Por que Jesus disse que apenas os violentos entrarão no Céu?


Será que a violência do Evangelho é contra os outros ou contra nós mesmos? O que significa conquistar o Céu com força e não com comodismo? Estamos dispostos a lutar contra o pecado com a mesma intensidade que lutamos por conquistas terrenas? Por que a santidade exige coragem e não passividade? Será que a verdadeira violência é a renúncia radical ao mundo e às próprias vontades? O Céu é herdado ou tomado pela força da fé? Quem ousa ser violento contra o mal dentro de si? A tibieza espiritual nos afasta mais do Céu do que qualquer perseguição externa?

“O Reino dos Céus é tomado à força”

Existe uma frase de Jesus que, à primeira vista, parece completamente estranha ao Evangelho.

Jesus é aquele que manda amar os inimigos, perdoar setenta vezes sete, apresentar a outra face e rejeitar a vingança. No entanto, Ele afirma:

“Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, e os violentos se apoderam dele.”

São Mateus 11,12.

Algumas traduções apresentam a frase de maneira ainda mais forte: “o Reino dos céus é tomado à força, e os que usam de força se apoderam dele”.

Então surge a pergunta inevitável:

Jesus está dizendo que precisamos ser violentos para entrar no Céu?

Precisamos usar força contra outras pessoas?

Precisamos conquistar o Reino de Deus pela agressividade?

A resposta católica é não.

Mas existe, sim, uma espécie de “violência” que o cristão precisa aprender a exercer.

E é justamente aqui que começa uma das interpretações espirituais mais profundas dessa passagem.

A palavra grega revela que o texto é difícil

No texto grego de Mateus 11,12 encontramos:

“ἡ βασιλεία τῶν οὐρανῶν βιάζεται, καὶ βιασταὶ ἁρπάζουσιν αὐτήν.”

Transliterando:

“hē basileía tōn ouranōn biázetai, kai biastaì harpázousin autḗn.”

Duas palavras são particularmente importantes: “βιάζεται” (biázetai) e “βιασταί” (biastaí).

A primeira vem do verbo grego “βιάζω” (biazō), relacionado à ideia de empregar força, pressionar, constranger ou exercer violência.

A segunda, “βιαστής” (biastēs), pode designar alguém que emprega força, alguém impetuoso ou determinado.

Já “ἁρπάζω” (harpazō), utilizado na segunda parte, significa agarrar, arrebatar, tomar ou apoderar-se.

É justamente essa construção que torna Mateus 11,12 um dos textos mais difíceis de traduzir e interpretar do Evangelho. Há diferentes possibilidades gramaticais e contextuais para entender se o Reino “sofre violência” ou se “avança com força”, e se os “violentos” são aqueles que atacam o Reino ou aqueles que o conquistam com determinação espiritual.

Por isso, não podemos simplesmente pegar uma tradução portuguesa e concluir:

“Jesus ensinou que pessoas violentas vão para o Céu.”

Isso seria exatamente o contrário daquilo que o restante do Evangelho ensina.

Jesus não está elogiando a violência contra o próximo

É impossível interpretar Mateus 11,12 como uma autorização para violência física ou agressão contra outras pessoas.

O próprio Jesus diz:

“Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.”

Mateus 5,5.

E também:

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.”

Mateus 5,9.

Quando Pedro tenta defender Jesus com a espada, Cristo o repreende:

“Guarda a tua espada, porque todos os que usam da espada, pela espada morrerão.”

Mateus 26,52.

E quando Jesus resume a Lei, Ele coloca no centro o amor:

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito.”

E acrescenta:

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Mateus 22,37-39.

O Catecismo é igualmente explícito. Ao comentar o Sermão da Montanha, ensina que Cristo não apenas reafirma o mandamento “Não matarás”, mas também condena a ira, o ódio e a vingança. Catecismo da Igreja Católica, §§ 2261-2262.

Portanto, a “violência” de Mateus 11,12 não pode significar simplesmente violência física contra o próximo.

Então o que significa?

A violência contra aquilo que nos afasta de Deus

Existe uma luta que acontece dentro do próprio homem.

São Paulo descreve essa realidade de maneira impressionante:

“Vejo, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei da minha razão e me prende à lei do pecado que está nos meus membros.”

Romanos 7,23.

E ainda:

“Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências.”

Gálatas 5,24.

Perceba a linguagem do Apóstolo.

“Luta.”

“Crucificaram.”

“Paixões.”

“Concupiscências.”

O cristianismo não apresenta a vida espiritual como uma caminhada em que simplesmente seguimos todos os nossos desejos.

Pelo contrário.

O discípulo precisa aprender a dizer “não” a si mesmo.

Jesus é ainda mais explícito:

“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”

Mateus 16,24.

Aqui encontramos a verdadeira “violência” espiritual.

Não é violência contra o outro.

É resistência contra o pecado.

É combate contra a própria soberba.

É domínio da própria vontade quando ela quer afastar-se de Deus.

É dizer “não” à tentação quando seria mais fácil dizer “sim”.

É permanecer fiel quando ninguém está olhando.

É levantar-se depois de cair.

É voltar para a confissão depois de pecar.

É abandonar uma ocasião de pecado mesmo quando aquilo custa.

É escolher Cristo quando o mundo oferece outra coisa.

“O Reino dos Céus sofre violência”

Existe uma interpretação tradicional entre os Padres da Igreja que enxerga nessa passagem justamente a necessidade de esforço, combate e determinação espiritual.

São Jerônimo, por exemplo, relaciona a passagem com a pregação de João Batista, que começou anunciando:

“Fazei penitência, porque está próximo o Reino dos Céus.”

Mateus 3,2.

Na tradição reunida por São Tomás de Aquino na “Catena Aurea”, São Jerônimo interpreta essa “violência” como algo extraordinário: nós, que somos terrenos por natureza, buscamos uma morada no Céu e procuramos alcançar aquilo que ultrapassa nossa condição natural.

Isso é muito importante.

O homem não entra no Céu porque simplesmente segue os próprios impulsos.

Ele precisa converter-se.

Precisa abandonar o pecado.

Precisa ordenar sua vida a Deus.

Precisa cooperar com a graça.

São João Crisóstomo: não é possível entrar por negligência

São João Crisóstomo é ainda mais direto.

Ao comentar Mateus 11,12, ele escreve que devemos desejar as coisas do alto com grande empenho, “tomando o reino pela força”, porque não é possível que alguém negligente entre nele.

Em outra homilia, Crisóstomo explica que não se trata de conquistar bens terrenos, mas de conquistar o Reino dos Céus.

E então afirma que é necessário zelo, porque não se chega ao Reino pela preguiça espiritual, mas pelo fervor.

Isso muda completamente a compreensão do versículo.

Jesus não está dizendo:

“Seja agressivo e você entrará no Céu.”

Está dizendo, em uma linguagem forte e provocativa:

“Não trate a salvação como algo sem importância.”

Quem realmente deseja o Reino precisa lutar.

Santo Agostinho e a violência contra nós mesmos

Santo Agostinho também utiliza Mateus 11,12 justamente para explicar a exigência radical do discipulado.

Ao comentar os ensinamentos de Cristo, ele relaciona essa “violência” com a dificuldade de colocar o Reino de Deus acima dos vínculos e dos bens temporais.

E isso combina perfeitamente com outra afirmação de Jesus:

“Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim.”

Mateus 10,37.

Jesus não está mandando odiar a família.

Está dizendo que Deus precisa ocupar o primeiro lugar.

É preciso violentar o nosso apego desordenado.

É preciso arrancar do coração aquilo que tomou o lugar de Deus.

São Gregório Magno: o pecador precisa romper com o pecado

Na tradição patrística reunida por São Tomás de Aquino, São Gregório Magno interpreta a passagem em relação à conversão do pecador.

O pecador, ao abandonar sua antiga vida e retornar a Deus pela penitência, realiza uma espécie de “violência” espiritual: rompe com aquilo que antes o dominava para buscar o Reino.

Isso explica por que a conversão verdadeira muitas vezes dói.

Quem está acostumado a determinado pecado pode sentir que abandonar aquele pecado é quase arrancar uma parte de si.

Mas é justamente isso que Jesus está pedindo.

Não porque o pecado seja bom.

Mas porque estamos tão apegados a ele que precisamos combatê-lo.

São Tomás de Aquino: existe uma guerra espiritual

São Tomás de Aquino faz uma aplicação extremamente interessante de Mateus 11,12 ao falar da virtude da fortaleza.

Ele explica que, na Nova Aliança, a luta necessária para alcançar a vida eterna não é uma guerra carnal para conquistar um território terrestre, mas um combate espiritual.

E relaciona Mateus 11,12 com as palavras de São Pedro:

“Sede sóbrios e vigiai. O vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como um leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé.”

1 Pedro 5,8-9.

São Tomás também relaciona isso com São Tiago:

“Resisti ao demônio, e ele fugirá de vós.”

Tiago 4,7.

Para São Tomás, portanto, existe uma verdadeira batalha espiritual.

O inimigo não é o nosso irmão.

O inimigo é o pecado.

O inimigo é a tentação.

O inimigo é aquilo que procura nos afastar de Deus.

O próprio Catecismo fala em “combate espiritual”

Aqui chegamos a um ponto extraordinariamente importante.

Não estamos inventando uma interpretação para tornar Mateus 11,12 mais confortável.

A própria Igreja Católica ensina que a vida cristã envolve combate.

O Catecismo afirma no parágrafo 2015:

“O caminho desta perfeição passa pela cruz. Não há santidade sem renúncia e combate espiritual.”

Catecismo da Igreja Católica, § 2015.

Veja a expressão utilizada pelo próprio Catecismo:

“combate espiritual”.

Portanto, quando Jesus fala da necessidade de uma “violência” relacionada ao Reino, estamos diante de uma realidade profundamente presente na espiritualidade católica.

O cristão precisa combater.

Precisa renunciar.

Precisa mortificar aquilo que é contrário a Deus.

Precisa perseverar.

Mas tudo isso acontece sustentado pela graça.

Não conquistamos o Céu pelas nossas próprias forças

Existe, entretanto, uma correção fundamental que precisa ser feita.

Dizer que o Reino deve ser “tomado à força” não significa que o homem compra sua salvação por seus próprios méritos.

A doutrina católica nunca ensinou isso.

A graça vem primeiro.

Deus chama.

Deus oferece a graça.

Deus converte.

Deus justifica.

Deus sustenta.

E o homem, movido pela graça, responde livremente.

O Catecismo ensina que a bem-aventurança eterna é um dom gratuito de Deus e que a graça conduz o homem à vida eterna. Catecismo da Igreja Católica, §§ 1726-1728.

Portanto, a “violência” espiritual não é uma tentativa de obrigar Deus a nos dar o Céu.

É a resposta determinada daquele que recebeu a graça e decidiu não voltar atrás.

“Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”

Jesus apresenta essa mesma ideia em outro texto:

“Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão.”

Lucas 13,24.

A palavra grega utilizada aqui é “ἀγωνίζεσθε” (agōnízesthe), do verbo “ἀγωνίζομαι” (agōnízomai).

É a origem da nossa palavra “agonizar” e está relacionada a lutar, combater, esforçar-se intensamente, entrar em uma disputa.

Jesus está novamente utilizando uma imagem de combate.

Não é passividade.

Não é indiferença.

Não é:

“Deus é amor, então posso viver como quiser.”

Jesus não ensina isso.

São Paulo também utiliza a linguagem de combate

São Paulo compreendeu perfeitamente essa dimensão da vida cristã.

Ele escreve:

“Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé.”

2 Timóteo 4,7.

No grego:

“τὸν καλὸν ἀγῶνα ἠγώνισμαι”

“ton kalon agōna ēgōnismai”.

Literalmente, existe a ideia de ter lutado o bom combate.

Paulo também diz:

“Todo atleta se impõe a si mesmo todo tipo de disciplina.”

1 Coríntios 9,25.

E continua:

“Castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado.”

1 Coríntios 9,27.

É uma linguagem extremamente forte.

São Paulo não está falando de violência contra outras pessoas.

Está falando de disciplina espiritual.

O cristão precisa aprender a dizer “não”

Essa talvez seja a aplicação mais prática de Mateus 11,12.

A pessoa quer assistir àquilo que sabe que alimenta sua impureza.

O cristão precisa dizer:

“Não.”

A pessoa quer alimentar uma vingança.

Precisa dizer:

“Não.”

A pessoa quer guardar rancor.

Precisa dizer:

“Não.”

A pessoa quer mentir para obter vantagem.

Precisa dizer:

“Não.”

A pessoa quer abandonar a oração porque está cansada.

Precisa perseverar.

A pessoa caiu em pecado.

Precisa levantar-se e voltar para Deus.

A pessoa está sendo tentada.

Precisa fugir da ocasião de pecado.

Isso é violência espiritual.

É a firmeza de quem decidiu que o pecado não terá a última palavra.

O Reino não é para quem não luta

Jesus nunca prometeu que seguiria seus discípulos por uma estrada confortável.

Ele disse:

“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.”

Lucas 9,23.

A palavra “renuncie” é decisiva.

O cristianismo não é simplesmente adicionar Jesus à nossa vida.

É colocar nossa vida inteira sob o senhorio de Jesus.

Por isso o Catecismo ensina que Jesus, ao anunciar o Reino, exige uma opção radical: para adquirir o Reino é necessário dar tudo, e as palavras precisam transformar-se em atos. Catecismo da Igreja Católica, § 546.

O grande inimigo pode estar dentro de nós

Existe uma frase de São Filipe Néri que ficou famosa na tradição espiritual:

“Senhor, desconfiai de Filipe.”

A ideia expressa uma verdade muito profunda: o homem precisa desconfiar de si mesmo quando sua própria vontade se afasta da vontade de Deus.

A batalha cristã começa dentro do coração.

Jesus disse:

“Do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, imoralidades sexuais, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.”

Mateus 15,19.

Por isso o Catecismo afirma que a luta contra a concupiscência passa pela purificação do coração e pela prática da temperança. Catecismo da Igreja Católica, §§ 2516-2520.

A verdadeira batalha começa aí.

Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres”

Uma das frases mais famosas atribuídas a Santo Agostinho é:

“Ama e faze o que quiseres.”

Santo Agostinho, In Epistulam Ioannis ad Parthos Tractatus, VII, 8.

Mas essa frase não significa:

“Faça qualquer coisa, porque Deus perdoa.”

O sentido é justamente o contrário.

Quando o amor de Deus realmente domina o coração, a vontade começa a ser transformada.

O homem que ama verdadeiramente a Deus não quer utilizar esse amor como desculpa para pecar.

Ele quer agradar Àquele que ama.

Santa Teresa de Ávila e a perseverança

Santa Teresa de Ávila escreveu uma das frases mais conhecidas da espiritualidade católica:

“Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, Deus não muda.”

Santa Teresa de Jesus, “Poesias”, poema “Nada te turbe”.

Essa espiritualidade combina perfeitamente com a “violência” de Mateus 11,12.

O violento do Evangelho não é necessariamente aquele que grita mais.

É aquele que não desiste de Deus.

Pode cair.

Pode sofrer.

Pode ser perseguido.

Pode experimentar tentações.

Pode atravessar períodos de aridez espiritual.

Mas continua caminhando.

O verdadeiro “violento” é aquele que não faz paz com o pecado

Essa talvez seja a melhor maneira de resumir o ensinamento.

O cristão precisa fazer paz com as pessoas.

Mas não pode fazer paz com o pecado.

Jesus manda perdoar o inimigo.

Mas não manda perdoar o pecado no sentido de considerá-lo aceitável.

Jesus manda amar o pecador.

Mas não manda amar aquilo que destrói o pecador.

Jesus manda oferecer misericórdia.

Mas também manda conversão:

“Vai e não peques mais.”

João 8,11.

Essa frase resume perfeitamente o equilíbrio católico entre misericórdia e verdade.

A violência cristã não destrói o outro; destrói o pecado

Existe uma diferença gigantesca.

A violência do mundo diz:

“Eu vou destruir você.”

A violência espiritual diz:

“Eu preciso destruir em mim aquilo que me separa de Deus.”

A violência do mundo nasce frequentemente do ódio.

A violência espiritual nasce do amor.

A violência do mundo procura dominar o outro.

A violência espiritual procura dominar a própria vontade desordenada.

A violência do mundo fere.

A violência espiritual cura, porque elimina aquilo que está destruindo a alma.

João Batista é um exemplo perfeito

Não é coincidência que Jesus comece a frase dizendo:

“Desde os dias de João Batista...”

Mateus 11,12.

João Batista não pregava conforto espiritual barato.

Ele dizia:

“Convertei-vos!”

Mateus 3,2.

E quando Herodes vivia em uma situação moralmente irregular, João não ficou calado.

Ele teve coragem de dizer:

“Não te é permitido tê-la.”

Mateus 14,4.

João Batista acabou pagando com a própria vida sua fidelidade à verdade.

Por isso Jesus o chama de grande profeta:

“Entre os nascidos de mulher, não surgiu outro maior que João Batista.”

Mateus 11,11.

Logo depois vem a declaração sobre a “violência” do Reino.

É como se Cristo estivesse mostrando que, desde João, o Reino está sendo anunciado em meio a uma batalha.

O Reino avança apesar da oposição

Existe ainda outra possibilidade importante na interpretação do texto.

Alguns estudiosos entendem Mateus 11,12 como uma referência à violência sofrida pelo próprio Reino.

O Reino chega, mas encontra resistência.

João é perseguido.

Jesus é perseguido.

Os discípulos serão perseguidos.

O mundo das trevas não recebe passivamente a chegada do Reino.

A própria Bíblia apresenta essa oposição.

São João escreve:

“A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.”

João 1,5.

E Jesus diz:

“Se me perseguiram, também vos perseguirão.”

João 15,20.

Assim, Mateus 11,12 pode ser compreendido dentro de uma tensão: o Reino chegou com Cristo, mas sua manifestação encontra oposição; ao mesmo tempo, aqueles que desejam entrar nele precisam responder com decisão, renúncia e perseverança.

A própria Bíblia de Jerusalém reconhece essa pluralidade de interpretações para Mateus 11,12, incluindo a ideia da renúncia exigida para entrar no Reino, a violência dos opositores e a expansão do Reino apesar dos obstáculos.

Então quem são os “violentos” que entram no Céu?

Não são os assassinos.

Não são os agressivos.

Não são os que usam a força contra os outros.

Não são os que humilham.

Não são os que vivem de vingança.

Não são os que transformam a religião em guerra contra pessoas.

Os “violentos” de Mateus 11,12, na leitura espiritual tradicional, são aqueles que levam a sério a própria salvação.

São aqueles que lutam contra o pecado.

São aqueles que dominam seus desejos desordenados.

São aqueles que perseveram na oração.

São aqueles que suportam perseguições por amor a Cristo.

São aqueles que renunciam ao que precisam renunciar.

São aqueles que, depois de cair, levantam-se novamente.

São aqueles que não negociam sua fidelidade a Deus.

São aqueles que entendem que o Céu vale mais do que qualquer prazer passageiro.

A porta é estreita porque o amor exige decisão

Jesus disse:

“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela.”

Mateus 7,13.

E acrescenta:

“Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que o encontram.”

Mateus 7,14.

Isso não significa que Deus deseja excluir pessoas do Céu.

Significa que existe uma incompatibilidade entre querer o Reino de Deus e escolher deliberadamente uma vida contrária a Deus.

Não podemos dizer:

“Quero o Céu, mas não quero abandonar o pecado.”

“Quero Cristo, mas não quero obedecer.”

“Quero a salvação, mas não quero conversão.”

“Quero Deus, mas quero colocar meus desejos acima da vontade dele.”

O Evangelho não apresenta essa possibilidade como verdadeira conversão.

A graça não elimina a luta; torna a luta possível

Aqui está talvez a maior diferença entre a espiritualidade católica e uma visão simplesmente voluntarista.

Não somos salvos porque somos fortes.

Somos salvos pela graça de Cristo.

Mas a graça não transforma o homem em uma marionete.

Ela cura, fortalece e capacita o homem a responder livremente.

Por isso São Paulo pode dizer:

“Trabalhai na vossa salvação com temor e tremor.”

Filipenses 2,12.

Mas imediatamente acrescenta:

“Porque é Deus quem opera em vós o querer e o realizar, segundo a sua vontade.”

Filipenses 2,13.

É exatamente isso.

Nós lutamos.

Mas Deus nos dá a força para lutar.

Nós respondemos.

Mas a graça vem primeiro.

Nós perseveramos.

Mas é Deus quem sustenta nossa perseverança.

A grande “violência” é contra o nosso próprio ego

Talvez o maior obstáculo para o Reino não esteja fora de nós.

Está dentro.

É o orgulho.

É o “eu quero”.

É o “eu faço do meu jeito”.

É o “ninguém manda em mim”.

É o “não preciso mudar”.

É o “Deus precisa aceitar minhas escolhas”.

É justamente aí que o Evangelho exige violência.

Cristo diz:

“Renuncie a si mesmo.”

Mateus 16,24.

Não é destruir a própria personalidade.

É destruir o ego que pretende ocupar o lugar de Deus.

Não é odiar a si mesmo.

É deixar de tratar a própria vontade como o critério supremo do bem e do mal.

O Céu é gratuito, mas não é barato

Essa frase resume muito bem a questão.

O Céu é gratuito porque não podemos comprá-lo.

A salvação é graça.

Cristo morreu por nós.

Mas o fato de ser gratuito não significa que seja barato.

Custou o sangue de Cristo.

E seguir Cristo custa nossa conversão.

Por isso o Catecismo afirma:

“O caminho desta perfeição passa pela cruz. Não há santidade sem renúncia e combate espiritual.”

Catecismo da Igreja Católica, § 2015.

Afinal, o que Jesus quis dizer?

Quando Jesus disse:

“O Reino dos Céus sofre violência, e os violentos se apoderam dele”,

Ele não estava canonizando a violência humana.

Estava utilizando uma linguagem forte para revelar uma verdade igualmente forte:

O Reino de Deus não deve ser tratado com indiferença.

Quem deseja Cristo precisa querer Cristo de verdade.

Quem deseja o Céu precisa lutar contra aquilo que o afasta do Céu.

Quem deseja santidade precisa aceitar a cruz.

Quem deseja vencer o pecado precisa combatê-lo.

Quem deseja seguir Jesus precisa renunciar a si mesmo.

É por isso que São João Crisóstomo dizia que não é possível alcançar o Reino pela negligência, mas pelo zelo.

E é por isso que São Tomás de Aquino relaciona Mateus 11,12 ao combate espiritual contra o demônio e às palavras de São Pedro e São Tiago.

A pergunta que realmente importa

Talvez a pergunta não seja:

“Sou uma pessoa violenta?”

A pergunta de Jesus é muito mais profunda:

“Estou disposto a combater aquilo que me separa de Deus?”

Estou disposto a abandonar um pecado?

Estou disposto a perdoar alguém?

Estou disposto a controlar minha língua?

Estou disposto a fugir de uma ocasião de pecado?

Estou disposto a abandonar um relacionamento que me conduz ao pecado?

Estou disposto a renunciar ao orgulho?

Estou disposto a confessar meus pecados?

Estou disposto a rezar mesmo quando não estou com vontade?

Estou disposto a permanecer fiel quando ser fiel custa alguma coisa?

Porque é justamente aí que Mateus 11,12 deixa de ser um versículo estranho e passa a ser um dos textos mais exigentes do Evangelho.

A verdadeira violência que Jesus pede

O mundo ensina:

“Faça tudo aquilo que você deseja.”

Jesus ensina:

“Renuncie a si mesmo.”

O mundo diz:

“Se alguém feriu você, vingue-se.”

Jesus diz:

“Amai os vossos inimigos.”

O mundo diz:

“Busque o prazer acima de tudo.”

Jesus diz:

“Bem-aventurados os puros de coração.”

O mundo diz:

“Faça da sua vontade a medida de todas as coisas.”

Jesus diz:

“Seja feita a vossa vontade.”

O mundo diz:

“Não se prive de nada.”

Jesus diz:

“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo.”

E talvez seja justamente por isso que Jesus falou em “violência”.

Porque seguir Cristo exige uma ruptura.

Exige decisão.

Exige perseverança.

Exige combate.

Exige cruz.

Mas, no final desse combate, não encontramos simplesmente uma recompensa.

Encontramos o próprio Cristo.

E é por isso que o cristão luta.

Não para obrigar Deus a lhe dar o Céu.

Mas porque descobriu que nada neste mundo vale mais do que conquistar aquilo que São Paulo chamou de “prêmio da vocação do alto, em Cristo Jesus” (Filipenses 3,14).

A verdadeira violência cristã não é ferir o outro.

É não permitir que o pecado continue reinando em nós.

É arrancar do coração aquilo que ocupa o lugar de Deus.

É crucificar o homem velho.

É lutar contra a concupiscência.

É resistir ao demônio.

É vencer o próprio orgulho.

É perseverar na graça.

É permanecer fiel até o fim.

E então entendemos a frase de Jesus:

“O Reino dos Céus sofre violência, e os violentos se apoderam dele.”

Não são os violentos que destroem pessoas que entram no Reino.

São aqueles que, pela graça de Deus, tiveram coragem de combater o pecado dentro de si e permaneceram firmes no caminho de Cristo.

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