
No capítulo 10 do Evangelho de João, Jesus não está apenas contando uma história bonita. Ele está fazendo uma denúncia. A linguagem é pastoral, mas o conteúdo é profundamente teológico e, ao mesmo tempo, direto: existem pastores verdadeiros e falsos, existe um perigo real para o rebanho, e existe uma diferença clara entre quem ama as ovelhas e quem apenas se aproveita delas.
Para entender quem são o lobo e o mercenário, é preciso ler o texto com atenção, à luz da Tradição da Igreja, da Patrística e do Magistério.
O texto bíblico: o Bom Pastor em contraste
O trecho central diz:
“O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo aproximar-se, abandona as ovelhas e foge — e o lobo as arrebata e dispersa.” (Jo 10,12)
No original grego:
“ὁ μισθωτὸς καὶ οὐκ ὢν ποιμήν… θεωρεῖ τὸν λύκον ἐρχόμενον καὶ ἀφίησιν τὰ πρόβατα καὶ φεύγει· καὶ ὁ λύκος ἁρπάζει αὐτὰ καὶ σκορπίζει.”
Algumas palavras-chave ajudam muito:
μισθωτός (misthōtós) = mercenário, aquele que trabalha por salário
λύκος (lýkos) = lobo
ποιμήν (poimēn) = pastor verdadeiro
Jesus está estabelecendo um contraste direto entre Ele mesmo e aqueles que não têm amor real pelo rebanho.
Quem é o mercenário?
Uma definição bíblica e teológica
O mercenário é aquele que exerce uma função religiosa ou espiritual, mas sem caridade verdadeira. Ele não pertence ao rebanho, ou seja, não está comprometido com a salvação das almas.
Ele pode até parecer pastor, mas sua motivação é externa: dinheiro, prestígio, poder ou comodidade.
Interpretação dos Padres da Igreja
Santo Agostinho comenta diretamente esse trecho:
“O mercenário busca o que é seu, não o que é de Cristo.”
Fonte: Tractatus in Ioannem, 46,5
Agostinho explica que o mercenário não é necessariamente um herege explícito. Muitas vezes, ele está dentro da Igreja, mas seu coração está fora dela.
São Gregório Magno aprofunda:
“Aquele que apascenta o rebanho por amor ao lucro e não por amor às ovelhas é um mercenário.”
Fonte: Homiliae in Evangelia, II, 14
Ou seja, o problema não é apenas o erro doutrinal, mas a intenção corrompida.
Catecismo da Igreja Católica
O Catecismo reforça a responsabilidade dos pastores:
“Os ministros devem exercer seu serviço como um verdadeiro serviço.”
Fonte: Catecismo da Igreja Católica, §876
E também alerta contra o escândalo:
“O escândalo adquire uma gravidade particular pela autoridade daqueles que o causam.”
Fonte: §2285
O mercenário, portanto, é aquele que falha justamente onde deveria proteger.
Quem é o lobo?
A imagem bíblica do inimigo
Na Escritura, o lobo representa uma ameaça ativa e destruidora. Não é passivo. Ele ataca, dispersa e devora.
Jesus já havia alertado:
“Cuidado com os falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes.” (Mt 7,15)
No grego:
“λύκοι ἅρπαγες” (lýkoi hárpages) = lobos que roubam, que arrebatam
Interpretação patrística
São João Crisóstomo identifica o lobo com forças espirituais e humanas:
“O lobo são os demônios e também aqueles homens que destroem a fé.”
Fonte: Homiliae in Ioannem
Ou seja, o lobo pode agir de duas formas:
Espiritualmente: o demônio e suas tentações
Humanamente: hereges, perseguidores e falsos mestres
Tradição teológica
São Tomás de Aquino explica que o lobo representa:
“aqueles que, pela violência ou pelo erro, afastam os fiéis da verdade.”
Fonte: Catena Aurea sobre João 10
Isso inclui:
Heresias
Ideologias contrárias à fé
Perseguições externas à Igreja
A relação entre o lobo e o mercenário
Aqui está o ponto mais profundo da parábola.
O lobo ataca. O mercenário foge.
O problema não é só a existência do mal — isso sempre existirá. O problema é a ausência de quem deveria resistir ao mal.
Santo Agostinho faz uma leitura contundente:
“O lobo vem, e o mercenário foge, porque não ama.”
Fonte: Tractatus in Ioannem, 46
Ou seja, o amor é o critério definitivo. Onde não há caridade pastoral, há abandono.
O Bom Pastor: o verdadeiro contraste
Jesus deixa claro:
“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas.” (Jo 10,11)
No grego:
“ὁ ποιμὴν ὁ καλὸς τὴν ψυχὴν αὐτοῦ τίθησιν ὑπὲρ τῶν προβάτων”
Aqui está a diferença absoluta:
O mercenário preserva a si mesmo
O Bom Pastor se entrega
São Cipriano de Cartago reforça:
“Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe.”
Fonte: De unitate Ecclesiae
O verdadeiro pastor, unido a Cristo, protege a Igreja mesmo com a própria vida.
Aplicação prática: isso ainda acontece hoje?
Sim, e de forma muito concreta.
O lobo continua existindo sob várias formas:
Relativismo moral
Ataques à fé cristã
Falsas doutrinas
O mercenário também:
Líderes que evitam a verdade para agradar
Omissão diante do erro
O uso da religião para interesses pessoais
O ensinamento de João 10 não é apenas histórico — é atual.
O papel do lobo: agente de dispersão e destruição espiritual
Quando Jesus fala do lobo em João 10, Ele não está criando um elemento decorativo na parábola. O lobo tem uma função clara: dispersar, ferir e destruir o rebanho. Ele não negocia, não dialoga, não poupa — ele ataca.
O próprio texto diz:
“o lobo as arrebata e dispersa” (Jo 10,12)
No grego:
“ὁ λύκος ἁρπάζει αὐτὰ καὶ σκορπίζει”
Aqui aparecem dois verbos fortes:
ἁρπάζει (harpázei): arrancar com violência, tomar à força
σκορπίζει (skorpízei): espalhar, desunir, causar divisão
O lobo, portanto, não quer apenas ferir indivíduos, mas destruir a unidade do rebanho. E isso é essencial: na visão cristã, a fé não é vivida isoladamente, mas em comunhão.
O simbolismo do lobo na vida espiritual
A Tradição da Igreja sempre interpretou o lobo como uma realidade múltipla, não limitada a uma única figura.
São Gregório Magno ensina:
“Os lobos são aqueles que, sob aparência de piedade, devastam a vida dos fiéis.”
Fonte: Homiliae in Evangelia
Isso nos permite identificar três dimensões principais do lobo:
O lobo como o demônio
O primeiro e mais profundo sentido é espiritual. O lobo representa a ação do maligno que busca a perdição das almas.
São Pedro Apóstolo alerta:
“O vosso adversário, o diabo, anda ao redor como um leão que ruge, procurando a quem devorar.” (1Pd 5,8)
Embora use a imagem do leão, a lógica é a mesma: um predador espiritual.
O lobo como falsos mestres e heresias
Santo Irineu de Lião combateu fortemente esse tipo de “lobo”:
“Eles misturam o erro com a verdade para enganar mais facilmente.”
Fonte: Adversus Haereses
O perigo aqui não está na oposição explícita, mas na distorção sutil da verdade.
O lobo como forças culturais contrárias à fé
São Tomás de Aquino sintetiza:
“O erro que afasta da verdade é mais perigoso que a perseguição aberta.”
Fonte: Comentário ao Evangelho de João
Isso inclui ideologias, relativismo moral e qualquer sistema que dilua a verdade cristã.
O mercenário: a tragédia da omissão
Se o lobo representa o ataque, o mercenário representa a omissão.
Jesus descreve com precisão:
“vê o lobo… abandona as ovelhas e foge” (Jo 10,12)
O problema do mercenário não é ignorância, mas falta de compromisso. Ele vê o perigo — e escolhe não agir.
Por que o mercenário contrasta com o Bom Pastor?
A diferença entre o mercenário e Cristo não está na função externa, mas no coração.
Santo Agostinho explica:
“O pastor verdadeiro permanece, porque ama; o mercenário foge, porque teme perder o que é seu.”
Fonte: Tractatus in Ioannem
O mercenário vive uma religião utilitária. Ele serve enquanto é conveniente.
Já o Bom Pastor:
“dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10,11)
Essa entrega total é o critério definitivo.
Como essas figuras revelam os perigos para a fé
A parábola revela algo incômodo: o perigo para a fé não vem apenas de fora.
Existem dois níveis de ameaça:
A ameaça externa: o lobo
perseguições
falsas doutrinas
ataques diretos à Igreja
A ameaça interna: o mercenário
silêncio diante do erro
relativização da verdade
falta de zelo pastoral
São João Crisóstomo é direto:
“Nada enfraquece tanto a Igreja quanto pastores negligentes.”
Fonte: Homiliae
A combinação dos dois — lobo ativo e mercenário omisso — é devastadora.
A atualidade do ensinamento para a Igreja hoje
Seria um erro tratar essa parábola como algo distante.
Ela descreve com precisão o cenário atual.
O lobo continua presente:
confusão doutrinária
secularização agressiva
ataque à moral cristã
O mercenário também:
líderes que evitam temas difíceis
medo de desagradar
adaptação da verdade ao gosto do mundo
Papa Bento XVI advertiu:
“Quantos ventos de doutrina conhecemos nestas últimas décadas…”
Fonte: Homilia antes do conclave, 2005
Ele chama isso de “ditadura do relativismo” — uma forma moderna do lobo.
Um chamado ao discernimento e à vigilância
A parábola não foi dada apenas para criticar líderes, mas para formar o olhar dos fiéis.
O cristão é chamado a:
reconhecer a voz do verdadeiro Pastor
não seguir vozes estranhas
permanecer na verdade, mesmo quando é difícil
Como ensina o Catecismo:
“A fé é um dom que deve ser guardado e alimentado.”
Fonte: §162
No fim, o ensinamento sobre o lobo e o mercenário não é apenas um alerta — é um critério.
Cristo não deixa dúvida: onde há amor sacrificial, há pastor verdadeiro. Onde há abandono, há mercenário. Onde há destruição da verdade, ali está o lobo.
Conclusão: discernir para permanecer no rebanho
A parábola do Bom Pastor é um chamado ao discernimento.
O fiel precisa reconhecer:
A voz do verdadeiro pastor
O perigo dos lobos
A fragilidade dos mercenários
E, acima de tudo, permanecer unido a Cristo, que é o único Pastor perfeito.
Como diz o Catecismo:
“Cristo é o centro da vida da Igreja.”
Fonte: §426
No fim, a segurança das ovelhas não está na ausência de lobos, mas na fidelidade ao Pastor verdadeiro.
E a pergunta inevitável permanece: de quem eu estou ouvindo a voz?



















