os direitos e deveres essenciais do casamento.
Portanto, existe uma diferença entre:
“Eu não fui um bom marido.”
e:
“Eu era incapaz de assumir as obrigações essenciais do matrimônio.”
A primeira afirmação não significa automaticamente nulidade.
A segunda pode, dependendo das circunstâncias e das provas, constituir matéria para um processo de nulidade.
A Igreja presume que o casamento é válido
Esse ponto é muito importante para evitar uma conclusão precipitada.
O Código de Direito Canônico estabelece:
“O matrimônio goza do favor do direito; por isso, em caso de dúvida, deve-se manter a validade do matrimônio até que se prove o contrário.”
Cânon 1060.
Portanto, a Igreja não parte da seguinte lógica:
“Eles se separaram? Então provavelmente o casamento era nulo.”
Muito pelo contrário.
Parte-se da presunção de validade.
É necessário demonstrar que havia um defeito existente no momento da celebração.
A nulidade não é um “divórcio católico”
Aqui precisamos fazer uma distinção fundamental.
Divórcio significa:
“O casamento existia, mas foi dissolvido.”
Nulidade matrimonial significa:
“Depois da investigação, a Igreja reconhece que aquele vínculo matrimonial nunca chegou a existir validamente.”
O Catecismo utiliza precisamente essa linguagem:
“A Igreja pode, depois de examinada a situação pelo tribunal eclesiástico competente, declarar a nulidade do Matrimônio, ou seja, que o Matrimônio nunca existiu.”
Catecismo da Igreja Católica, 1629.
Por isso, não se deve dizer simplesmente:
“A Igreja anulou meu casamento.”
A linguagem teologicamente mais precisa é:
“A Igreja declarou a nulidade daquele matrimônio.”
Ou seja, reconheceu que havia um defeito que impediu que o vínculo matrimonial surgisse validamente.
Então voltamos à pergunta inicial
“O matrimônio pode ser nulo porque um dos dois não estava disposto a morrer pelo outro?”
Não simplesmente por isso.
A Igreja não exige que o noivo ou a noiva tenha, no momento do casamento, uma disposição emocional consciente de literalmente morrer pelo outro.
A expressão “morrer pelo amado” é uma maneira espiritual e teológica de explicar a radicalidade do amor matrimonial cristão.
O que é essencial para a validade é que exista um verdadeiro consentimento matrimonial, livre e consciente, dirigido à constituição de uma união conjugal verdadeira, com suas propriedades e elementos essenciais.
Mas há uma conclusão muito importante:
Se “não estou disposto a morrer por você” significava, na realidade, “não estou disposto a me entregar definitivamente a você”, “não aceito a fidelidade”, “não aceito a indissolubilidade” ou “não quero assumir as obrigações essenciais do matrimônio”, então a situação pode ser muito mais séria.
Nesse caso, pode existir matéria para investigar uma possível nulidade.
O verdadeiro teste não é “você morreria?”
Talvez possamos reformular a pergunta de maneira mais precisa.
Não pergunte:
“Você estava disposto a morrer pelo seu amado?”
Pergunte:
“Quando você disse ‘sim’, você realmente queria constituir com aquela pessoa uma comunidade de toda a vida, fiel, exclusiva, indissolúvel e aberta aos deveres próprios do matrimônio?”
Essa é a pergunta que toca o coração da questão.
Porque uma pessoa pode dizer:
“Eu não sei se teria coragem de morrer fisicamente por você.”
E ainda assim possuir um consentimento matrimonial perfeitamente verdadeiro.
Mas se disser:
“Eu nunca quis realmente pertencer a você de maneira definitiva; só aceitei casar enquanto fosse conveniente para mim”, então estamos diante de uma realidade muito diferente.
Cristo não exige que você saiba antecipadamente como enfrentará todas as cruzes
Existe ainda uma consolação importante.
Quando você se casa, você não precisa saber exatamente como reagirá diante de cada sofrimento futuro.
Ninguém sabe.
Você não sabe como reagirá diante de uma doença grave.
Não sabe como reagirá diante de dificuldades financeiras.
Não sabe como reagirá diante da velhice.
Não sabe como reagirá diante de uma grande crise.
O sacramento não exige que você tenha previamente demonstrado uma espécie de heroísmo perfeito.
O que você precisa fazer é entregar verdadeiramente sua vontade a Deus e ao próprio compromisso matrimonial.
Depois, ao longo da vida, a graça de Deus o ajudará a viver aquilo que prometeu.
É justamente por isso que o Catecismo ensina que Cristo concede aos esposos a graça necessária para viver as exigências do matrimônio.
A grande pergunta que fica
Talvez, então, a frase mais correta para o artigo seja esta:
O matrimônio não é necessariamente nulo porque você não sabia se conseguiria morrer pelo seu amado.
Mas pode haver um problema de validade se, no momento em que disse “sim”, você já tivesse decidido não entregar verdadeiramente sua vida ao outro segundo aquilo que o matrimônio essencialmente exige.
Porque o altar não exige que você saiba prever todas as suas futuras ações.
O altar exige que o seu “sim” seja realmente um “sim”.
E foi exatamente isso que Cristo ensinou:
“Seja o vosso falar: ‘Sim, sim’; ‘Não, não’.”
Mateus 5,37
No matrimônio cristão, o “sim” não é simplesmente uma palavra pronunciada diante do sacerdote.
É uma decisão da vontade.
É uma entrega.
É uma aliança.
E é por isso que São Paulo pode colocar diante dos esposos o modelo mais radical de todos:
“Maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.”
Efésios 5,25
O objetivo do matrimônio cristão não é que você tenha certeza de que conseguiria morrer pelo outro.
É que, quando chegar a hora de escolher entre o egoísmo e o amor, você aprenda, pela graça de Cristo, a escolher o amor.
E talvez seja justamente aí que o casamento começa a revelar o mistério da cruz.
O marido não é chamado a dominar, mas a entregar-se
Existe um detalhe extremamente importante em Efésios 5.
Algumas pessoas leem apenas:
“A mulher esteja sujeita ao seu marido.”
Mas ignoram aquilo que vem imediatamente antes:
“Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo.”
Efésios 5,21
E, quando São Paulo fala diretamente aos maridos, não diz simplesmente:
“Governem suas esposas.”
Ele diz:
“Amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.”
Efésios 5,25
A autoridade cristã é inseparável do serviço.
São João Crisóstomo percebeu isso claramente.
Em sua homilia sobre Efésios, ele explica que, se o marido deseja que sua esposa o respeite, deve assumir sobre si a medida do amor de Cristo: cuidar dela, suportá-la e estar disposto a sofrer por ela. Homilia 20 sobre Efésios.
O marido cristão não recebe uma autorização para ser tirano.
Recebe uma vocação para ser servo.
Cristo reina da cruz.
E a esposa também é chamada à mesma lógica de entrega
Isso também precisa ser dito.
O ideal cristão não transforma o marido em único responsável pelo sacrifício.
São Paulo começa dizendo:
“Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo.”
Efésios 5,21
E São João Crisóstomo observa que cada um possui seus próprios deveres dentro do matrimônio e que o amor deve sustentar a unidade conjugal.
A esposa também é chamada a amar.
Também é chamada a perdoar.
Também é chamada a sacrificar-se.
Também é chamada a buscar o bem do marido.
O matrimônio cristão não é uma competição para descobrir quem manda mais.
É uma competição para descobrir quem está mais disposto a amar.
São Paulo chega a comparar o casamento com o próprio corpo
Depois de falar que Cristo entregou-se pela Igreja, São Paulo escreve:
“Assim também os maridos devem amar suas mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama sua mulher ama a si mesmo.”
Efésios 5,28
E continua:
“Ninguém jamais odiou a sua própria carne; pelo contrário, alimenta-a e dela cuida.”
Efésios 5,29
Perceba a lógica.
Se marido e mulher são “uma só carne”, ferir deliberadamente o outro é, em certo sentido, ferir a própria unidade.
Por isso o casamento cristão exige uma conversão permanente do egoísmo para a comunhão.
O casamento não é válido porque existe uma festa bonita
É importante fazer uma distinção.
Dizer que o matrimônio exige uma disposição de entrega total não significa afirmar que alguém precisa sentir uma emoção perfeita ou possuir maturidade espiritual extraordinária no dia do casamento.
A validade do matrimônio possui requisitos objetivos, especialmente o consentimento verdadeiro, livre e matrimonialmente orientado.
São Tomás explica que o consentimento é fundamental para constituir o matrimônio. Suma Teológica, Suplemento, questão 45.
Por isso, uma pessoa que diz “sim” exteriormente, mas interiormente não quer realmente assumir o matrimônio, pode estar diante de uma questão séria de validade matrimonial. A Igreja inclusive reconhece que a ausência de verdadeiro consentimento pode atingir a própria existência do vínculo.
Portanto, o ponto não é:
“Você precisa sentir que morreria por essa pessoa.”
O ponto é:
“Você realmente pretende entregar-se a ela de maneira livre, fiel, definitiva e permanente?”
Essa é uma pergunta muito mais profunda.
O verdadeiro amor matrimonial deseja a salvação do outro
Existe ainda uma dimensão que frequentemente esquecemos.
Se o matrimônio é sinal da união de Cristo com a Igreja, então o maior bem que um esposo pode desejar para sua esposa não é simplesmente que ela seja rica, bonita, saudável ou feliz.
É que ela chegue ao céu.
E a maior coisa que uma esposa pode desejar para seu marido também não é simplesmente prosperidade ou sucesso profissional.
É a salvação dele.
São Paulo diz que Cristo amou a Igreja e se entregou por ela:
“a fim de santificá-la.”
Efésios 5,26
Cristo não morreu simplesmente para tornar a Igreja confortável.
Ele entregou-se para santificá-la.
O casamento cristão possui, portanto, uma dimensão profundamente espiritual: marido e mulher são chamados a ajudar-se mutuamente no caminho da santidade.
O Catecismo ensina que a graça do sacramento aperfeiçoa o amor humano dos esposos, fortalece sua unidade indissolúvel e os santifica no caminho da vida eterna. Catecismo da Igreja Católica, 1661.
Quando você diz “sim”, você está dizendo muito mais do que “eu te amo”
Talvez essa seja a maior provocação que podemos fazer a um casal.
Quando você diz:
“Eu te amo.”
Você pode estar falando de um sentimento.
Mas quando você diz:
“Eu te aceito como meu esposo.”
Você está dizendo:
“Eu entrego minha vida a você.”
“Eu escolho você.”
“Eu permanecerei fiel.”
“Eu não estou entrando nesta aliança apenas enquanto for conveniente.”
“Eu aceito caminhar com você também nas dificuldades.”
“Eu aceito envelhecer com você.”
“Eu aceito cuidar de você.”
“Eu aceito ser cuidado por você.”
“Eu aceito buscar o seu bem.”
“Eu aceito carregar minha cruz ao seu lado.”
E, no horizonte mais profundo do cristianismo:
“Se for necessário, estou disposto a entregar minha própria vida por você.”
É exatamente aí que o matrimônio começa a se parecer com Cristo.
O casamento cristão é uma espécie de martírio cotidiano
Nem todo esposo será chamado a morrer fisicamente pela esposa.
Nem toda esposa será chamada a morrer fisicamente pelo marido.
Mas ambos serão chamados muitas vezes a morrer para si mesmos.
Morrer para o orgulho.
Morrer para o egoísmo.
Morrer para a necessidade de vencer todas as discussões.
Morrer para a vingança.
Morrer para o individualismo.
Morrer para a tentação de abandonar tudo simplesmente porque ficou difícil.
Essa morte para si mesmo é profundamente evangélica.
Jesus disse:
“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.”
Mateus 16,24
E essa palavra também precisa entrar dentro da casa.
Porque não existe casamento cristão sem conversão.
O segredo talvez esteja nesta pergunta
Em vez de perguntar:
“Meu marido ainda me faz feliz?”
“Minha esposa ainda é como antes?”
“Será que encontrei a pessoa perfeita?”
Talvez o cristão devesse perguntar:
“Estou amando esta pessoa como Cristo me ensinou a amar?”
Essa pergunta muda tudo.
Porque o amor cristão não começa perguntando quanto receberá.
Começa perguntando quanto poderá entregar.
São João Crisóstomo compreendeu isso de maneira extraordinária quando explicou que o marido deve amar a esposa tomando Cristo como medida de seu amor, inclusive estando disposto a sofrer por ela. Homilia 20 sobre Efésios.
E Santo Agostinho recorda que entre os bens fundamentais do matrimônio está justamente a fidelidade e o vínculo sacramental.
O matrimônio aponta para a maior história de amor de todas
No fim, o matrimônio cristão só pode ser plenamente compreendido olhando para o Calvário.
Cristo não ficou com a Igreja porque ela era perfeita.
Ele entregou-se para santificá-la.
Ele não escolheu o caminho mais confortável.
Escolheu a cruz.
E São Paulo olha para essa cruz e diz aos esposos:
“Amai como Cristo amou.”
É por isso que a afirmação “o matrimônio só é válido quando você está disposto a morrer pelo seu amado” precisa ser entendida corretamente.
Não é uma fórmula jurídica para a validade do sacramento.
Não significa que uma pessoa precise possuir uma emoção heroica no altar.
Mas expressa uma verdade espiritual profunda:
quem realmente consente em um matrimônio cristão consente em uma entrega que não coloca condições de duração baseadas no conforto, na conveniência ou na ausência de sofrimento.
O matrimônio cristão é uma aliança de amor fiel, definitivo e fecundo.
É uma vocação para a santidade.
É uma escola de sacrifício.
É uma comunhão de vida.
É uma imagem da união entre Cristo e a Igreja.
E, quando um esposo olha para sua esposa e consegue dizer não apenas “eu quero você”, mas “eu quero o seu bem, quero a sua santidade e estou disposto a entregar minha vida por você”, ele começa a compreender aquilo que São Paulo quis dizer quando escreveu:
“Maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.”
Efésios 5,25
Talvez seja essa a diferença entre um casamento construído sobre sentimentos e um matrimônio construído sobre uma aliança.
O primeiro pergunta:
“O que você pode fazer por mim?”
O segundo pergunta:
“O que eu posso entregar por você?”
E é justamente nessa segunda pergunta que o amor humano começa a revelar algo do amor de Cristo.
Fontes para aprofundamento
Sagradas Escrituras: Gênesis 2,24; Mateus 5,44; Mateus 16,24; Mateus 19,4-6; Romanos 5,8; 1 Coríntios 13,4-7; Efésios 5,21-33.
Catecismo da Igreja Católica: §§ 1601, 1614-1617, 1643-1646, 1659-1662.
Santo Agostinho: De bono coniugali; De nuptiis et concupiscentia, especialmente os textos sobre os bens do matrimônio, fidelidade e vínculo sacramental.
São João Crisóstomo: Homilia XX sobre a Epístola aos Efésios, comentário a Efésios 5,22-33.
São Tomás de Aquino: Suma Teológica, Suplemento, questões 42, 44, 45, 47 e 49, sobre o sacramento, definição, consentimento, liberdade e vínculo matrimonial.
Concílio de Trento: Sessão XXIV, especialmente o decreto Tametsi, sobre o sacramento do matrimônio e sua disciplina.
São Paulo VI: Humanae vitae, especialmente sobre o amor conjugal e suas características.
São João Paulo II: Familiaris consortio, especialmente sobre a vocação da família cristã e o amor conjugal.






















