Por que Jesus insistiu tanto que eu renuncie as minhas vontades?


Que vontades são essas que Jesus quer que eu renuncie? O que é vontade desordenada? O que realmente ganho quando perco minhas vontades por Cristo? Será que seguir meus próprios desejos me conduz à vida plena ou apenas a ilusões passageiras? Por que Jesus associa a renúncia ao verdadeiro caminho da liberdade? O que significa carregar a cruz hoje, em meio às tentações e escolhas do mundo moderno? Estou disposto a morrer para mim mesmo, para então viver em Cristo? Vale a pena conquistar o mundo inteiro se, no processo, eu perder minha alma?

Por que Jesus insistiu tanto que eu renuncie às minhas vontades?

“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”

Existe uma frase de Jesus que, para a mentalidade moderna, parece quase um absurdo:

“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”
(Mateus 16,24)

Mas por que Jesus pediria isso?

Por que Deus, que nos criou com inteligência, liberdade, personalidade, desejos e sonhos, pediria que renunciássemos a nós mesmos?

Será que o cristianismo ensina que devemos deixar de ser quem somos?

Será que Deus quer destruir nossos desejos?

Será que santidade significa viver uma vida triste, sem vontade própria, como se a pessoa precisasse apagar sua personalidade para agradar a Deus?

Não.

E compreender isso é fundamental para entender o Evangelho.

Jesus não está dizendo: “odeie a si mesmo”.

Jesus está dizendo: “não faça de si mesmo o seu próprio deus”.

Existe uma diferença gigantesca entre essas duas coisas.

O contexto de Mateus 16 muda completamente a interpretação

Antes de Jesus falar sobre renunciar a si mesmo, acontece algo muito importante.

Pedro acaba de professar que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo. Jesus então começa a revelar aos discípulos que deverá ir a Jerusalém, sofrer, morrer e ressuscitar.

Pedro não aceita aquilo.

Ele chama Jesus à parte e começa a repreendê-lo:

“Deus não permita, Senhor! Isso jamais te acontecerá!”

E Jesus responde de maneira assustadoramente forte:

“Para trás de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de escândalo, porque não tens em mente as coisas de Deus, mas as dos homens.”

(Mateus 16,22-23)

É imediatamente depois disso que Jesus diz:

“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”

(Mateus 16,24)

Perceba a conexão.

Pedro queria um Cristo sem cruz.

Pedro queria um Messias segundo seus próprios pensamentos.

Pedro amava Jesus, mas naquele momento queria que Jesus seguisse a vontade de Pedro.

E Jesus mostra que esse é justamente o problema.

A fé cristã começa quando eu deixo de perguntar apenas:

“Jesus, o que o Senhor pode fazer por mim?”

E começo a perguntar:

“Senhor, o que queres que eu faça?”

O grego revela a força das palavras de Jesus

O texto grego de Mateus 16,24 diz:

“Εἴ τις θέλει ὀπίσω μου ἐλθεῖν, ἀπαρνησάσθω ἑαυτὸν καὶ ἀράτω τὸν σταυρὸν αὐτοῦ καὶ ἀκολουθείτω μοι.”

“Se alguém quer vir após mim, que renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”

A expressão especialmente importante é:

“ἀπαρνησάσθω ἑαυτόν”

“aparnēsásthō heautón”

O verbo “ἀπαρνέομαι” significa negar, renunciar, repudiar, não reconhecer como autoridade sobre si.

Portanto, Jesus não está simplesmente falando de abrir mão de pequenas preferências.

Ele está falando de uma mudança radical de senhorio.

Quem governa minha vida?

Minha vontade?

Meu ego?

Meus impulsos?

Meus desejos?

Minha opinião?

Ou Deus?

É por isso que São João Crisóstomo percebe uma relação direta entre a repreensão de Pedro e a ordem de Cristo para que o discípulo renuncie a si mesmo. Para Crisóstomo, Jesus mostra que não basta reconhecer quem Ele é; é necessário aceitar o caminho que Ele próprio percorre: a cruz.

Renunciar a si mesmo não significa odiar a própria pessoa

Aqui existe uma confusão muito comum.

A Igreja Católica não ensina que devemos desprezar nossa humanidade.

Deus criou o homem bom.

“Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom.”

(Gênesis 1,31)

O problema não é existir.

O problema não é ter desejos.

O problema não é possuir vontade própria.

O problema acontece quando a vontade humana se revolta contra Deus e decide:

“Eu quero ser a medida do bem e do mal.”

Foi exatamente essa lógica que apareceu no pecado original.

A serpente apresenta ao homem a possibilidade de ser “como Deus” (Gênesis 3,5), não através da comunhão com Deus, mas através da autonomia contra Deus.

O pecado, portanto, é muito mais profundo do que simplesmente quebrar uma regra.

É colocar a própria vontade acima da vontade do Criador.

O cristianismo não destrói a liberdade: ele ensina a verdadeira liberdade

Essa é uma das maiores ironias do Evangelho.

Jesus pede que renunciemos à nossa vontade desordenada justamente para que sejamos verdadeiramente livres.

O Catecismo da Igreja Católica ensina:

“A liberdade é a força de crescimento e de maturação na verdade e na bondade. E atinge a sua perfeição quando está ordenada para Deus.”

(Catecismo da Igreja Católica, 1731)

E continua:

“Quanto mais o homem fizer o bem, mais livre se torna.”

(Catecismo da Igreja Católica, 1733)

Isso parece contraditório para o mundo moderno.

O mundo frequentemente diz:

“Sou livre quando faço o que quero.”

Cristo apresenta uma visão diferente:

“Sou livre quando consigo querer aquilo que é verdadeiramente bom.”

Existe uma enorme diferença.

Um homem dominado pela ira não é verdadeiramente livre.

Um homem dominado pela pornografia não é verdadeiramente livre.

Um homem dominado pela ganância não é verdadeiramente livre.

Um homem que não consegue perdoar não é verdadeiramente livre.

Um homem que precisa satisfazer todos os seus desejos não é verdadeiramente livre.

Ele pode fazer exatamente aquilo que deseja.

Mas é escravo daquilo que deseja.

São Paulo descreve essa experiência de maneira impressionante:

“Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero.”

(Romanos 7,19)

Jesus não quer destruir a nossa vontade; quer curá-la

Essa distinção é fundamental.

Deus não quer que você deixe de ter vontade.

Ele quer que sua vontade seja transformada.

A vontade humana foi criada para o bem.

Mas o pecado introduziu uma desordem interior.

O Catecismo explica que a concupiscência é um movimento do apetite sensível que pode contrariar a razão e que, embora não seja pecado em si mesma, inclina o homem ao pecado.

(Catecismo da Igreja Católica, 2515)

Por isso, a vida cristã não consiste simplesmente em obedecer externamente a regras.

É uma batalha interior.

É aprender a dizer:

“Eu gostaria disso, mas isso não me aproxima de Deus.”

“Eu tenho vontade de responder com raiva, mas vou me calar.”

“Eu gostaria de alimentar esse ressentimento, mas vou perdoar.”

“Eu quero fazer isso, mas sei que é pecado.”

“Eu não quero rezar agora, mas vou rezar.”

“Eu não quero perdoar, mas vou pedir a Deus a graça de perdoar.”

Isso é renunciar a si mesmo.

A grande batalha é entre “eu quero” e “Deus quer”

São Paulo apresenta esse combate interior em Gálatas:

“Porque a carne deseja contra o Espírito, e o Espírito contra a carne.”

(Gálatas 5,17)

E depois afirma:

“Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne com suas paixões e concupiscências.”

(Gálatas 5,24)

Observe a linguagem.

“Crucificaram.”

Não significa destruir a natureza humana.

Significa colocar sob o domínio de Cristo aquilo que se revolta contra Deus.

É justamente por isso que São Paulo diz:

“Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.”

(Gálatas 2,20)

O objetivo da renúncia cristã não é produzir um “eu vazio”.

É permitir que Cristo viva em mim.

O próprio Jesus viveu aquilo que nos pediu

Existe uma razão profundamente cristológica para a renúncia.

Jesus não apenas mandou que carregássemos a cruz.

Ele carregou primeiro.

No Getsêmani, encontramos uma das cenas mais impressionantes do Evangelho:

“Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice! Contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres.”

(Mateus 26,39)

Aqui está o coração da vida cristã.

Jesus manifesta a realidade de sua humanidade. Ele experimenta a angústia diante do sofrimento.

Mas sua vontade humana permanece perfeitamente unida à vontade do Pai.

“Não seja como eu quero, mas como tu queres.”

Isso é a verdadeira obediência.

Não é ausência de vontade.

É uma vontade humana perfeitamente orientada para Deus.

Maria também ensina a mesma lógica

Quando o anjo anuncia a Maria que ela será a mãe do Messias, Maria responde:

“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”

(Lucas 1,38)

Maria não desaparece.

Ela não deixa de ser pessoa.

Ela não perde sua liberdade.

Pelo contrário.

É justamente através de sua liberdade que ela entrega sua vontade a Deus.

A santidade não é deixar de possuir uma vontade.

É entregar livremente a vontade a Deus.

“Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la”

Jesus continua:

“Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas aquele que perder a sua vida por minha causa, vai encontrá-la.”

(Mateus 16,25)

No grego, aparece novamente a palavra:

“ψυχή”

“psychē”

Ela pode significar “vida”, “alma” ou “vida pessoal”, dependendo do contexto.

O texto grego de Mateus 16,25 coloca lado a lado:

“ὃς γὰρ ἐὰν θέλῃ τὴν ψυχὴν αὐτοῦ σῶσαι ἀπολέσει αὐτήν”

“Aquele que quiser salvar a sua vida a perderá.”

E:

“ὃς δ’ ἂν ἀπολέσῃ τὴν ψυχὴν αὐτοῦ ἕνεκεν ἐμοῦ εὑρήσει αὐτήν”

“Aquele que perder a sua vida por minha causa a encontrará.”

É o grande paradoxo do Evangelho.

Quando tento possuir minha vida completamente, acabo perdendo-a.

Quando entrego minha vida a Deus, encontro sua verdadeira finalidade.

A pessoa que vive para satisfazer todas as vontades acaba escravizada por elas

Imagine alguém que nunca consegue dizer “não” a si mesmo.

Quer comer? Come.

Quer beber? Bebe.

Quer gastar? Gasta.

Quer assistir? Assiste.

Quer responder? Responde.

Quer pecar? Peca.

Quer abandonar uma obrigação? Abandona.

Quer guardar rancor? Guarda.

Quer alimentar um desejo desordenado? Alimenta.

Essa pessoa pode dizer:

“Faço o que quero.”

Mas Jesus perguntaria:

“Você realmente consegue não fazer o que quer?”

Porque existe uma liberdade muito maior:

“Eu posso desejar algo e, mesmo assim, dizer não.”

Isso é domínio próprio.

Isso é liberdade.

Isso é maturidade.

Isso é ascese cristã.

São Agostinho explica por que negar-se é encontrar-se

Santo Agostinho compreendeu profundamente esse paradoxo.

No Sermão 96, ao comentar justamente o mandamento de Cristo de negar-se a si mesmo, ele explica que o homem se perde quando transforma o amor de si mesmo em centro de sua existência.

Agostinho chega a uma formulação extraordinária: amar a si mesmo de maneira desordenada é querer fazer a própria vontade acima da vontade de Deus. Para ele, negar-se significa não presumir de si, reconhecer a própria condição de criatura e voltar-se para Deus.

A ideia pode ser resumida assim:

O homem não encontra a si mesmo quando se coloca no centro.

Ele encontra a si mesmo quando volta para Deus.

Isso combina perfeitamente com aquilo que Agostinho escreveu nas Confissões:

“Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti.”

(Santo Agostinho, Confissões, I, 1, 1)

A criatura só encontra sua verdadeira identidade quando retorna ao Criador.

São João Crisóstomo: não existe seguimento de Cristo sem cruz

São João Crisóstomo comenta que Jesus falou sobre a cruz justamente depois de Pedro tentar impedir sua Paixão.

Cristo estava ensinando aos discípulos que o caminho do Mestre também seria o caminho do discípulo.

Crisóstomo interpreta a passagem como uma exigência de disposição para morrer para o pecado, para o egoísmo e para tudo aquilo que impede o seguimento de Cristo.

É interessante observar que Crisóstomo não trata a cruz como um acidente desagradável da vida cristã.

A cruz pertence ao próprio caminho.

Não existe Cristo sem cruz.

E não existe verdadeiro discipulado sem participação na cruz de Cristo.

São Paulo confirma:

“Se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo, se de fato sofremos com ele, para sermos também glorificados com ele.”

(Romanos 8,17)

São Bernardo e o perigo da própria vontade

São Bernardo de Claraval escreveu páginas impressionantes sobre a “vontade própria”.

Em sua obra Sobre o Amor de Deus, ele explica que o homem pode transformar a própria vontade em uma espécie de lei particular, colocando-a contra a ordem de Deus.

Para Bernardo, o problema não está simplesmente em possuir vontade, mas em fazer da própria vontade uma autoridade superior à vontade divina.

Essa reflexão ajuda a compreender Mateus 16.

Jesus não está dizendo:

“Você não pode querer nada.”

Ele está dizendo:

“Você não pode fazer da sua vontade o seu deus.”

São Tomás de Aquino: a perfeição passa pela ordenação da vontade

São Tomás de Aquino também mostra que o problema não está na vontade humana enquanto tal.

A vontade precisa ser ordenada ao bem.

Na análise de Tomás sobre a vida religiosa, ele explica que um dos grandes obstáculos à perfeição é a desordem da vontade, e apresenta a obediência como meio de combater essa desordem.

Isso é muito importante porque mostra que a tradição católica não considera a vontade humana como algo mau.

A vontade é um dom de Deus.

O problema acontece quando ela se desliga do seu verdadeiro fim.

É como um rio.

A água é boa.

Mas, quando sai do leito, pode causar destruição.

A vontade humana também é boa.

Mas, quando abandona a verdade e o bem, pode destruir a própria pessoa.

O Catecismo chama isso de caminho de conversão

O Catecismo é extremamente direto:

“Tomar a sua cruz todos os dias e seguir Jesus é o caminho mais seguro da penitência.”

(Catecismo da Igreja Católica, 1435)

Observe a palavra “todos os dias”.

Jesus não está falando apenas de grandes sacrifícios.

A cruz aparece nas pequenas decisões.

É levantar para rezar quando não se está com vontade.

É cumprir uma obrigação que não queremos cumprir.

É perdoar quando queremos vingança.

É controlar a língua quando queremos ferir.

É permanecer fiel quando seria mais fácil abandonar tudo.

É rejeitar uma tentação quando ninguém está olhando.

É aceitar uma humilhação sem responder com orgulho.

É fazer o bem quando ninguém irá agradecer.

É dizer:

“Senhor, eu preferiria outra coisa, mas quero aquilo que Tu queres.”

A cruz não é procurar sofrimento

Aqui também existe um equilíbrio católico fundamental.

Tomar a cruz não significa procurar sofrimento de maneira doentia.

O cristão não precisa fabricar sofrimentos.

A cruz aparece quando a fidelidade a Cristo exige sacrifício.

O Catecismo ensina que a penitência pode incluir oração, obras de misericórdia, serviço ao próximo, renúncia voluntária e, sobretudo, a aceitação paciente da cruz que precisamos carregar.

Portanto, a cruz cristã não é masoquismo.

É amor.

Cristo não sofreu porque amava o sofrimento.

Cristo sofreu porque amava o Pai e nos amava.

A cruz é o preço que o amor está disposto a pagar pela fidelidade.

A renúncia cristã não significa abandonar as coisas boas

Também não devemos cair em outro extremo.

Jesus não está dizendo que dinheiro é necessariamente mau.

Que casamento é mau.

Que família é má.

Que comida é má.

Que descanso é mau.

Que prazer legítimo é mau.

Que trabalho é mau.

Que sonhos são maus.

A Igreja ensina que as realidades criadas são boas quando utilizadas segundo a ordem de Deus.

O problema acontece quando um bem criado se transforma no bem supremo.

O dinheiro pode ser um instrumento.

Mas, quando se transforma em senhor, torna-se idolatria.

O trabalho pode ser vocação.

Mas, quando substitui Deus e a família, torna-se desordem.

O relacionamento pode ser uma bênção.

Mas, quando alguém coloca outra pessoa no lugar de Deus, torna-se idolatria afetiva.

O prazer pode ser legítimo.

Mas, quando passa a governar a pessoa, transforma-se em escravidão.

É por isso que Jesus diz:

“Ninguém pode servir a dois senhores.”

(Mateus 6,24)

“Que adianta ganhar o mundo inteiro?”

Então Jesus lança uma pergunta que atravessa os séculos:

“Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?”

(Mateus 16,26)

No grego:

“τί γὰρ ὠφεληθήσεται ἄνθρωπος ἐὰν τὸν κόσμον ὅλον κερδήσῃ”

“Que proveito terá o homem se ganhar o mundo inteiro...?”

É uma pergunta brutalmente atual.

Você pode ganhar dinheiro.

Pode ganhar fama.

Pode ganhar seguidores.

Pode conquistar reconhecimento.

Pode comprar uma casa.

Pode construir uma empresa.

Pode alcançar prestígio.

Pode ter milhares de pessoas admirando você.

Mas existe uma pergunta que nenhum desses bens consegue responder:

“E a sua alma?”

Jesus está colocando a eternidade acima de todas as conquistas temporais.

A cruz está ligada ao juízo final

E existe ainda um detalhe que muitas vezes passa despercebido.

Jesus termina dizendo:

“Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um segundo as suas obras.”

(Mateus 16,27)

Portanto, Jesus começa falando de cruz e termina falando de juízo.

Por quê?

Porque a vida presente possui consequências eternas.

O cristianismo não ensina:

“Faça o que quiser agora e depois Deus dará um jeito.”

Jesus ensina responsabilidade.

São Paulo também afirma:

“Todos nós teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito durante a vida, seja para o bem, seja para o mal.”

(2 Coríntios 5,10)

A graça não elimina nossa responsabilidade.

A graça transforma nossa vida para que possamos viver segundo Deus.

Renunciar é aprender a dizer “não” ao pecado e “sim” a Deus

Talvez seja possível resumir toda essa passagem numa única pergunta:

“Quem está no comando da minha vida?”

Se eu digo:

“Minha vontade é absoluta.”

Então ainda estou no centro.

Se digo:

“Quero fazer aquilo que Deus quer, mesmo quando isso exige sacrifício.”

Então estou começando a seguir Cristo.

É exatamente por isso que Jesus começa sua frase com:

“Se alguém quer...”

“Εἴ τις θέλει”

“Se alguém quiser...”

Jesus não força.

Jesus convida.

A cruz não é imposta como uma violência contra a liberdade.

Ela é abraçada livremente por amor.

O discípulo diz:

“Eu quero seguir.”

E então descobre que seguir Cristo significa abandonar tudo aquilo que impede esse seguimento.

A renúncia é uma prova de amor

Jesus poderia ter dito simplesmente:

“Obedeça às minhas regras.”

Mas Ele diz:

“Segue-me.”

Isso muda tudo.

O cristianismo não é principalmente um código de comportamento.

É uma relação com uma Pessoa.

Cristo não diz:

“Carregue qualquer cruz.”

Ele diz:

“Carregue a sua cruz e siga-me.”

A cruz só faz sentido porque existe alguém à nossa frente.

E esse alguém é Cristo.

O cristão não renuncia por amar o sofrimento.

Renuncia porque ama Cristo mais do que aquilo a que está renunciando.

Santo Agostinho percebeu isso profundamente. Em seu Sermão 46, ele explica que aquilo que parece pesado se torna suportável pelo amor, lembrando que o próprio amor faz com que pessoas suportem grandes esforços por aquilo que amam. E então aplica essa lógica ao seguimento de Cristo: quem ama Cristo aprende a negar a si mesmo por causa desse amor.

A cruz é o caminho para a verdadeira liberdade

Aqui está talvez o maior paradoxo do Evangelho.

O mundo diz:

“Seja livre fazendo tudo aquilo que deseja.”

Cristo diz:

“Seja livre aprendendo a dominar aquilo que deseja.”

O mundo diz:

“Não negue nada a si mesmo.”

Cristo diz:

“Renuncie ao que está destruindo você.”

O mundo diz:

“Coloque você mesmo no centro.”

Cristo diz:

“Coloque Deus no centro.”

O mundo diz:

“Faça sua própria verdade.”

Cristo diz:

“Eu sou a Verdade.”

(João 14,6)

O Catecismo ensina que a liberdade encontra sua perfeição quando está orientada para Deus e que a prática do bem aumenta a liberdade, enquanto o pecado conduz à escravidão.

Por isso, a renúncia cristã não é uma prisão.

É uma libertação.

A renúncia transforma o “eu quero” em “Senhor, o que queres?”

Esse é o amadurecimento espiritual.

No começo da vida cristã, muitas vezes perguntamos:

“Deus, faça aquilo que eu quero.”

Depois aprendemos:

“Deus, me ajude a querer aquilo que Tu queres.”

E finalmente chegamos ao coração da oração de Cristo:

“Não seja feita a minha vontade, mas a tua.”

(Lucas 22,42)

Essa é a verdadeira renúncia.

Não é deixar de existir.

É deixar de ser escravo de si mesmo.

Não é destruir a vontade.

É entregar a vontade.

Não é odiar a própria vida.

É encontrar a verdadeira vida em Cristo.

Os santos entenderam aquilo que o mundo não entende

São Bernardo percebeu o peso da “vontade própria”.

Santo Agostinho percebeu que o homem se perde quando se ama de maneira desordenada e se encontra quando retorna a Deus.

São João Crisóstomo percebeu que não existe verdadeiro discipulado sem cruz.

São Tomás de Aquino mostrou a necessidade de ordenar a vontade ao verdadeiro bem.

Todos eles estão apontando para a mesma realidade:

O maior inimigo da alma não é simplesmente aquilo que existe fora de nós.

É o “eu” que deseja ocupar o lugar de Deus.

O Catecismo coloca a cruz no centro da vida cristã

O Catecismo não apresenta a renúncia como uma prática reservada aos religiosos.

A vida cristã inteira é um caminho de conversão.

O Catecismo afirma que a conversão acontece na vida cotidiana por meio da reconciliação, da caridade, da correção fraterna, do exame de consciência, da direção espiritual, da aceitação dos sofrimentos e da coragem de suportar a perseguição por amor à justiça.

E conclui:

“Tomar a sua cruz todos os dias e seguir Jesus é o caminho mais seguro da penitência.”

(Catecismo da Igreja Católica, 1435)

O Catecismo volta novamente ao ensinamento de Jesus em Mateus 16,24 ao tratar da perfeição cristã:

“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”

(Catecismo da Igreja Católica, 2029)

Portanto, não estamos diante de uma interpretação particular.

É o próprio coração da doutrina católica sobre o discipulado.

E quando eu não tiver forças?

Aqui está uma verdade consoladora.

Jesus não pede que façamos isso sozinhos.

A graça de Deus precede, acompanha e sustenta a nossa resposta.

Santo Agostinho observou justamente isso ao comentar o mandamento de Cristo: aquilo que Deus ordena não é impossível para aquele que recebe de Deus a ajuda necessária para realizá-lo.

É por isso que São Paulo pode dizer:

“Tudo posso naquele que me fortalece.”

(Filipenses 4,13)

Não significa que posso conseguir qualquer coisa que eu deseje.

Significa que, unido a Cristo, posso permanecer fiel mesmo quando a fidelidade exige sacrifício.

A pergunta que Mateus 16 faz para cada um de nós

Talvez a pergunta mais importante não seja:

“Qual é a minha cruz?”

Antes disso, precisamos perguntar:

“Quem está governando minha vida?”

Quando Deus diz “perdoe”, eu faço o que quero ou faço o que Deus quer?

Quando Deus diz “seja fiel”, eu faço o que quero ou faço o que Deus quer?

Quando Deus diz “seja casto”, eu faço o que quero ou faço o que Deus quer?

Quando Deus diz “ame seus inimigos”, eu faço o que quero ou faço o que Deus quer?

Quando Deus diz “não peque”, eu faço o que quero ou faço o que Deus quer?

Quando a cruz aparece, eu digo:

“Senhor, tira isso de mim.”

Ou consigo chegar ao ponto de dizer:

“Senhor, se esta é a cruz que devo carregar contigo, dá-me a graça de carregá-la.”

A grande inversão do Evangelho

Jesus apresenta uma lógica que o mundo dificilmente compreende:

“Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la.”

“Quem perder a sua vida por minha causa, vai encontrá-la.”

(Mateus 16,25)

É a grande inversão cristã.

Para encontrar a verdadeira vida, preciso abandonar a vida construída exclusivamente ao redor do meu ego.

Para encontrar a verdadeira liberdade, preciso abandonar a escravidão dos meus desejos desordenados.

Para encontrar a verdadeira felicidade, preciso deixar de tratar meus desejos como deuses.

Para encontrar a verdadeira identidade, preciso descobrir quem sou diante de Deus.

E para encontrar a verdadeira vida, preciso encontrar Cristo.

Conclusão: Jesus não quer tirar sua vida, quer salvá-la

Agora podemos entender por que Jesus insistiu tanto:

“Renuncie a si mesmo.”

Ele não está dizendo:

“Você não tem valor.”

Está dizendo exatamente o contrário.

Você tem tanto valor que não deve desperdiçar sua vida sendo escravo de desejos passageiros.

Você foi criado para algo maior.

Você foi criado para Deus.

Sua vontade é um dom.

Sua liberdade é um dom.

Sua inteligência é um dom.

Seu corpo é um dom.

Sua vida é um dom.

Mas nenhum desses dons foi criado para ocupar o lugar do Doador.

A verdadeira renúncia cristã é esta:

“Senhor, eu entrego a Ti aquilo que em mim ainda quer governar sem Ti.”

E talvez seja justamente aí que começa a verdadeira liberdade.

Porque quando o homem deixa de viver dizendo:

“Seja feita a minha vontade”

e começa a rezar sinceramente:

“Seja feita a vossa vontade”,

ele não perde a vida.

Ele finalmente começa a encontrá-la.

Como escreveu Santo Agostinho, aquele que se perde no amor desordenado de si mesmo precisa negar-se para reencontrar-se em Deus.

E como o próprio Cristo prometeu:

“Quem perder a sua vida por minha causa, vai encontrá-la.”

(Mateus 16,25)

Esse é o paradoxo da cruz.

Aquele que entrega tudo a Cristo não termina vazio.

Termina cheio de Cristo.

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